‘Tabaco energético’ surge como opção no Sul

Tamires Kopp/Valor / Tamires Kopp/Valor
O produtor Nelson Tasch (esq.) e Sergio Detoie Martins, controlador da M&V: objetivo é incluir o "tabaco energético" em cerca de 20 mil hectares em cinco anos para servir de alternativa de renda

A Sunchem South Brazil, uma joint venture formada pela italiana Sunchem e pela gaúcha M&V Participações, está buscando investidores para tocar adiante um projeto que pretende transformar sementes de tabaco em energia. A ideia é aproveitar a experiência dos produtores de fumo no Rio Grande do Sul para cultivar uma variedade da planta desenvolvida e patenteada pela sócia na Itália, sem nicotina e inútil para a fabricação de cigarros, mas rica em óleo para produção de biocombustíveis.

Controlador da M&V, o engenheiro químico paulista Sérgio Detoie Cardoso, de 38 anos e radicado há dois em Porto Alegre, cuida pessoalmente do trabalho. O plano inclui o plantio do chamado "tabaco energético", em sistema de integração com os agricultores locais, em aproximadamente 20 mil hectares em cinco anos e 50 mil em dez anos e, antes disso, a construção de uma usina de extração do óleo com capacidade inicial de esmagamento de 100 mil a 200 mil toneladas de sementes por ano.

Cardoso já botou R$ 1 milhão no negócio, além de outros R$ 500 mil aportados por um investidor do Rio de Janeiro. Também está negociando incentivos fiscais com a prefeitura de Santa Cruz do Sul e obteve o apoio da universidade local, a Unisc, que já faz testes de aplicações alternativas para o óleo, incluindo nos segmentos farmacêutico e de cosméticos, e deve ceder – ou alugar – uma área no seu parque tecnológico para a futura indústria.

Agora ele precisa captar mais cerca de R$ 2 milhões para formar a rede de produtores integrados, contratar pessoal e cobrir despesas operacionais ao longo dos próximos dois anos. A usina exigirá investimento maior, de R$ 10 milhões a R$ 20 milhões, mas terá potencial de faturamento de R$ 230 milhões por ano se a capacidade de processamento de 200 mil toneladas anuais de sementes for integralmente preenchida.

Essa projeção, segundo Cardoso, é "conservadora" porque leva em conta uma média de R$ 2,3 mil por tonelada de óleo para biocombustíveis. Segundo ele, o produto derivado do tabaco energético é mais apropriado para o bioquerosene de aviação por apresentar ponto de congelamento de menos 20 graus centígrados, ante menos seis graus na média dos concorrentes, e pode alcançar cotações de até R$ 3,7 mil por tonelada.

Confiante que tem nas mãos uma boa opção de diversificação de cultura para os fumicultores, o empresário concluiu a primeira colheita em uma lavoura-piloto de dez hectares do produtor Nelson Tatsch, no município de Rio Pardo, no fim de outubro. A área rendeu 2 toneladas de sementes apesar do clima adverso, já que o cultivo foi feito entre abril e maio – período inverso ao do plantio do fumo convencional para cigarros -, e sofreu primeiro com a estiagem e depois com uma forte geada.

"A planta é mais robusta e pode ser plantada em áreas mais pobres do que as destinadas ao tabaco convencional", explica Cardoso. Se o cultivo acompanhar o ciclo tradicional, a produtividade anual poderá chegar a 6 toneladas de semente por hectare em três cortes das cápsulas que crescem no topo das plantas, afirma o empresário, que também está negociando com produtores do Uruguai e da Argentina para tentar estender o projeto aos dois países.

Parte da primeira safra de tabaco energético, colhida agora, foi guardada para servir como semente em futuras lavouras e parte será esmagada pela empresa HT Nutri, em Camaquã, para comprovar a qualidade e o teor de óleo, que deve ficar entre 35% e 39%, mais do que o dobro do teor da soja. Além disso, a matéria seca que resulta do esmagamento pode ser aproveitada para produção de ração animal e os caules e folhas das plantas, como biomassa também para produção de energia.

Apesar da crescente pressão contra o cigarro em todo o mundo, Cardoso não espera que o tabaco energético tome o lugar da planta convencional, que garante uma renda elevada para os produtores. "Mas queremos que seja o segundo melhor negócio do fumicultor", afirma o empresário, lembrando que o trato cultural da variedade é mais simples. "Não precisa colher nem curar as folhas e a colheita pode ser mecanizada", atesta Tatsch.

Segundo o empresário, o plano da Sunchem South Brazil prevê uma remuneração bruta de R$ 4 mil a R$ 6 mil por hectare/ano para os integrados. O valor perde de longe para os R$ 14,5 mil faturados em média por hectare na última safra de fumo convencional, colhida no início do ano, mas supera o milho, que é o grão mais usado como diversificação cultural na região e rende entre 60 e 100 sacas por hectare, o que, conforme o levantamento de preços da Emater-RS, representa atualmente entre R$ 1,7 mil e R$ 2,8 mil por hectare por ano.

"O tabaco energético pode ser uma boa opção aos produtores de fumo para cigarros, mas é necessário fazer testes em uma quantidade maior de lavouras para avaliar os resultados", comenta o engenheiro agrônomo da Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), Marco Antônio Dornelles. De acordo com ele, Cardoso já apresentou o projeto para a entidade, que também precisa analisar os custos envolvidos na cultura antes de recomendar a adesão dos associados ao modelo.

Área disponível não será problema. As 140 mil propriedades de fumicultores no Sul do país têm área média total de 16,8 hectares, dos quais apenas 2,5 hectares são destinados ao tabaco convencional e o restante é ocupado principalmente com milho, criação de animais e plantio de eucalipto, diz Dornelles. Na safra 2011/12, a produção de fumo para cigarro chegou a 710,5 mil toneladas nos três Estados da região, sendo quase 53% no Rio Grande do Sul. Cerca de 85% da safra são destinados ao mercado externo, de acordo com estatísticas do Sindicato Interestadual da Indústria de Tabaco (Sinditabaco).

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Fonte: Valor | Sérgio Ruck Bueno | De Porto Alegre

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