SUSTENTABILIDADE – Sistema agroflorestal reduz em 87% o custo com adubação para produzir café orgânico

Casal de produtores da Serra da Mantiqueira relata recuperação de macronutrientes do solo com apenas dois anos de implementação

+Café em agrofloresta (Foto: Café dos Contos/Divulgação)

(Foto: Café dos Contos/Divulgação)

Produtores de café especial em cultivo orgânico na parte mineira da Serra da Mantiqueira, região montanhosa e de difícil acesso logístico, o casal Mariana Mota e Paulo Araújo encontrou uma solução sustentável para reduzir os seus custos de produção: a agrofloresta.

Com dois anos de implementação, a regeneração dos macronutrientes do solo gerado pelo sistema produtivo adotado numa área um hectare com pasto degradado permitiu eliminar a necessidade de adubação nitrogenada e reduziu em 87% os custos com insumos especiais para produção orgânica.

“Esse tipo de adubação é uma adubação cara, de compostos, e isso acaba trazendo uma dificuldade de viabilização econômica”, explica Araújo, que cultiva no sítio Santa Fé, localizado em Monte Sião (MG).

Se no sistema tradicional os custos com nutrição vegetal chegavam a R$ 3 mil por hectare, este ano o produtor gastará pouco mais de R$ 400 com boro orgânico e gessagem para repor micronutrientes que a análise de solo apontou necessária no sistema agroflorestal.

“Se tivéssemos implementado numa área protegida, nem isso a gente estaria repondo. E a ideia é não repor, a ideia é chegar a custo zero – e acho que vamos chegar muito em breve”, completa Mariana.

Café em agrofloresta (Foto: Café dos Contos/Divulgação)

Paulo Araújo e Mariana Mota, produtores de café na Serra da Mantiqueira (Foto: Café dos Contos/Divulgação)

Diante dos resultados, os dois colheram neste ano sua última safra de café orgânico convencional, passando a adotar o sistema agroflorestal em 100% da sua produção já no ano que vem, quando colhem a primeira safra do sistema implementado em 2018.

“Neste ano, os pés já deram uma florada, que é um indicativo de como será a safra, e tivemos uma floração muito bonita”, lembra Mariana. O casal recebe cerca de R$ 100 pelo quilo do café produzido no sistema orgânico devido às características especiais da bebida – valor bem acima dos R$ 8,90 apontados pelo indicador do Cepea para o grão arábica atualmente.

"Entre os indicadores que fazem o café especial, além da especificação sensorial, tem também aspectos produtivos, como tipo de cultivo e responsabilidade socioambiental”, explica Mariana, cuja fazenda já possui características que garantem a qualidade da bebida.

“A gente está numa região de vocação cafeeira e, do ponto de vista ambiental, já tínhamos um local que produz bons cafés. E com alguns anos cultivando café orgânico, a gente começou a se aproximar das experiências de agroflorestal”, conta a produtora que, além de café, agora também se dedica à produção de banana, cedro australiano e macadâmia – todas consorciadas no sistema agroflorestal.

"Quando você pensa numa floresta, ninguém aduba ou irriga uma floresta. Ela tem um mecanismo de sustentação no qual ela se resolve por si mesma. A ideia de se ter um sistema agroflorestal é justamente trazer esses princípios naturais autossustentação para dentro dos sistemas produtivos"

Paulo Araújo, produtor rural

A previsão é de que o sistema gere uma produção de 2,6 toneladas de café e 3,7 toneladas de macadâmia, com previsão de receita anual de mais de R$ 90 mil quando for realizada a colheita do cedro australiano, cujo ciclo é de 16 anos e baliza o ciclo de vida do sistema, de 20 anos.

Segundo Valter Ziantoni, engenheiro florestal e fundador da Pretaterra, empresa que realizou o projeto de implantação e o estudo de viabilidade econômica do projeto, o sistema foi pensado para possuir baixa intensidade de manejo, reduzindo custos de produção e demanda de mão-de-obra e tornando mais fácil sua replicação por outros cafeicultores da região. 

“Todas as premissas utilizadas criam um sistema inteligente e diverso, melhorando as qualidades intrínsecas do solo e das plantas”, explica Ziantoni.

Diante do sucesso do sistema, disseminar a prática na região é justamente o próximo passo que Mariana e Paulo pretendem tomar. “Nós vemos muito poucas produções orgânicas na nossa região – e agroflorestais menos ainda. Por isso, estamos com o nosso sítio aberto. A gente quer mesmo é disseminar essas práticas, que são muito mais inteligentes e saudáveis em todos os pontos de vista”, afirma Mariana.

CLEYTON VILARINO

Fonte : Globo Rural

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *