SUSTENTABILIDADE – Restauração de APPs vira alternativa para ajudar na preservação da Mata Atlântica

Com apenas 12,5% da vegetação nativa em pé, bioma é o mais degradado do país

O Dia da Mata Atlântica, nesta quinta-feira (27/5), tem pouco a ser comemorado no Brasil. Afinal, apenas 12,5% da vegetação nativa se mantém em pé, tornando o bioma o mais degradado do país.

De acordo com Atlas da Mata Atlântica, elaborado pela Fundação SOS Mata Atlântica e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre outubro de 2019 a outubro de 2020 foram desmatados 13.053 hectares de floresta.

“Os desmatamentos seguem nas mesmas regiões de sempre. Vários desmatamentos foram observados em áreas interioranas e nos limites da Mata Atlântica com o Cerrado em Minas Gerais, na Bahia e no Piauí, além de regiões com araucárias no Paraná”, indica trecho do documento.

Área de desmatamento na Mata Atlântica até o ano de 2016, de acordo com o sistema Prodes (Foto: Terra Brasilis/INPE)

Área de desmatamento na Mata Atlântica até o ano de 2016, de acordo com o sistema Prodes. Na foto, o mapa mostra os aíses da América do Sul e a faixa em amarelo indica toda a extensão de desmatamentos no bioma. (Foto: Terra Brasilis/INPE)

Ainda de acordo com o Atlas, São Paulo é um dos Estados que apresenta desmatamento zero, o que significa que a degradação pode ter acontecido em até três hectares.

“Em muitos Estados que chegaram ao nível do desmatamento zero pode ocorrer o chamado efeito formiga, desmatamentos pequenos que o satélite não enxerga”, pondera o texto.

São Paulo

São Paulo possui cerca de 5.670.532 hectares de vegetação natural e tem um déficit estimado de 768.580 hectares de Áreas de Preservação Permanente (APPs), que precisam ser restaurados no local. Destes, 656.795 hectares são na Mata Atlântica e 111.785 hectares no Cerrado.

É o que aponta uma análise elaborada pelo GeoLab, ligado ao Departamento de Ciência do Solo da Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (Esalq/USP), também com a Fundação SOS Mata Atlântica.

"Observamos que faz muita diferença restaurar toda a APP, em vez de recuperar somente a faixa mínima"

Luís Fernando Guedes Pinto, diretor de Conhecimento da Fundação SOS Mata Atlântica

Este é o montante estimado para que o Estado, onde impera majoritariamente o bioma da Mata Atlântica, se adeque ambientalmente ao Código Florestal. Já o déficit de Reserva Legal foi estimado em 367.403, que podem ser restaurados no local ou compensados fora das propriedades. No total, precisam ser restaurados e/ou compensados 1,14 milhão de hectares.

"O ganho de vegetação nativa com a restauração somente de APPs será muito maior do que aquele que São Paulo teve ao longo dos últimos 10 anos, se compararmos com os dados do Inventário Florestal de 2020", afirma Kaline de Mello, bióloga, doutora em ciências e pós-doutoranda do GeoLab. Segundo o inventário, esse ganho foi de 4,9% em uma década (214 mil hectares de vegetação nativa).

Luís Fernando Guedes Pinto, diretor de conhecimento da Fundação, diz que a situação de São Paulo é um pouco melhor em relação a outros Estados, mas observa que a vegetação está distribuída desigualmente, com regiões de cobertura natural muito baixa.

Efeito da restauração de APPs na cobertura de vegetação nativa nos municípios do estado de São Paulo (Foto: Reprodução/GeoLab e SOS Mata Atlântica)

Efeito da restauração de APPs na cobertura de vegetação nativa nos municípios do estado de São Paulo (Foto: Reprodução/GeoLab e SOS Mata Atlântica)

"Observamos que faz muita diferença restaurar toda a APP, em vez de recuperar somente a faixa mínima. A recuperação das APPs pode atenuar esta situação em algumas bacias hidrográficas e municípios. Mas, para outras, o Estado precisa ir além para alcançar o mínimo necessário e dar um exemplo para os demais estados", ele comenta.

Em relação aos municípios paulistas, segundo a análise da GeoLab, apenas 104 (16% do total) possuem vegetação nativa maior ou igual a 30%. Esse número passaria para 134 com restauração da faixa mínima de APP e 160 com restauração total da APP.

A região do oeste paulista, que engloba Ribeirão Preto, Piracicaba e Paranapanema, aponta os piores índices, com vegetação nativa abaixo de 10% – que são considerados totalmente desflorestados segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).

Na Mata Atlântica, 117 (18%) têm atualmente vegetação nativa maior ou igual a 30% – esse número passaria para 147 (23%) com a restauração de faixa mínima de APP, e 176 (28%) com a restauração de APP total.

"Os municípios possuem realidades muito distintas de cobertura de vegetação nativa e na geografia dos déficits de APP. Diferentes estratégias de adequação ambiental precisam ser adotadas de acordo com essa realidade. Para alguns municípios, a restauração da faixa mínima de APP é suficiente para aumentar a cobertura de vegetação nativa de forma satisfatória, chegando a 20% ou 30%. Para outros, isso não é suficiente para melhorar o cenário de baixa cobertura de vegetação nativa. Por isso, a importância de compromissos voluntários e incentivos de recuperação de APP total", ressalta Gerd Sparovek, coordenador do Geolab.

MARIANA GRILLI

Fonte : Globo Rural

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