Sustentabilidade requer novo conceito de PIB, diz Pavan

"O crescimento da pegada ecológica e do Produto Interno Bruto (PIB) é o problema maior e vai nos matar mais rápido do que o crescimento populacional", afirma um dos mais respeitados especialistas mundiais em economia verde, o indiano Pavan Sukhdev. Para o economista, colocar na mesa agora a questão do controle da natalidade como ferramenta para enfrentar o crescente consumo de bens naturais, não é um caminho para a construção de uma sociedade global sustentável.

Sukhdev concedeu a entrevista ao Sustentabilidade durante sua passagem por São Paulo, nesta semana, onde participou da Conferência Ethos Internacional.

Segundo Sukhdev, é importante olhar com cuidado as taxas de natalidade, mas o fundamental é a pegada ecológica, que é determinada pelo consumo e produção e, consequentemente, pelo PIB. Hoje, a população mundial é estimada em 7 bilhões de pessoas. Para 2050, a estimativa é a de que chegue a 9 milhões. Muitos especialistas acreditam que sem mudanças no modelo atual baseado no consumo e o uso de diversas ferramentas, como, até mesmo, o controle da natalidade, não será possível caminhar rumo à sustentabilidade.

O economista argumenta que o nível de crescimento da natalidade global está em cerca de 1,2% ao ano e que a expectativa para o aumento do PIB é de 2,5% em 2012. A Índia, por exemplo, tem um crescimento populacional anual de 1,2% e a China de 0,6%. No caso do PIB, a Índia cresce 6% e a China 8%.

Para o economista, os números mostram que o crescimento da população faz diferença porque contribui para o aumento do PIB, mas o que realmente influencia na redução da pegada ecológica e dos impactos ambientais, é o próprio PIB. "Com o que vamos nos preocupar mais? Com o problema pequeno ou grande? Eu estou preocupado com o grande", diz Sukhdev. Ele explica que se continuarmos produzindo e consumindo como agora, mesmo se o problema da natalidade fosse resolvido, a sociedade ainda seria insustentável e a questão das mudanças climáticas continuaria existindo.

Para reduzir a pegada ecológica, Sukhdev diz que a solução não é diminuir o consumo. Para ele, é necessário mudar a natureza dele e do uso dos produtos. "É preciso pensar por quanto tempo dirigimos o carro até trocá-lo, quantas vezes usamos uma camiseta antes de jogar fora", explica.

Outro ponto é começar a pensar na quantidade de recursos naturais necessária para produzir cada coisa e na vida útil do produto. "Atualmente é volume que gera lucro, não eficiência", salienta. O economista afirma que não há nada de errado com o consumo, o problema é o tamanho do impacto social e ambiental que vem junto com ele. Por isso, aposta em regulações para que as empresas possam investir em eficiência, da matéria-prima ao produto final. Uma maneira de fazer isso seria criar metodologias para medir os impactos e divulga-los ao consumidor.

Economia verde – Sukhdev destaca o impacto que o estudo The Economics of Ecosystems & Biodiversity (TEEB), liderado por ele, teve no documento que vai orientar as discussões da Rio+20. Segundo ele, o TEEB deu origem a várias recomendações sobre a economia verde. Apesar de não ter sido creditado no documento que serve de base para a Rio+20, ele diz estar satisfeito com o fato de ter suas ideias contempladas na conferência.

Sobre as críticas de alguns países, como a Bolívia, a alguns pontos defendidos no conceito de economia verde ele entende ter havido entendimento equivocado da proposta. De acordo com Sukhdev, por falta de leitura ou falhas na tradução, alguns temem que a economia verde esteja vendendo a mãe natureza. "Mas não é isso. Dar valor a recursos naturais não significa precificá-los."

Fonte: Terra | SABRINA BEVILACQUA  Direto de São Paulo