Sustentabilidade em campo (Artigo)

Estima-se que Minas Gerais tenha aproximadamente 10 milhões de hectares com pastagens degradadas, ou 100 mil km², área geográfica maior do que Portugal. Pastagens degradadas significam minimamente má qualidade do pasto, efeitos erosivos no solo, reduzida capacidade de suporte de animais, menos carne e menos leite, embora existam tecnologias corretivas, se adotadas num universo de 352.726 estabelecimentos agropecuários com bovinos, segundo Censo IBGE/2006. Além disso, na agroeconomia, o estado é o primeiro produtor de leite e derivados, abriga o segundo rebanho bovino do país, com 22,7 milhões de cabeças, produziu 945 mil toneladas de carne bovina em 2011 e 8,4 bilhões de litros de leite em 2010. Apenas esses dados, resumidos, fundamentam a importância das boas pastagens nos cenários rurais e revelam também o indispensável Programa para Redução da Emissão de Gases de Efeito Estufa na Agricultura (Programa ABC), que se origina no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

O programa ABC converge para basicamente recuperar pastagens degradadas e na associação de tecnologias agrossilvopastoris na mesma área de plantio, que assim podem ser resumidas: sistema de plantio direto; integração lavoura, pecuária e floresta; lavoura e pecuária; lavoura e floresta; plantio de florestas comerciais; fixação biológica do nitrogênio no solo e tratamento de dejetos animais. E quais as vantagens dessas práticas integradas? Vejam algumas delas: maior aproveitamento do fator terra, redução dos efeitos das erosões laminar e profunda, alternativas de produção e renda, produção de matéria orgânica, preservação e recuperação de mananciais de água, oferta de madeira para fins diversos, manejo florestal, produção orgânica, aumento da produção de GRÃOS, leite e carne, captura do CO2 para efeito da fotossíntese, que contribui para amenizar o efeito estufa, reciclagem dos dejetos animais para geração de gás e a adoção do composto orgânico no contexto das adubações nas culturas, proteção da biodiversidade, bem-estar animal, entre outros benefícios, numa visão de sustentabilidade, ressaltando-se que o documento básico desse programa é muito mais detalhado.

O programa ABC faz parte de um acordo internacional que foi assumido pelo Brasil, em Copenhague, para a redução de gases de efeito estufa e que a comunidade científica mundial alerta ser um forte componente nas mudanças climáticas num horizonte de tempo e sabendo-se também que as pressões sobre os recursos naturais estão numa curva ascendente para atender às necessidades da sociedade globalizada e consumidora, principalmente em alimentos e agroenergia, bem como reduzir a pobreza nos continentes e que passa igualmente pela segurança alimentar. Vale lembrar que somente em Minas Gerais, com recursos e apoio institucional da Secretaria da Agricultura, foram treinados, no foco ABC, 600 extensionistas da Emater-MG e implantadas 1.400 unidades demonstrativas (UDs) nas diversas regiões mineiras, juntamente com a Epamig, Embrapa Milho e Sorgo e o agropecuarista mineiro, para avaliação, troca de conhecimentos e experiências compartilhadas. A Universidade Federal de Viçosa (UFV) desenvolve também, em parceria com a Emater-MG e colaboradores, o Circuito Integração Lavoura-Pecuária e Florestas (ILPF) na Zona da Mata mineira, difundindo novas ideias e práticas de campo. As inovações tecnológicas devem estar acessíveis para quem planta e cria, sem deixar de considerar a magnitude geográfica do espaço rural, que exige estratégias extensionistas diversificadas. A inovação é indispensável no campo e o mundo tem 927 milhões de famintos (ONU/FAO).

O governo federal, no que lhe compete, disponibilizou recursos no plano de safra para 2011/2012 de R$ 3,5 bilhões para diversas linhas de financiamentos do ABC via agentes financeiros credenciados, pois se sabe que a adoção de inovações tecnológicas custa dinheiro e tem que dar retornos socioeconômicos e ambientais convincentes, sendo que o horizonte temporal desse programa é até 2020. Uma questão de fundo se refere também ao fato de que é preciso estimular a produção agropecuária e florestal e que os produtores possam auferir renda suficiente e lograr qualidade de vida no campo, abastecendo o mercado interno e exportando. Dados consolidados da Secretaria da Agricultura de Minas revelam que as exportações de carne bovina elevaram-se de US$ 30 milhões em 2001 para US$ 306,7 milhões em 2010, ou mais 1.022%. Em 2011, a tonelada de carne bovina exportada chegou aos US$ 4,9 mil contra US$ 4,1 mil em 2010 e os maiores compradores do agronegócio mineiro, no conjunto, foram os EUA, Alemanha, Japão, Itália e China.

Segundo o coordenador estadual de Bovinocultura da Emater-MG, José Alberto de Ávila Pires, o programa ABC também reduz os desmatamentos, contribui para a adequação das propriedades rurais que adotam as tecnologias nele recomendadas. Vale lembrar ainda que os analistas internacionais afirmam que a produção agrícola tem que crescer 70% até 2050 em comparação com 2000 e que essa expansão deve vir basicamente de sistemas de produção convergentes e 10% via expansão de fronteiras agrícolas. Ávila também destaca que esse programa se enquadra perfeitamente numa visão de sustentabilidade dos recursos naturais, que é um dos desafios na agroeconomia brasileira e mundial. Minas desenvolve um estratégico programa de adequação socioeconômica e ambiental de propriedades rurais, que reúne a Secretaria da Agricultura, Emater-MG e Epamig.

Não há como dissociar a agropecuária dos recursos naturais, pois essa relação existe há milhares de anos. Além disso, a temática ambiental é complexa, multidisciplinar, polêmica, ideológica, socioeconômica e transcende o foco dos desmatamentos, que é apenas uma vertente das relações da sociedade com o meio ambiente e incluindo-se os mares e oceanos. Entretanto, no Brasil se desmata desde a sua descoberta em 1500. O início foi agressivo, pela mata atlântica, para abrigar as cidades que cresciam e prosperavam na orla marítima brasileira. Essa é uma história com muitos capítulos e atores.

Presume-se que conciliar desenvolvimento e sustentabilidade no Brasil não é uma obrigação apenas na agricultura, penalizada. Requer igualmente o empenho e compromisso da indústria, comércio e serviços. Essa é uma conta solidária. E a produção agrícola mineira? Entre as safras de 2000 e 2011 ocupou a média de apenas 2,77 milhões de hectares de terras, ou 4,71% do território mineiro, que é de 58,8 milhões de hectares. Entre as duas safras, a produtividade média de GRÃOS por hectare passou de 2.586 quilos para 3.785 quilos, uma alta de 46,3%. O mundo clama por alimentos e agroenergia com a inclusão definitiva do conceito de sustentabilidade nos processos produtivos. O Brasil não pode perder esse trem da história. Em nível internacional, onde couber, a falta de alimentos pode desestabilizar até os governos.

Fonte ESTADO DE MINAS – MG | Benjamin Salles Duarte |  Engenheiro-agrônomo

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