Suspeita de irregularidades ronda Iguaçu

Acionistas minoritários da Cia. Iguaçu de Café Solúvel encaminharam uma notificação extrajudicial à empresa. Querem receber um relatório preliminar feito pela Kroll Adivsory Services sobre irregularidades encontradas nas atividades da subsidiária Exportadora e Importadora Marubeni Colorado em contratos firmados com a controladora Marubeni Corporation, do Japão.

Em março deste ano, a Iguaçu divulgou que identificou, na Colorado, transações comerciais "fora dos padrões usuais" que tiveram seus efeitos corrigidos no fechamento das demonstrações financeiras de 2011. Naquele exercício, a controlada teve resultado negativo de R$ 48 milhões.

Em setembro, em assembleia, os acionistas aprovaram que os administradores da Iguaçu não poderiam conceder qualquer financiamento ou crédito em favor da subsidiária, tampouco fechar quaisquer novos contratos. Segundo a notificação encaminhada pelos acionistas à companhia, à qual o Valorteve a acesso, no dia da assembleia, o diretor-presidente da Iguaçu, Shigeto Shimizu, informou que a japonesa Marubeni Corporation, que controla a Iguaçu com 58,33% do capital, figura como contraparte em 90% dos contratos fechados com a subsidiária Marubeni Colorado.

Na mesma reunião, um conselheiro de administração da Iguaçu, Ivaldo Fioravanti, apresentou uma manifestação aos acionistas informando que existia um relatório de investigação preliminar, realizado pela Kroll, que apontava a venda de café em grãos pela Colorado para a Corporation por preços inferiores aos praticados pelo mercado. De acordo com a Kroll, as vendas em condições não comutativas estariam "diretamente relacionadas ao desfalque sofrido pela subsidiária".

Os minoritários que notificaram a empresa, assessorados pelo escritório Lobo & Ibeas, concentram cerca de 21,5% do capital total da Iguaçu. As ações estão nas mãos do investidor Eduardo Duvivier Neto, da gestora Poland, do tradicional investidor brasileiro Luiz Alves, que também tem ações da Iguaçu na física.

Segundo a notificação, os acionistas querem ser informados pela companhia sobre o conteúdo do "Sumário Executivo Ampliado – Draft Report 0808124", que indicaria "expressamente estreita relação" entre as fraudes contábeis verificadas na Marubeni Colorado, cuja dinâmica até agora não foi esclarecida aos minoritários, e o "encobrimento de perdas apuradas nas vendas realizadas para a Marubeni Corporation com o indevido favorecimento desta última". A notificação foi encaminhada no início de outubro e a Iguaçu ainda não enviou o relatório aos minoritários.

Procurados pelo Valor, os acionistas e seus advogados não deram entrevista. A Iguaçu de Café e a Marubeni Corporation também não se manifestaram. A Kroll disse que qualquer questionamento deveria ser encaminhado à companhia brasileira.

Depois da assembleia, o conselheiro Fioravanti encaminhou a seus colegas no órgão uma comunicação relatando que a o documento entregue pela Kroll a Iguaçu, ao qual teve acesso, aponta que houve "manipulação dos livros e registros financeiros" da Colorado, sendo que o "motivo dessa manipulação era cobrir as perdas ocasionadas pelas vendas de café para a Marubeni Corporation no Japão a preços abaixo do mercado durante um período considerável". Segundo informou o conselheiro, a Kroll observa que, na metade de 2010, quando os preços de mercado começaram a subir, a Colorado continuou vendendo café a preços baixos para a Corporation".

Fioravanti também afirma que a Kroll recomendou fortemente que uma "revisão completa das vendas externas seja conduzida".

Em maio, a Iguaçu informou ao mercado que as investigações sobre os problemas da Colorado ainda estavam em andamento e que por isso não era possível determinar o real alcance das perdas incorridas pela controlada e suas repercussões na companhia. Não tinha, portanto, condições de divulgar seus números para o primeiro trimestre.

Ao se referir ao tema, falou em "distorções contábeis" resultantes de "indícios de fraudes que ainda não foram quantificados com precisão". A administração reconhecia que "não há meios de garantir "a veracidade dos números informados " até que as investigações sejam concluídas".

Após o atraso, em julho, reforçou que apesar de ainda não haver uma conclusão das averiguações, havia quantificado as perdas da Colorado em valores da ordem de R$ 240 milhões, ajustando também números de 2011. Informou ainda que não tinha expectativa de que outros ajustes seriam necessários.

A Ernest & Young Terco, que auditou os números da Iguaçu no exercício de 2011, por conta dos ajustes realizados pela empresa e pela continuidade das investigações, solicitou a retirada de seu relatório de auditoria sobre as demonstrações financeiras. A PricewaterhouseCoopers, contratada para revisar as informações contábeis do primeiro trimestre, afirmou que não era possível concluir seus procedimentos para formar uma base de conclusão. A auditoria destacou que, até o fim das investigações, não era possível concluir se novos ajustes serão necessários ou não. E observou que as cifras de 2011 comparáveis com o intervalo de 2012 não estavam auditadas. O resultado consolidado divulgado pela Iguaçu ano passado foi de receita líquida de R$ 1,1 bilhão e prejuízo de R$ 45 milhões.

A empresa é listada na bolsa, mas possui liquidez mínima. Está avaliada no mercado em R$ 116 milhões, com base na cotação de 5 de setembro, último pregão em que houve negócio com as ações.

Os primeiros problemas na Iguaçu, que sugerem problemas de transparência e de controle, surgiram em 2008. A empresa, naquele ano, informou que estava em curso um inquérito policial para apurar a constatação da falta de 42 mil sacas de café dos armazéns de uma de suas controladas. O valor estimado da mercadoria faltante era de R$ 14 milhões. Com as informações disponíveis hoje não há como afirmar se esse episódio tem alguma ligação com as fraudes investigadas pela Kroll.

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Fonte: Valor | Por Ana Paula Ragazzi | Do Rio

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