Surto que ameaça suínos na China é salvação brasileira

O surto de peste suína africana que vem se espalhando pela China, país que lidera a produção mundial da proteína, poderá ter efeitos disruptivos no país asiático e, de quebra, favorecer a suinocultura brasileira, sobretudo em 2019. Essa é a avaliação do banco holandês Rabobank, uma das instituições mais importantes na oferta de crédito para o agronegócio global.

Em entrevista ao Valor, o Adolfo Fontes, analista do Rabobank no Brasil, disse que o Brasil está "bem posicionado" para abastecer a China, que deverá amargar uma redução na oferta de 4% a 10% no próximo ano em razão do vírus que atinge o plantel de suínos do país. "O Brasil não tem conflito comercial com a China, e os Estados Unidos têm um produto com baixa competitividade", afirmou Fontes. Por causa da guerra comercial com os Estados Unidos, Pequim sobretaxou a carne suína americana.

Para os frigoríficos brasileiros, os problemas sanitários na China poderão contribuir com a fraca recuperação da indústria nacional. Depois de um primeiro semestre adverso, no qual as empresas de carne suína sofreram com alta do preço do milho, excedente de oferta e dificuldades para exportar, houve leve recuperação em setembro e em outubro, conforme o analisa do Rabobank.

Além de contar com o alívio nos preços do milho – no acumulado deste mês, a cotação do grão caiu 11,3%, conforme o indicador Esalq/ BM&FBovespa – e com uma redução dos abates de grandes frigoríficos como a BRF, os embarques de carne suína ao exterior voltaram a crescer, ressaltou Fontes. Nas primeiras três semanas de outubro, a média diária dos embarques brasileiros de carne suína in natura foi de 2,7 mil toneladas, 17,4% a mais do que em outubro do ano passado.

A esperança é que essa retomada possa atenuar o resultado negativo já acumulado em 2017. Entre janeiro e setembro, as exportações brasileiras de carne suína renderam US$ 876,1 milhões, queda de 30% ante a receita de US$ 1,2 bilhão obtida no mesmo intervalo do ano passado. Na mesma base de comparação, o volume exportado caiu 11,4%, para 461,1 mil toneladas, de acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Agricultura.

De acordo com Fontes, os sinais emanados das exportações já mostram que a China poderá mesmo impulsionar a recuperação do segmento ao longo do próximo ano. Na verdade, argumentou, os chineses já contribuiram para amenizar a carência da Rússia, que representava 40% das exportações brasileiras até embargar o produto do país. "As nossas exportações só caem 11%. Poderia ser mais. Mas grande parte do volume [da Rússia] foi redirecionado, principalmente para a China".

Neste ano, China e Hong Kong – a carne enviada à região administrativa especial em geral abastece os chineses – já respondem por mais de 50% dos embarques brasileiros. O volume exportado para os chineses mais do que triplicou, atingindo 14,9 mil toneladas nos primeiros nove meses de 2017. Em todo o ano passado, foram 3,2 mil toneladas.

A alta das vendas à China neste ano reflete a tensão comercial entre Pequim e Washington, mas ainda capta o impactos dos problemas com da peste suína africana. E isso pode perdurar no ano que vem.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor

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