SUPLEMENTO ÁGUA: Conta-gotas

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Devanir dos Santos, da ANA: "O Brasil tem vantagem competitiva, pois possui 4,5 milhões de hectares irrigados, com potencial para 30 milhões, mas é necessário melhorar a eficiência"

Ao escolher o vale do São Francisco para produzir vinhos, o grupo português Global Wines Dão Sul apostou no diferencial da uva sob o sol intenso do semiárido banhado por um rio para a irrigação na medida certa. Em Petrolina (PE), na cobiçada latitude do "Paralelo 8", propícia à viticultura, a Fazenda Santa Maria mantém 150 hectares de cultivos para produção anual de um milhão de litros de vinho da marca Rio Sol. "Poderia ser muito mais, se os custos fossem competitivos", afirma o diretor João Santos.

Apenas 10% da propriedade são ocupados por parreirais. A produção estancou, entre outros motivos, devido ao gasto energético para irrigar a área e à recente cobrança pela captação do recurso hídrico. "A saída é aumentar a eficiência", diz o executivo. Após receber tecnologia para reduzir em quatro vezes o consumo de água, os vinhedos da empresa sugam em torno de 200 mil litros mensais do Velho Chico, em local onde na última década roteiros de enoturismo foram estruturados em harmonia com a pitoresca culinária do bode.

O exemplo de Petrolina, município brasileiro que mais exportou frutas no ano passado (US$ 119 milhões), retrata a necessidade de adoção de novas práticas para o setor responsável pela maior fatia do consumo hídrico no país. De acordo com o último relatório da Agência Nacional de Águas (ANA) sobre o tema, a agricultura respondeu em 2012 por 72% da água consumida no Brasil – aquela que é retirada dos rios e não retorna diretamente para eles. São 872 mil litros por segundo.

"Ao contrário do que acontece no meio urbano, onde 70 em cada 100 litros captados dos mananciais voltam de alguma maneira ao ambiente, as plantações imobilizam água por mais tempo e por isso é urgente uma melhor gestão da agricultura irrigada", argumenta Devanir dos Santos, gerente de uso sustentável da ANA.

A irrigação é chave para suprir a demanda global por alimentos via expansão agrícola vertical, com maior produtividade, e não horizontal, com custo econômico e ambiental da abertura de novas fronteiras. No geral, um hectare irrigado produz três vezes mais em relação a uma área de igual tamanho que depende da chuva. O uso do recurso está diretamente ligado ao combate à fome e à desigualdade, a partir das metas da ONU, que declarou 2013 como Ano Internacional da Cooperação pela Água.

"O Brasil tem importante vantagem competitiva, pois possui 4,5 milhões de hectares irrigados, com potencial para atingir 30 milhões, mas será necessário melhorar a eficiência e reduzir perdas", avalia Santos. A principal barreira está na falta de assistência técnica e manutenção. Metade da água captada nos rios brasileiros se perde no caminho até os cultivos e na produção. De acordo com o gerente, a maior parte do desperdício se deve ao mau planejamento e a métodos inadequados de irrigação.

A redução das perdas em 20% geraria volume suficiente para irrigar mais um milhão de hectares no país. No caso de Petrolina, estudos indicam que se fossem adotadas melhores estratégias de manejo, atingindo 90% de eficiência no uso da água, seria possível agregar mais 1,6 mil hectares de videiras sem aumentar a demanda hídrica.

Medidas de economia podem tornar o acesso ao recurso mais amplo e menos desigual no cenário de consumo crescente. A participação da agricultura no número de autorizações para a captação nos rios cresceu de 38% para 57% entre 2011 e 2012, segundo a ANA.

Para reduzir a pressão sobre os mananciais, o governo começou a incentivar a irrigação com água de reúso gerada no tratamento intermediário de esgotos. É uma solução para as cidades de até 50 mil habitantes, onde é alto o custo de tratar efluentes nas condições exigidas para o lançamento nos rios.

No município de Catarina (CE), o projeto prevê a reutilização dessa água na irrigação de palma forrageira, maracujazeiro e bananeira para destinação das frutas à merenda escolar. Já em Tapejara (RS), o foco está na produção de mudas de árvores nativas para a recuperação de áreas verdes.

Uma parte dos US$ 143 milhões do Banco Mundial para o Programa Interáguas, que envolve diversas frentes de gestão hídrica, será aplicada em novas tecnologias para o aumento da eficiência no campo. "Falta informação e maior consciência por parte dos produtores para o controle da irrigação", lamenta Paulo Emílio Albuquerque, pesquisador da Embrapa responsável pelo desenvolvimento do sistema Irriga Fácil, software disponível na internet capaz de diminuir o desperdício de água e reduzir em 30% o consumo de energia a partir de dados sobre clima, solo, quantidade de água e tipo de cultura agrícola.

O chamado "PAC Irrigação", programa recém-lançado pelo governo federal para investir R$ 10 bilhões no setor mediante parcerias público-privadas, não inclui ações nem critérios para o uso eficiente da água. Serão beneficiados 538 mil hectares para a produção de biocombustíveis, frutas, leite, carne e grãos.

"Deveriam ser priorizados os 200 mil hectares que já têm infraestrutura de irrigação no Brasil e precisam ser recuperados e modernizados", diz Alfredo Mendes, presidente da câmara setorial de irrigação da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimac). Muitos desses sistemas estão no Nordeste, abandonados por falta de assistência técnica, gestão e acesso a mercados pelos colonos.

A indústria do setor cresce entre 15% e 20% ao ano desde 2011, com faturamento de R$ 1,2 bilhão em 2012. "Diante do alto custo da terra, para aumentar a produção é mais viável irrigar do que abrir novas áreas", analisa Mendes. Em 2012, foram instalados no país 212 mil hectares irrigados. "Haveria demanda para atingir o dobro, não fossem as deficiências da eletrificação rural e a burocracia dos licenciamentos", reclama o executivo, para quem a chegada de grupos internacionais pode contribuir para um salto de escala. É uma questão estratégica. Outros países de vocação agrícola têm área irrigada dez vezes superior à do Brasil, que é rico em recursos hídricos.

Com a tendência de uma maior demanda agrícola, crescem os riscos de conflitos pelo uso da água em determinadas bacias hidrográficas, cenário que exige ações preventivas contra desperdícios. De acordo com a Abimac, as grandes estruturas de pivô central, que irrigam por aspersão, operam hoje com eficiência de cerca de 80%, enquanto há poucos anos o índice não chegava a 50%. No caso da irrigação por gotejamento, na raiz da planta, o índice supera 90%.

"O desafio para o uso sustentável vai além do equipamento em si e envolve melhorias na gestão de safras e toda uma cadeia produtiva", explica Mendes, da Abimac. No Rio Grande do Sul, onde há bacias hidrográficas que abastecem cidades e sofrem estresse hídrico nos períodos de estiagem, os produtores de arroz foram obrigados a se organizar para ter garantia de água, investindo em métodos mais eficientes. Hoje utilizam a metade do volume de água usado 20 anos atrás para produzir igual quantidade do cereal.

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Fonte: Valor | Por Sergio Adeodato | Para o Valor, de São Paulo

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