Supersoja à brasileira

Fonte: CARTA CAPITAL

O VERDE da lavoura não vai se alterar, e um observador incauto dificilmente notará, a partir de outubro, as primeiras mudas de um novo tipo de soja plantada em 500 propriedades rurais brasileiras. A diferença só será perceptível na medida em que as plantas começarem a crescer e a exibir suas propriedades especiais: imunidade aos efeitos mortíferos do herbicida RoundUp e aos ataques de insetos, que morrem após morder suas folhas. Trata-se da soja Intacta RR2 Pro, da Monsanto, a primeira variedade transgênica do grão desenvolvida fora dos Estados Unidos, sede da companhia.

Embora aprovada no fim de 2010 pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), a soja Intacta ainda não vai chegar à mesa dos consumidores neste ou no próximo ano. São os últimos testes antes da comercialização das sementes, prevista para a safra 2012/2013. E devem indicar o real ganho de produtividade obtido com a variedade. Enquanto isso, a Monsanto aguarda as últimas aprovações internacionais, para garantir que a produção possa ser livremente exportada.

A Intacta é uma das maiores apostas da companhia de biotecnologia sediada em Saint Louis (Missouri), que mantém no Meio-Oeste dos EUA centros de pesquisa dignos de filmes de ficção científica. Nos canteiros da fazenda experimental de Monmouth, em Illinois, é possível encontrar soja enriquecida com ácidos graxos Tâmega-3, produzidos por genes de algas inseridos no grão,ou uma variedade da qual se obtém um óleo com nível de gordura mono insaturada semelhante ao do azeite e com a mesma quantidade de gordura saturada que o óleo de canola. Promessas que tentam fazer frente a toda a polêmica que ainda cerca a produção de organismos geneticamente modificados (OGMs).

No laboratório de Chesterfield, nos arredores de Saint Louis, certificados de patentes expostos nos corredores revelam ao leigo ainda mais sobre o futuro dos transgênicos do que os sequenciadores genéticos e as mudas armazenadas em salas climatizadas. "Métodos de introdução de ácido nucleico de nematoide cística em células de soja", lê-se em um deles, numa pista sobre uma das muitas doenças da lavoura pesquisadas pela empresa.

Anos antes de ser apresentada às autoridades nacionais, a soja desenvolvida para o mercado brasileiro fez seu estágio nas estufas de Chesterfield. De acordo com a Monsanto, o preço da Intacta será superior ao da semente RR (RoundUp Ready), vendida há mais de dez anos no País, resistente apenas à aplicação do herbicidaglifosato. O valor extra deverá corresponder a 25% do ganho estimado para o produtor.

"Nos EUA, o agricultor não enfrenta problemas com lagartas. Desenvolvemos essa proteção para o Brasil, e já trabalhamos na segunda geração da Intacta", diz o vice-presidente e cientista-chefe da Monsanto, Robb Fraley. Em palestra na faim Progress Show, maior feira agropecuária do mundo, em Decator (Illinois), no último dia 30, Fraley teceu mais previsões para os OGMs. "O milho híbrido terá, em 2030, mais de 20 genes, cada um com função específica, como resistência a herbicidas, aos insetos, à seca e maior produtividade.

Embora tenha liberado a produção de alimentos transgênicos mais de uma década depois dos EUA – o pioneiro foi a soja RR, em1998 -, o Brasil tornou-se o segundo maior produtor mundial de OGMs, com quase 30 variedades de sementes alteradas aprovadas. E ao menos uma empresa nacional se destaca na disputa com multinacionais como Syngenta, Basf, Bayer e Dupont no bilionário mercado da biotecnologia: a Embrapa, que recentemente anunciou a criação de uma variedade de feijão resistente à doença mosaico dourado, transmitida pela mosca branca. A semente espera a aprovação da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, que deve avaliar a descoberta na quinta-feira 15.

Na safra atual, o plantio de soja transgênica no Brasil deverá atingir 82,7% da produção total, ante 76,1% no período 2010/2011, de acordo com a consultoria Céleres. Dois fatores ainda impedem a onipresença dos transgênicos. O primeiro é a necessidade do chamado plantio de refúgio, que equivale a um porcentual mínimo de sementes convencionais a ser cultivadas em meio às geneticamente modificadas, de 5% a 20%. A função do refúgio é dificultar o processo de seleção natural de eventuais pragas resistentes ao efeito de inseticida dos transgênicos. Recentemente,um cientista da Universidade de Iowa anunciou ter descoberto em fazendas do Noroeste americano, no chamado Cinturão do Milho, um inseto resistente ao poder de inseticida das lavouras transgênicas. Manter viva uma população de insetos comuns, que se alimentam das plantas de refúgio, é uma tentativa de evitar a proliferação dessas superespécies.

O segundo fator a limitar a expansão das colheitas transgênicas é o prêmio pago pelos GRÃOS convencionais, que caminham para se tornar produtos de nicho, como os orgânicos. Ainda há, sobretudo na Europa, importadores que pagam uma média de 5% a10% mais por tonelada comprada.

A diferença ainda atrai produtores como Jake Hunt, à frente de uma propriedade familiar de10mil acres em Blandinsville (Illinois). Embora 100% da soja plantada seja transgênica, no cultivo de milho a produção é 65% convencional. A proporção muda a cada safra, sujeita a cálculos que consideram tanto o prêmio dos GRÃOS não modificados quanto os preços das variedades de sementes. "Evitamos colocar todos os ovos no mesmo cesto", argumenta Hunt.

A valorização da soja convencional é puxada,sobretudo,pela redução da área plantada, mas é preciso levar em conta a divulgação de estudos que põem em xeque algumas das vantagens atribuídas aos OGMs, como a redução do uso de agrotóxicos e o aumento de produtividade. Enquanto os especialistas se dividem, os produtores mundiais de alimentos disputam uma corrida na qual mais importante do que chegar na frente é garantir a segurança dos consumidores e do meio ambiente.

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