Suco de laranja bate recorde em Nova York

Ainda que a valorização do dólar e a onda de aversão a risco que se seguiram à eleição de Donald Trump à presidência dos EUA tenham exercido forte pressão baixista sobre as cotações das principais commodities agrícolas negociadas nas bolsas de Chicago e Nova York em novembro, saltou aos olhos a resiliência da curva ascendente do suco de laranja, cujos contratos futuros de segunda posição de entrega (normalmente os de maior liquidez) atingiram a maior média mensal nominal da história no mercado nova-iorquino.

Cálculos do Valor Data resumidos no infográfico acima mostram que a média do mês passado foi 6,89% superior a de outubro e 48,12% maior que a de novembro de 2015. Superou, assim, o recorde de dezembro de 2006, época em que as commodities em geral viviam um bom inflado por apostas especulativas derivadas do rápido avanço do mundo emergente, liderado pela China. Depois que a bolha esvaziou, em linha com a desaceleração do crescimento da economia global, máximas como aquelas se tornaram mais distantes e, para muitos analistas, talvez inatingíveis até onde a vista alcança.

Mas o encolhimento da oferta global de suco de laranja – determinado por adversidades no Brasil, que domina mais de 80% das exportações mundiais, e sobretudo nos EUA – devolveu os preços do produto aos píncaros. Mesmo em tempos de demanda mundial em baixa, o Valor Data mostra que a de novembro foi a oitava alta mensal do ano do suco de laranja, a terceira seguida. Mas os mais recentes movimentos dos fundos de investimento que atuam nesse mercado apontam que a escalada pode estar no fim. Segundo a Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (CFTC), na semana encerrada no dia 22 o saldo líquido comprado diminuiu quase 6% na comparação com a semana anterior.

Outra commodity agrícola que continua sustentada pelas preocupações da oferta, também no Brasil, é o café. Em novembro, a média dos contratos de segunda posição de entrega da espécie arábica em Nova York foi 3,18% maior que em outubro e 35,32% mais elevada que em novembro do ano passado. Mas também nesse mercado o fôlego altista parece estar mais curto, pelo menos no que depender dos fundos especulativos, que reduziram o saldo líquido comprado na bolsa, em 4,1%, na semana terminada no dia 22. E aqui as perspectivas de recuperação da oferta são mais palpáveis que no caso do suco de laranja.

Com as exportações globais também dominadas pelo Brasil, o açúcar não encontrou em seus fundamentos de oferta e demanda suporte semelhante ao observados nos mercados de suco e café e seus preços registraram forte queda em Nova York, sob grande influência da alta do dólar em relação ao real – na comparação com a Selic, a cotação média da moeda americana foi 4,9% maior que em novembro que em outubro. Depois de seis meses consecutivos de valorizações, e por isso também pressionada por um movimento de realização de lucros, a média dos papéis de segunda posição caiu em novembro 8,6% na comparação com outubro, mas ainda foi 39,99% superior a de novembro do ano passado.

Conforme os dados da CFTC, também nesse mercado os fundos de investimentos reduziram suas apostas na alta da commodity. Mas com maior intensidade, já que o saldo líquido comprado diminuiu 18,8% na semana encerrada no dia 22. Mas vale realçar que essas reduções foram generalizadas nos mercados agrícolas de Nova York no período em questão. Aconteceu o mesmo com os saldos líquidos comprados de contratos de cacau e de algodão – a média dos contratos de segunda posição de entrega da amêndoa em novembro foi 7,54% mais baixa que a de outubro e 25,72% inferior a de novembro de 2015, ao passo que a da pluma apresentou altas de 1,45% e 12,83% nas mesmas comparações.

Dos três principais grãos negociados na bolsa de Chicago, apenas o milho foi vítima de movimento semelhante dos fundos na semana terminada no dia 22. E, segundo cálculos do Valor Data, a média dos contratos de segunda posição de entrega do produto em novembro foi 1,45% mais baixa que a de outubro e 5,31% menor que a de novembro de 2015. Essa pressão, entretanto, poderá diminuir um pouco com o fim da colheita desta abundante safra 2016/17 nos EUA, que está próximo.

A média do trigo em novembro também ficou abaixo de outubro e de novembro do ano passado – 1,47% e 15,39%, respectivamente. Mas as apostas dos especuladores são de valorização em Chicago, por causa da expectativa de intempéries nas Grandes Planícies americanas. E a soja, finalmente, fechou o mês passado com uma média 2,83% superior a de outubro e 16,59% maior que a de novembro de 2015, em virtude da boa demanda chinesa.

Por Fernando Lopes, Kauanna Navarro e Cleyton Vilarino | De São Paulo

Fonte : Valor

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