Startups crescem e se multiplicam

O empreendedorismo digital avança no agronegócio brasileiro: o país conta atualmente com 76 startups atuando no desenvolvimento de tecnologias inovadoras para solucionar os gargalos do campo. Há cinco anos, eram só 9.

Os números estão no 1º Censo AgTech Startups Brasil, realizado pela Esalq/USP e o AgTech Garage, de Piracicaba. O mapeamento joga luz sobre um setor da economia que ganha fôlego no país, mas cujo alcance ainda era desconhecido.

Em quatro meses de levantamento, os pesquisadores conseguiram identificar parte significativa da realidade – quem, onde e como os empreendedores agrícolas atuam nesse novo mercado. O retrato, no entanto, não é completo. Sem lançar mão de metodologias com padrão científico, o censo baseou-se na apresentação de um formulário on-line com perguntas de múltipla escolha e descritivas.

"Não podemos falar no número exato de startups de AgTech existentes no Brasil. Mas as 76 empresas que responderam ao questionário somam um valor que permite traçar um quadro bastante realista sobre as empresas nascentes neste setor", disse Mateus Mondin, professor da Esalq e um dos mentores do "Vale do Piracicaba", o primeiro selo de denominação de um polo brasileiro de tecnologia voltado somente à inovação agrícola, lançado neste ano.

Além do aumento no número de startups, o censo aponta um aprimoramento no modelo de gestão. Se inicialmente as empresas eram formadas apenas por especialistas do campo, o que se vê hoje são quadros com profissionais de gestão e TI à mesma proporção de agrônomos.

Assim como em outros países, as startups brasileiras são caracterizadas ainda por grupos pequenos de funcionários – entre quatro e cinco em 44% dos casos. A maioria está na faixa de 31 a 40 anos de idade (44%), seguida por jovens de 26 a 30 (25%). Entre os universitários (de 21 a 25 anos) e os pré-universitários (abaixo dos 20), o percentual de empreendedores ainda é comparativamente pequeno – estão em apenas 12% e 3% das startups, respectivamente.

Segundo Mondin, o recorte etário é compatível com o que ele presencia nas faculdades agrícolas, como a própria Esalq, onde poucos estudantes pensam em empreender. "O foco ainda é se formar e ir para a multinacional", diz ele.

Apesar da tradição em ir para o mercado convencional, 21% das startups disseram que a ideia do negócio do seu fundador surgiu já na escola ou universidade. Outras 21% afirmaram que o "insight" de um novo negócio veio no antigo emprego, onde o fundador trabalhava, e para outras 20% da mera observação de outros mercados.

Ninguém ainda está captando ou ganhando rios de dinheiro nesse setor. Ao contrário dos EUA, referência em economia digital e em inovação "disruptiva", os brasileiros ainda sofrem para levantar o capital inicial de partida. A grande maioria ainda depende de recursos próprios ou empréstimos bancários, da família, dos amigos e, em menor parte, de "anjos". O capital de risco, via fundos de venture capital, representa menos de 5% do dinheiro captado até o momento.

Mais da metade das 76 startups agrícolas – 55,4% – ainda não gera faturamento. Segundo o censo, 18,9% dizem faturar até R$ 50 mil por ano; 12,2% mais de R$ 300 mil; e 10,8% entre R$ 100 mil e R$ 300 mil. Os 2,7% restantes declaram faturar entre R$ 50 mil e R$ 100 mil.

"Mas estamos falando de empresas muito novas no mercado", afirma Mondin. "Para se ter uma ideia, até 2011 havia apenas nove startups no Brasil. Todas as demais surgiram de 2013 em diante. Essas nove demonstram que sobreviveram e continuam no mercado".

Para José Tomé, diretor da AgTech Garage e também mentor do "Vale do Piracicaba", o desafio é estender a inovação para setores ainda não contemplados, e com grandes carências, como a pecuária de leite. "Os negócios ainda estão focados em soja, milho, açúcar e café. Há muito potencial para crescer em outras áreas do agronegócio".

Por Bettina Barros | De São Paulo

Fonte : Valor

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