Soja ‘sustentável’ gerou US$ 6 milhões em créditos em 2015

Produtores rurais comprometidos com o plantio sustentável da soja no mundo foram premiados com pouco mais de US$ 6 milhões no ano passado, melhor resultado registrado até agora. O dinheiro veio da venda de créditos negociados na plataforma RTRS, sigla em inglês para a Round Table on Sustainable Soy.

Criada em 2006, a RTRS é uma associação global com quase 11 mil produtores e 66 empresas, que tenta promover um sistema de produção responsável na cadeia da soja. Por um lado, certifica produtores interessados em acessar mercados que pagam mais pela garantia de que o grão não vem atrelado a complicações – como desmatamento ilegal. Por outro, conecta esses produtores a empresas com compromissos ambientais, como garantia de origem e rastreabilidade da matéria-prima.

Em 2015, foram comercializadas 2,1 milhões de toneladas de soja com selo RTRS, 70% mais que em 2014. O Brasil representou metade desse mercado: 1,2 milhão de toneladas, de uma produção total que alcançou 96,2 milhões de toneladas na safra 2014/15. O atrativo, no entanto, não está só na entrega física do grão, mas nos créditos que a produção gera. Pelo sistema, cada tonelada certificada dá direito a um crédito que pode ser negociado na plataforma da RTRS. No ano passado, cada crédito valia US$ 3, na média.

Ou seja, os produtores brasileiros receberam R$ 14 milhões extras, graças ao selo que visa uma produção ambientalmente correta, socialmente adequada e economicamente viável – o tripé da sustentabilidade. "O prêmio da soja RTRS cobre o custo da certificação e sobra", afirmou ao Valor Aurélio Pavinato, CEO da SLC Agrícola, grande produtora de grãos e algodão do país.

Segundo a RTRS, a opção por créditos se mostrou interessante porque muitas vezes os produtores, sobretudo os pequenos, estão distantes dos clientes interessados em certificação, na maioria deles europeus. Por meio da plataforma, conseguem ser recompensados "remotamente". Nesse caso, a soja certificada de suas propriedades é desovada no mercado convencional, sem prêmio.

De acordo com a argentina Veronica Chorkulak, gerente de desenvolvimento de marketing do RTRS, a tendência, no entanto, é de equiparação entre entregas físicas e créditos, à medida em que o mercado de certificação se desenvolver.

A SLC recebeu US$ 600 mil com a venda a empresas europeias de 180 mil créditos de soja RTRS no ciclo passado. Desde 2012/13, quando aderiu ao programa, a companhia colocou no mercado 513 mil toneladas de soja certificada oriunda de cinco fazendas em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia e Maranhão. Para a atual safra, a SLC prevê uma produção de 680 mil toneladas de soja. "Um terço desse volume vai gerar crédito", afirma Pavinato, acrescentando que em seis anos todas as 14 propriedades do grupo terão selo de soja responsável.

A Amaggi, trading sediada em Mato Grosso, vendeu no ano passado 850 mil toneladas de soja certificada de 37 produtores e duas fazendas próprias. A empresa admite que ainda é um número bastante restrito – são 3.800 produtores no total -, mas defende que a limitação está mais associada à falta de informação do produtor e à demanda pequena da indústria pelo grão certificado.

"Estamos [o mercado] num período de transição e a certificação da soja deverá crescer", disse Juliana Lopes, diretora da sustentabilidade da Amaggi. Para ela, o prêmio não é o único benefício. "Começa a haver um entendimento maior por parte dos produtores sobre a gestão das fazendas e redução de riscos legais", afirma ela.

Entusiasta do programa, a Unilever estipulou a meta de ter todo o seu consumo interno de soja e derivados com o selo RTRS até 2020. A companhia tem um compromisso ambiental global ambicioso e afirma que, apesar de comprar volumes pequenos do grão, espera que sua decisão ajude a alavancar a produção sustentável no mundo e a mitigar o desmatamento na Amazônia.

Por Bettina Barros | De São Paulo

Fonte : Valor

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