Soja, o grão de ouro do Brasil

Oleaginosa responde por boa parte das exportações do agronegócio nacional

A estiagem que começou em setembro do ano passado e se estendeu até março de 2020 provocou uma queda de 43,4% na produção de soja do Rio Grande do Sul, segundo a atualização do levantamento da safra 2019/2020 da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgada no dia 9 de junho. Com a colheita de apenas 10,8 milhões de toneladas, o rendimento médio da sojicultura gaúcha caiu de 3.321 quilos por hectare para 1.839 kg/ha, recuando a desempenhos de 40 anos atrás, quando os pioneiros pelejavam para adaptar o grão aos solos ácidos do Norte do Estado – ou vice-versa.

Os rendimentos eram baixos e não havia salvação para os prejuízos.

Recentemente, houve quedas igualmente fortes nas secas de 2012 e de 2005. Mas agora, em vez da loteria de outrora, os agricultores dispõem de mecanismos de recuperação.

Na safra recém-encerrada, metade dos produtores tinha alguma forma de seguro. Tanto para estes quanto para os que estavam a descoberto, a resolução 4.802 do Banco Central, baixada em 9 de abril, autorizou os bancos a renegociarem, pelo prazo de até sete anos, os contratos de custeio agrícola e de investimentos, respeitando o limite de R$ 20 mil para os agricultores familiares e de R$ 40 mil para os médios.

"Não acredito que alguém vá abandonar a agricultura por causa da estiagem", diz o agrônomo Ivan Bonetti, da Secretaria Estadual de Agricultura. Para ele, os prejudicados pela seca podem reverter a situação em até três anos, desde que contem com o apoio dos bancos. Muitos agricultores partiram logo para a produção de trigo, cuja área plantada deve registrar um bom aumento nesse inverno – situação que também remete ao passado, quando o trigo e a soja se amparavam em situações adversas.

Este ano, por causa da pandemia do coronavírus, pela primeira vez os técnicos não puderam realizar as costumeiras vistorias técnicas para checar os estragos. Como lembra Alencar Rugeri, diretor técnico da Emater, a instituição usou diversas ferramentas de avaliação para concluir que as perdas foram de 2% nas lavouras menos afetadas a 100% nas mais atingidas. Para ins de ressarcimento pelo seguro rural, usaram-se as médias municipais. Ainda assim, dadas as diferenças regionais de solo, topograia e manejo das lavouras, não dá para generalizar. Em Frederico Westphalen, onde a sojicultura está implantada há meio século, uma perda de 1.200 quilos signiica apenas 25% da produção. Em Bagé, na Metade Sul, região que vem apostando na soja mais recentemente – em terras baixas, sistematizadas para o arroz -, o mesmo volume de quebra representa 50% da produção.

A HISTÓRIA DO GRÃO

A soja está presente no Brasil desde o fim do século XIX, quando alguns sitiantes e técnicos iniciaram experiências de plantio de sementes trazidas por imigrantes. Um dos primeiros polos de experimentação foi o Instituto Agronômico de Campinas, criado por D. Pedro II em 1887. Outro era Pelotas, cuja escola de Agronomia, desde 1901, distribuía as sementes amareladas entre colonos que usavam os grãos para alimentar porcos. Um século atrás, a soja era pouco mais do que uma curiosidade botânica que passou a interessar a incipientes indústrias de óleo vegetal – de amendoim e algodão, em São Paulo; de amendoim e linhaça, no Rio Grande do Sul. Os governos pareciam não ligar para o feijãozinho dourado.

Até que o atacadista gaúcho Frederico Ortmann, ativo na importação/exportação, embarcou uma carga de soja para a Alemanha. Foi em 1938, às vésperas da II Guerra Mundial.

Fonte: Jornal do Comércio

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