Sílvia Miotto: Forrageiras nativas são grandes aliadas da pecuária

FREDY VIEIRA/JC

Estudo de Sílvia Miotto destaca 16 leguminosas endêmicas com potencial econômico

Estudo de Sílvia Miotto destaca 16 leguminosas endêmicas com potencial econômico

A produção rural na região Sul do Brasil está a um passo de uma mudança drástica, com a introdução de espécies nativas de forrageiras como alternativas economicamente viáveis ao produtor rural. Quem faz essa previsão é a professora Sílvia Miotto, do Departamento de Botânica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), e responsável por diversas pesquisas voltadas à descrição de plantas nativas.

No ano passado foi publicado, pelo Ministério do Meio Ambiente, o livro Espécies Nativas da Flora Brasileira de Valor Econômico Atual ou Potencial, Plantas para o Futuro – Região Sul. Nesse volume, a pesquisadora gaúcha assina um capítulo sobre forrageiras (Fabaceae), n qual descreve 16 leguminosas endêmicas da região, que podem ser de grande importância na diversificação dos cultivos, sobretudo para a agricultura familiar.

“O inverno no Rio Grande do Sul é mortal para a pecuária. Sem o cultivo de forrageiras, não tem como garantir alimentação para o gado. Porém, se um agricultor resolve plantar uma espécie nativa, esbarra na falta de oferta comercial de sementes. Todas as sementes à venda são exóticas. Com a descrição das plantas nativas com maior potencial, é possível que os pesquisadores da área da Agronomia consigam avançar a ponto de essas plantas se tornarem alternativas reais para o produtor”, explicou a pesquisadora, que é professora de disciplinas como a Botânica Agrícola.

Esse trabalho, que ganhou destaque na publicação do último ano, está baseado em uma trajetória de aproximadamente 40 anos de estudos florísticos e taxonômicos. Sílvia concluiu seu doutorado em 1991 e, desde então, orienta pesquisas no Programa de Pós-Graduação em Botânica. “São pesquisas básicas. O que fazemos é descrever as plantas, identificamos sua família, seu gênero e sua espécie. Muitas vezes, quando percebemos que aquela planta ainda não foi descrita pela ciência, damos um nome a ela”, contou a professora da Ufrgs.

E é, segundo a pesquisadora, a falta desse conhecimento mais básico que vem travando o avanço do uso comercial das espécies nativas na agropecuária brasileira. Conhecer a planta, o microclima a que ela se adapta, como é feita a polinização e qual é seu ciclo de vida é essencial para que os técnicos possam olhar as espécies com mais atenção e interesse comercial. Apesar dos esforços para ampliar o conhecimento, Sílvia pondera que os alunos de Botânica, Ecologia e, sobretudo, Agronomia, recebem muito mais informação sobre espécies exóticas.

“Cerca de 90% das espécies apresentadas aos alunos em sala de aula são exóticas, porque já se conhecem todas as características dessas plantas. A alfafa, por exemplo, é uma forrageira simples de cultivar, pois se sabe exatamente como ela funciona, quando se deve plantar, quanto ela produz e a que tipo de clima ela se adapta melhor. Com as plantas nativas é preciso avançar nessa segunda etapa da pesquisa, onde eu já não me  envolvo”, explicou.

Degradação extingue espécie desconhecida

O avanço das pesquisas taxonômicas (de descrição das plantas) tem mostrado que ainda é muito grande o universo de espécies nativas do bioma Pampa desconhecidas pela ciência. Além da satisfação de lançar luz sobre herbáceas desconhecidas, o trabalho dos cientistas tem ganhado outro propulsor: o receio de perder espécies para a degradação. Conforme a pesquisadora da Ufrgs Sílvia Miotto, a destruição desse ambiente típico do Sul do Brasil é uma ameaça constante.

Ela afirma que é grande o número de plantas raras em situação de risco. “Com o levantamento de dados sobre a biodiversidade, aliado ao conhecimento dos padrões de distribuição geográfica e dos habitats preferenciais das plantas, é possível a indicação de espécies ou de ecossistemas prioritários para a preservação e conservação no Estado”, disse Sílvia. As pesquisas partem de expedições científicas e de levantamento florístico em diferentes regiões, que ampliam o conhecimento sobre as espécies nativas. Dessa forma, a professora da pós-graduação afirma que é possível preencher a lacuna de conhecimento da biodiversidade do Rio Grande do Sul para, depois, fortalecer os estudos de conservação, manejo e utilização de recursos genéticos vegetais. Entretanto, Sílvia argumenta faltam especialistas em taxonomia vegetal, o que impacta na habilidade de conservação.

Fonte: Jornal do Comércio

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