Senador Heinze quer rápida sanção de socorro a estados

O senador gaúcho Luis Carlos Heinze (PP), apoiador do governo federal, destaca a aprovação de R$ 125 bilhões de socorro emergencial a estados e municípios brasileiros para o enfrentamento do impacto da pandemia de coronavírus. “Tenho cobrado do Palácio do Planalto que seja feito logo”, afirma.

Tradicionalmente ligado ao agronegócio, até mesmo pela origem no campo, o senador também tem se envolvido, nos últimos anos, mais diretamente em temas relacionados às áreas de infraestrutura e até mesmo no segmento do turismo.

Na defesa do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), critica desde a mídia até o que considera intenções eleitoreiras de ex-fortes aliados do presidente – como os ex-ministros Sérgio Moro (Justiça) e Henrique Mandetta (Saúde), os quais acusa de agirem em nome de seus interesses próprios.

Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, Heinze fala também de investimentos que tem buscado para obras no País, inclusive entre os chineses, que têm sido alvo de críticas por ministros como o da Educação, Abraham Weintraub, e o de Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Sobre a possibilidade de investidores e governo chinês retraírem investimentos no Brasil, Heinze avalia que, até o momento, isso não teve nenhum impacto. “Ninguém reclamou. Continuaram me demandando sobre projetos aqui.

Eles querem fazer negócio e pronto”, opina o senador.

Jornal do Comércio – Como o senhor avalia a condução das medidas de combate à pandemia nos governos estaduais e federal, que têm estratégias bem distintas?

Luis Carlos Heinze – Em nível nacional, o que estamos trabalhando neste momento são as várias medidas do governo Bolsonaro, que é importante ressaltar, com a proposta de emenda constitucional chamada de PEC do Orçamento de Guerra, totaliza R$ 1,2 trilhão para várias dessas medidas, além de outras que estão sendo votadas. Todos os dias tem sanções de leis e que se deve regulamentar para poder implementá- las e colocá-las à disposição do Brasil inteiro no combate à pandemia.

Recentemente, foi aprovado o socorro de R$ 125 bilhões para ajudar os estados e municípios, que ainda depende da sanção, e tenho cobrado do Palácio do Planalto que seja feito logo. O Rio Grande do Sul, especificamente, terá R$ 3,8 bilhões para o Estado e municípios, para saúde e demais gastos, e R$ 5,1 bilhões em prorrogação de parcelas de empréstimos e dívidas. O Estado já tem protelado os pagamentos (das parcelas da dívida com a União), sob liminar, e já não está pagando. Mas a prefeitura de Canoas, por exemplo, está dentro desse processo, tem condição de pagar e não vai precisar neste momento.

JC – No Rio Grande do Sul, como o senhor avalia o trabalho que tem sido feito?

Heinze – Houve discordâncias em cima da forma, com o fechamento de tudo. A crítica do comércio, da indústria e dos serviços, principalmente, foi pela necessidade da volta ao trabalho. É fundamental o controle, a campanha de saúde e os cuidados que as pessoas devem ter, principalmente pessoas de maior risco, mas a economia também precisa andar.

Vamos sofrer muito, as vidas são importantes, claro, isso é um valor fundamental, mas o que vejo é que o desemprego será muito grande.

Vimos, no governo Bolsonaro, a queda da inflação, medidas para a reforma da Previdência e controle dos juros, por exemplo, o que fez com que recuperássemos 1 milhão de empregos. Já havíamos iniciado 2020 com essa mesma tendência, de voltarmos a recuperar a economia e diminuir o déficit público, que não zeraria ainda em 2020, zeraria lá no final de 2022. Tudo agora se descontrola em função da pandemia, não apenas no Brasil.

No mundo, temos problemas sérios com esses déficits que ainda virão e a queda dos empregos.

Então é um problema muito sério que vamos ter que enfrentar, aí é outra situação, porque a economia tem que voltar.

JC – No caso da Saúde, o senhor ressaltou que é importante salvar vidas, mas a troca de ministros da pasta, já são três titulares em pouco mais de um mês, não barra as ações e até os projetos para a economia?

Heinze – A questão é o seguinte: não é a troca dos ministros da Saúde ou do próprio Sérgio Moro, o problema que vejo neste instante.

A crítica que faço é à grande mídia brasileira, não no Rio Grande do Sul, o que falo é Rede Globo, especificamente, com relação à polarização que está ocorrendo.

(O governador João) Doria (PSDB) é candidato, teve apoiadores dele no Brasil inteiro falando isso. O Mandetta apareceu assim também.

Saiu do Ministério da Saúde, e hoje faz campanha. Sérgio Moro saiu do governo e faz campanha.

Isso quer dizer que aqui temos três candidatos, e a Globo, especificamente, fez campanha direta contra o Bolsonaro. Já tomou um lado. É ela que faz essa grande coalizão.

E aí entraram governadores que eram de direita, tipo o (Ronaldo) Caiado (DEM, de Goiás), que é meu parceiro, meu irmão de muitos anos, e, agora, está contra o governo Bolsonaro. Isso prejudica neste momento. Todos, de direita, esquerda e centro, tínhamos de estar focados em combater a pandemia, o desemprego, criar medidas para recuperar a economia e salvar mais vidas. Mas o que vemos no noticiário é focar nas eleições e derrotar um candidato. Pegam qualquer palavra que o Bolsonaro fala e distorcem tudo, ficam o dia inteiro nisso e aquilo, conversinha de comadre, fofoquinha, Bolsonaro disse isso, Moro disse aquilo.

Isso aí é notícia quando o foco deveria ser combater a pandemia e combater o desemprego.

JC – Sobre as eleições municipais, o senhor acredita que podem efetivamente ocorrer mesmo neste ano?

Heinze – O que andei escutando é que não existe clima para prorrogação das eleições, então, acho difícil que isso ocorra, e vejo também essa condição vinda do próprio Supremo Tribunal Eleitoral.

O que se deve é protelar de outubro para novembro, dezembro, mas neste ano ainda. Não existe clima, como eu disse, na Câmara e no Senado, para poder fazer a prorrogação por mais tempo, como querem alguns, de juntar eleições municipais, estaduais e federais até 2022.

JC – Outro tema debatido no Senado foi o adiamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que, em meio à pandemia, prejudicaria estudantes sem condições de acesso à internet e sem aulas presenciais.

Heinze – Neste momento, vejo que as próprias escolas estão com problemas, e é fato que, até que retomem as atividades, que normalize mesmo, vai custar mais um tempo. Neste caso, é importante a prorrogação.

JC – No meio desta pandemia, senadores e deputados têm sido demandados a analisar e aprovar muitas matérias, e projetos que estavam sendo encaminhados no início do ano e ficaram parados. O que ficou pendente e o senhor ainda espera ter andamento neste ano?

Heinze – Tenho projetos para obras de aeroportos sobre os quais venho, há duas semanas, conversado com o Ronei (Glanzmann, secretário nacional de Aviação Civil).

São três que poderão ter investimentos no Estado. Em Pelotas, Uruguaiana e Bagé não ocorreu a concessão neste ano, o que foi protelado porque os dados que o Tribunal de Contas emitiu exigem isso. Mas os processos, passando a pandemia, no ano que vem, devem ter concessões. E outras obras devem inaugurar, como uma parte em Santa Maria, que já está concluída com recursos do governo, especialmente na base aérea. E tem mais uma segunda parte que está em andamento com um projeto da prefeitura de Santa Maria e empresários.

Em Passo Fundo está em andamento, assim como em Santo Ângelo, Santa Rosa, São Borja e outros seis aeroportos. Essas obras talvez atrasem um pouco, mas vão andar. Outra obra que acompanhamos é nas estradas da região de Santa Maria, com recursos que estão sendo liberados e conclusão no ano que vem. A ponte do Guaíba e sua duplicação também está andando, assim como a obra da BR-116. E estamos concluindo um projeto também na área de hidrovias para podermos ir atrás de dinheiro até a conclusão. Agora um pouco mais devagar. Mas também continuamos trabalhando com uma obra importante, que é o porto do Litoral Norte, que era Torres, hoje é Arroio do Sal. Já tivemos autorização da Secretaria Nacional dos Portos, e, agora, os processos estão andando dentro do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Há uma empresa chinesa a quem apresentamos o projeto em São Paulo e eles já buscam mais informações. Então é um projeto que está andando.

JC – É uma empresa chinesa com negócios diretamente na área portuária ou de outro setor?

Heinze – É a maior empresa construtora da China em rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos, a China Railway no Brasil, a CREC 10. Em janeiro, antes desta pandemia, fiz uma reunião com eles em São Paulo e apresentei também duas obras, o aeroporto de Caxias do Sul e o porto do Arroio do Sal. Eles vieram ao Rio Grande do Sul posteriormente e continuam em contato. No aeroporto também estão especialmente interessados.

Apesar de ter dinheiro público, em Caxias, é totalmente privado.

JC – Quanto à atração de negócios com os chineses, que são grandes investidores em infraestrutura em todo o mundo, não pode começar a haver desistências e resistências com as críticas feitas por integrantes do governo federal, como o ministro Weintraub e o chanceler Ernesto Araújo?

Heinze – Eles não me demonstraram isso. A empresa tem 60 mil engenheiros na China e no mundo, então, veja o tamanho dela. Foi a empresa que mais construiu rodovias e ferrovias na China. Até aqui, não demonstraram isso e têm me cobrado posições sobre os projetos.

Tenho colocado eles a par de questões sobre o aeroporto de Caxias e a prefeitura, que está trabalhando no projeto. Agora faz em torno de um mês que não conversamos, mas eles demandaram informações e têm interesse. E precisam, afinal, é o negócio deles, e aquela região pega toda a serra gaúcha, um polo muito importante, pega a conexão com o Litoral Norte do Rio Grande do Sul. Eles têm interesse em fazer investimentos, enxergam as coisas muitos anos à frente. Não senti essa reação neles, ninguém reclamou, e continuaram me demandando.

Eles querem fazer negócio e pronto.

JC – O turismo também é um tema que senhor tem se envolvido, como na transformação de Embratur em agência brasileira como uma opção para estimular os negócios. Essa mudança foi aprovada recentemente, inclusive.

Como a agência vai operar?

Heinze – Em uma audiência com o setor de Porto Alegre, Gramado e Caxias sobre esse tema, ainda antes da pandemia, nos cobravam ações sobre o assunto.

Estamos atrás de fontes de recursos para poder ampliar as ações, como vemos que faz o México e a Argentina, entre outros. Qualquer país investe, hoje, na promoção de turismo, e um valor muito maior do que aqui. Dez, 15 vezes maior do que o Brasil investe. É importante vendermos o nosso turismo, as nossas cidades, as praias que temos em Santa Catarina, no Nordeste, enfim, muitas belezas naturais, os nossos cânions e o parque de Itaimbezinho. Lá tem campeonatos europeus de bungee jump, e aqui ninguém fala. São três municípios gaúchos e quatro catarinenses cuja beleza natural temos que vender. E a licitação para um grande aeroporto, em Caxias do Sul, vai alavancar a serra gaúcha e o turismo dos cânions. São questões que vão ajudar o nosso desenvolvimento.

JC – Quando o senhor fala em estar captando recursos para a agência, onde tem buscado esses aportes?

Heinze – Os recursos tínhamos tirado um pouco do Sistema S, mas isso aí acabou, porque não tinha consenso. Tirava um pouco do Sistema S, um valor de cerca de R$ 600 milhões que sairiam do Sistema S, parte do Sebrae, Senac, Sesi, enfim, desses órgãos, mas, como não teve acordo, acabou saindo do projeto. Hoje, estamos negociando outras fontes com o presidente da Embratur, que está buscando fontes dentro do próprio governo, dentro do próprio orçamento. Como vamos fazer? Existem mecanismos, loterias, estamos buscando alternativas e vamos encontrá-las para que, com essa viabilidade, possamos vender melhor essa imagem no exterior.

Perfil

Descendente de alemães, Luis Carlos Heinze nasceu em 14 de setembro de 1950 em Candelária.

Em 1973, graduou-se em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal de Santa Maria. Em 1974 e 1975, foi professor em São Borja. Na cidade da fronteira, constituiu sua família e tornou-se produtor rural. Foi fundador e o primeiro presidente da Associação dos Arrozeiros de São Borja, entre 1988 e 1990. Em 1989, foi secretário municipal de Agricultura. Em 1992, filiou-se ao PDS (hoje, PP), partido pelo qual se elegeu prefeito da cidade naquele ano. Depois disso, conquistou cinco vezes a cadeira de deputado federal: em 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014, quando foi o mais votado do Rio Grande do Sul. No pleito de 2018, inicialmente por indicação de seu partido, concorreria ao governo do Estado, porém, devido a coligações partidárias, abriu mão da disputa e buscou uma vaga no Senado Federal, elegendo-se com a maior votação do Rio Grande do Sul.

Fonte: Jornal do Comércio

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