Senado discute retomada do plantio de cana na Amazônia

O cultivo de cana na Amazônia, proibido há nove anos, pode voltar, a depender do destino de um controverso projeto pautado para hoje no plenário do Senado. O PL 626/2011, do senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA) tem grande chance de ser aprovado hoje ou no curto prazo, segundo fontes ouvidas pelo Valor.

A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) é favorável ao projeto. Sua presidente, deputada Tereza Cristina (DEM-MS), acredita que o PL corrige um "erro" do governo de Luiz Inácio Lula da Silva que, com um decreto de 2009 sobre o zoneamento agrícola, proibiu plantações de cana na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal. Para ela, o decreto tinha viés político e não técnico.

Ela diz que o PL prevê o cultivo de cana sobre áreas degradadas, que já foram ou ainda são utilizadas para plantio de outras culturas, como soja. E que dificilmente haverá abertura de novas áreas para plantio da cultura. "Isso não fere o meio ambiente e não quer dizer que vai abrir área nova", diz.

A inclusão repentina do projeto na pauta do Senado levantou reação imediata de ambientalistas, cientistas e do setor privado. Os usineiros temem que a aprovação danifique a imagem do setor.

Cinco ex-ministros do meio ambiente (Marina Silva, Rubens Ricupero, Izabella Teixeira, Carlos Minc e José Carlos Carvalho) condenaram a iniciativa, segundo nota do Observatório do Clima. Carlos Nobre, um dos maiores climatologistas brasileiros, diz que o PL, se aprovado, "será mais um vetor de desmatamento, direta ou indiretamente. Não há justificativa econômica, pois qualquer eventual crescimento da demanda de bioetanol ou açúcar poderá ser atendido com aumento de produtividade onde já existe a cana."

Carta de repúdio à medida assinada por 39 ONGs cobra que o presidente do Congresso Nacional, Eunício Oliveira (MDB-CE), e o presidente Michel Temer atuem para engavetar a proposta.

"O aspecto mais grave do projeto é o impacto na própria Amazônia", diz o advogado Maurício Guetta, do Instituto Socioambiental (ISA). "Cana e soja disputariam áreas antropizadas, e a pecuária, grande vetor de desmatamento, seria empurrada para áreas de floresta. Se somará um fator enorme de pressão a uma região já caótica e que sofre com a ausência da União", afirma.

Um dos motivos para a oposição dos usineiros ao projeto é que o cultivo de cana na região da Amazônia seria pouco produtivo. Além disso, prejudicaria a imagem que o Brasil quer passar ao mundo de que o etanol brasileiro favorece a redução das emissões de gases estufa.

A Coalizão Brasil, Clima, Florestas e Agricultura – integrada por empresas, centros de pesquisa e associações como a União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica) – divulgou nota pedindo que os senadores rejeitem o projeto.

Segundo a Coalizão, o atual zoneamento da cana já permite que a cultura seja ampliada para 64,7 milhões de hectares. Hoje o cultivo de cana ocupa 10,2 milhões de hectares. Em nota, o grupo diz que o setor "tem condições de aumentar sua participação na matriz energética nacional para 18% sem avançar sobre a Amazônia".

A Coalizão avalia ainda que o projeto "contraria os esforços feitos pelo governo federal, setor produtivo e sociedade rumo à produção sustentável de cana-de-açúcar no país". Se aprovado, "poderá provocar forte pressão por desmatamento no bioma" e "colocar em risco mercados já conquistados".

"Na Amazônia é possível plantar soja, arroz, milho, capim, mas cana-de-açúcar, não. Não irá se derrubar uma só árvore", diz Flexa Ribeiro. "Não querem deixar plantar cana na Amazônia porque o seu solo é mais produtivo que o de outras regiões", reage. Para o senador, empresários da indústria sucroalcooleira do Sudeste brasileiro temem a concorrência.

Por Vandson Lima, Cristiano Zaia, Camila Souza Ramos e Daniela Chiaretti | De Brasília e São Paulo

Fonte : Valor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *