Segunda reportagem da série Os desafios da armazenagem no Brasil calcula as perdas geradas pela falta de silos

William Gonçalves

Foto: William Gonçalves / Especial

Brasil pode produzir 10% a mais do que produz hoje eliminando perdas por falta de armazenagem

Nas propriedades sem silos, o processo de colheita começa e termina com perdas desde a lavoura até o destino da comercialização. A deficiência na armazenagem faz com que as perdas na safra de grãos somem valores muito altos. Os cálculos se aproximam dos R$ 15 bilhões, sem levar em conta os gastos com a logística de transporte.

• Déficit de armazenagem de grãos no país é de 40 milhões de toneladas por ano, estima Conab

– A colheita da soja, com a umidade não recomendada pela Embrapa, tem uma perda de 5%, que fica pelo chão, perdida, porque não há silo e a carga segue para o caminhão. Quando esse caminhão chega na trading, na indústria, fica na fila por um dia ou dois dias. Essa soja começa a fermentar e aí já perde mais 5%. Se pensar que o valor médio deste grão seja da ordem de R$ 1 mil, você já perde R$ 100 por tonelada. Um silo custa R$ 400 por tonelada, a prestação que você tem que pagar é de R$ 35 por ano. Ora, se você está deixando de perder R$ 100, vai ter um recurso adicional de R$ 65 por tonelada. Então, acho que mostra como o silo se paga. Tem uma outra perda, um outro aumento, que é o custo do frete, porque você usa o caminhão como silo. Essa perda pode ser eliminada e o Brasil pode produzir 10% a mais do que produz hoje – explica o diretor da Macrologística, Renato Pavan.
Segundo a Agência Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec), o congestionamento de caminhões soma mais de R$ 8 bilhões de gastos por ano. Pavan demonstra que são R$ 15 bilhões com a falta de armazenagem e mais R$ 8 bilhões com as perdas com congestionamentos e filas no porto.

No pico da safra, os produtores deixam de negociar melhores preços. Na safra passada, pelo menos 9% da produção poderia  alcançar valores maiores. Em Mato Grosso, a distância dos portos prova a necessidade de aumentar a capacidade de armazenagem. Hoje, o Estado que tem a maior produção de grãos do país vive um momento delicado. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) é inoperante. Das cinco unidades de armazenamento, apenas duas estão funcionando, em Rondonópolis (MT) e Alta Floresta (MT), com 70% da capacidade.

As lideranças  de Mato Grosso estão estimulando a construção de silos individuais ou em grupo nas propriedades. As vantagens vão além de escalonar a safra durante todo o ano, com segurança e a redução de custos. O produtor esta provocando uma espécie de concorrência no mercado, que vem se mostrando lucrativa na hora de escoar a produção.

– A gente faz um acompanhamento tanto da soja balcão quanto da soja disponível. A balcão é aquela soja já contratada que vai direto da colheita para o armazém da compradora. Se você tem um armazém dentro da propriedade, você pode vender este preço ao mercado disponível e pode ter diferenciais de R$ 2,00 ou poder chegar até R$ 4,00, dependendo do periodo de safra – diz Daniel Latorraca Ferreira, gestor de mercado do Instituto Mato -grossense de Economia Agropecuária (IMEA).
A corrida para construir armazéns, no entanto, enfrenta alguns obstáculos como, por exemplo, a dificuldade com energia elétrica nas propriedades. O produtor de soja Wanderley Cossetin tem o recurso necessário, mas esbarra na falta de energia.

– A gente pode ter condições, mas temos muito problema de energia. A demanda é muito alta. Para você ter uma ideia, as nossas redes não estão comportando e, segundo informações que obtive, primeiro é preciso procurar a Cemat e ver se ela pode fornecer uma energia a mais. Corremos atrás e conseguimos. Agora, estamos dando sequência, colocamos os valores no banco e esperamos o governo liberar.

Wanderley Cossetin é produtor em Nova Mutum (MT) há três décadas. Ele está a um passo de concretizar o sonho de ter um silo. O produtor faz os cálculos e pode ganhar até R$ 10 a mais por saca, quando conseguir armazenar a produção, além de valorizar a propriedade.

– O rapaz da corretora fez umas contas para mim. Em cima da minha propriedade, com 600 hectares de lavoura, em quatro anos eu tiro o investimento. Ele me garantiu – salienta o produtor.

CANAL RURAL

Fonte: Ruralbr | Marcelo Lara | Nova Mutum (MT)

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