Seca no Quênia prejudica lavouras e leva agricultores a ‘cultivar’ insetos

A cúpula que alcança a altura do joelho na fazenda de Ikung’u Kathimbu, na vila de Weru, no leste do Quênia, abriga uma cultura incomum: um cupinzal. Kathimbu caminha em torno da estrutura coberta com folhas de bananeira, batendo um recipiente metálico e os pés no chão. "O barulho é para imitar o ruído de chuva, enganando os cupins e fazendo com que emerjam do solo", explica ele à Thomson Reuters Foundation.

As culturas tradicionais dos agricultores sofreram, nos últimos anos, devido a longos períodos de seca. Alguns lavradores estão se dedicando à construção civil para complementar sua renda, enquanto outros, como Kathimbu, dedicam-se a colher insetos sempre que a estação chuvosa atrasa. Nesta época do ano, na fazenda de Kathimbu, o milharal deveria estar à altura da cintura. Mas somente caules murchos de mandioca povoam o terreno ressecado.

"Cinco anos atrás, eu conseguia armazenar milho e feijão em meu celeiro para alimentar minha família por sete meses", diz esse pai de seis filhos. "Mas agora todo o meu grão acabou três meses após a colheita e só sobrou mandioca". Kathimbu e sua família não estão sozinhos enfrentando essa situação. Willy Bett, secretário de Agricultura, Pecuária e Pesca do Quênia, declarou em novembro que o país está enfrentando uma grave seca.

"A intensidade da seca varia de uma área para outra", disse ele em um congresso da Associação de Comércio de Sementes do Quênia. Segundo sua estimativa, a aldeia de Kathimbu está numa das áreas mais afetadas. Segundo o Centro Internacional de Fisiologia e Ecologia de Insetos (ICIPE, em inglês), em Nairóbi, um número crescente de agricultores do leste e oeste do Quênia estão recolhendo e comendo insetos, como cupins, para enfrentar a seca prolongada.

Os cupins agora complementam a refeição de mandioca fervida da família de Kathimbu, assim como sua renda. "Quando eu tiver apanhado cupins em quantidade suficiente, vou levar alguns para a feira livre de Kambandi e vendê-los para outras famílias", afirma Kathimbu.

Um copo de insetos pode ser vendido por 10 KES (quase US$ 0,10). O maior valor que ele já obteve em um dia vendendo cupins foi 500 KES – "muito menos do que eu costumava ganhar vendendo milho", diz ele. Num bom dia, porém, Kathimbu usa o dinheiro extra para comprar farinha de milho para fazer ugali, um tipo de bolinho branco muito popular e apreciado por sua família. Outra vantagem dos cupins é que são ricos em proteínas, segundo Komi K M Fiaboe, cientista do ICIPE.

Mas agricultores como Kathimbu precisam formar fazendas de insetos adequadas para evitar danos a outras culturas, diz Fiaboe. "Embora os cupins ajudem a decompor o solo, eles também podem atacar culturas quando o solo carece de umidade e minerais", explica ele. Fiaboe sugeriu a cultura de insetos que se multiplicam rapidamente e podem ser facilmente recolhidos, como cupins e grilos, que causam menos danos às culturas do que algumas outras espécies, como gafanhotos.

Um estudo recente publicado pelo Jornal Africano de Alimentação, Agricultura, Nutrição e Desenvolvimento descobriu que as pessoas ainda consideram os insetos como criaturas feias, malcheirosas e venenosas que causam reações alérgicas. "Isso acontece porque as pessoas colhem insetos selvagens e os consomem crus, produzindo efeitos negativos sobre a sua saúde", explicou o coautor Kennedy Pambo, pesquisador da Universidade Jomo Kenyatta de Agricultura e Tecnologia.

Derrubar árvores e cavar o solo para fazer armadilhas como o cupinzal de Kathimbu também prejudica o ambiente, disse ele. "Isso pode ser resolvido criando insetos de forma controlada, em vez de colhê-los aleatoriamente", afirmou Pambo. "Quando recolhidos, eles precisam ser misturados a outros grãos, como o milho, e moídos, produzindo uma farinha. O mingau feito com essa farinha é nutritivo porque tem elevados níveis de amido e proteína", acrescenta.

Por Kagondu Njagi | Da Reuters, no Quênia

Fonte : Valor

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