Seca na Austrália estimula exportação de carne

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Bois perto de barragem em fazenda na Austrália; pecuaristas do país enfrentam seca e alta dos custos de produção

A seca na Austrália, o terceiro maior exportador mundial de carne bovina, está estimulando as exportações do setor, uma vez que as pastagens estão prejudicadas, o que leva os criadores a venderem o gado para diminuir suas perdas.

"Não podemos manter [os animais]", disse Will Abel Smith, de 49 anos, gerente de comercialização de gado da S. Kidman, que cria bois principalmente nos Estados de Queensland e de Austrália do Sul. "Não estamos em condições de alimentar o gado. Quem tenta entrar com feno, quebra".

O Estado de Queensland teve seu dezembro mais seco desde 1938, e a demanda por grãos para substituir os pastos ressecados fez com que os contratos futuros de sorgo subissem 71% desde 2011 e registrassem sua alta recorde de seis anos esta semana.

A Kidman reduziu seu rebanho em 11%, para 200 mil cabeças, no ano passado, enviando maior número de animais para o abate, uma vez que os preços do boi caíram 35% em relação ao pico de 2011.

Enquanto a seca espreme as margens dos pecuaristas, o aumento da oferta de gado é uma bênção para as operações australianas da americana Cargill e da brasileira JBS, esta última a maior produtora mundial de carne bovina.

O governo australiano estima que as exportações de carne bovina vão subir 7%, para 1,09 milhão de toneladas, no período de doze meses que se encerra em junho. O volume inclui um aumento de 74% das exportações destinadas à China e um salto de 11% das vendas aos Estados Unidos. Nos EUA, onde os preços são os maiores já vistos, a carne é vendida ao McDonald’s.

O clima seco que atinge Queensland, o maior Estado criador de bovinos da Austrália, começou em 2013, após dois anos de um clima mais úmido que o normal. Quase 65% da área sofre com a estiagem depois do quinto agosto mais seco da série histórica e o menor volume de chuvas em 75 anos para um mês de dezembro, segundo o Departamento de Meteorologia da Austrália.

"Já estamos há várias semanas na temporada úmida, e nada mudou", disse Blair Trewin, climatologista do departamento em Melbourne. "Embora haja, com certeza, uma janela de oportunidade para a ocorrência de chuvas significativas, ela está se fechando paulatinamente".

A perda de pastagens obrigou os criadores a comprar mais ração para o gado. Com isso, os contratos futuros de sorgo subiram 18% na bolsa da ASX de Sidney desde o fim de novembro, alcançando 346,50 dólares australianos a tonelada no dia 20, sua maior cotação desde 2007. O grão responde por cerca de 75% da ração usada no Estado.

Com a alta dos custos, os pecuaristas reduziram seus rebanhos. O número de cabeças de gado adulto e de novilhos abatidos de julho a outubro aumentou 16% em relação ao mesmo período de 2012, o maior acréscimo desde 1997, segundo dados do Departamento de Estatística Australiano. O Eastern Young Cattle Indicator de vendas de Queensland, Nova Gales do Sul e Victoria mostra que os preços caíram para 2,785 dólares australianos por quilo na quarta-feira, seu nível mais baixo desde dezembro de 2009.

Com maior oferta de animais, os abatedouros aumentarão a produção em 5,6%, para 8,9 milhões de cabeças este ano, segundo estimativas do governo. Isso elevará oferta de carne bovina, estimulando as exportações. Os embarques para a China devem alcançar 160 mil toneladas, o maior volume de todos os tempos, enquanto as vendas para os EUA ficarão em 230 mil toneladas, um recorde em cinco anos, segundo o governo australiano.

As importações mundiais de carne bovina vão subir pelo terceiro ano consecutivo. A alta será de 4,3% e totalizará um recorde de 7,49 milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). O consumo crescerá 0,2%, para 56,96 milhões de toneladas, volume recorde dos últimos seis anos.

Os embarques aos EUA serão beneficiados, uma vez que o país registra preços históricos recorde. A seca e os altos custos com ração obrigaram os criadores americanos a reduzir seus rebanhos para o menor número de cabeças desde 1952. Isso fez com que a produção interna de carne caísse para o menor volume em 20 anos em 2014, segundo o USDA.

O aperto da oferta nos EUA "põe muita pressão sobre as importações de carne moída para as redes de fast food", disse Brett Stuart, da Global AgriTrends, sediada em Denver, no Estado americano de Colorado. Enquanto a demanda por carne bovina australiana aumenta, outros países, principalmente a China, também elevaram seu apetite pelo produto importado, disse ele. Isso significa que os preços vão subir e que "a carne bovina será vendida para quem oferecer o maior preço".

Os aumentos dos preços poderão ser diluídos pela alta das vendas do Brasil, o maior exportador mundial de carne bovina. O país deverá abastecer os mercados mundiais com 1,94 milhão de toneladas de carne este ano, volume 7,8% maior que o de 2013 e o mais elevado dos últimos sete anos, segundo estimativas do governo americano.

A inflação acima da média e a desaceleração da economia no Brasil deverão reduzir o consumo e aumentar as exportações, ajudadas pela depreciação da moeda, segundo Paul Deane, analista do Australia & New Zealand Banking Group de Melbourne.

Os exportadores australianos poderão ter mais uma vantagem, após a moeda do país ter caído 14% em relação ao dólar americano em 2013. O dólar australiano recuou para 87,57 centavos de dólar americano no dia 20 de janeiro, o menor valor em três anos.

"A Austrália não é tão competitiva no mercado mundial de carne quando o dólar está acima da paridade", disse Troy Setter, diretor operacional da Australian Agricultural, que tem um rebanho bovino de mais de 600 mil cabeças. A depreciação da divisa australiana "realmente ajuda" as exportações, acrescentou.

A expansão das vendas para os EUA e a China mais do que neutralizará os efeitos da queda das vendas para o Japão, o maior mercado do país, disse o Departamento Australiano de Agricultura e Economia de Recursos Naturais e Ciências em relatório de 10 de dezembro. As exportações para o Japão deverão cair 6,4%, para 280 mil toneladas, o menor volume em quase uma década, num momento em que cresce a concorrência dos EUA, após o país asiático ter atenuado os limites impostos aos americanos por conta da doença da "vaca louca".

O crescimento da demanda externa beneficiará exportadoras como a JBS e a Cargill. A JBS Australia tem 11 unidades de processamento de carne com acesso a portos e é a maior operadora de fazendas de confinamento de gado. A Teys Australia, a joint venture da Cargill, é a segunda maior processadora e exportadora de carne.

Os pecuaristas ainda estão selecionando animais para o abate enquanto os custos da ração sobem, com a alta de 23% registrada pelo sorgo nos últimos dois meses.

Os meteorologistas australianos não têm certeza se a seca vai se abrandar ou se agravar. As probabilidades de o período de fevereiro a abril ser mais úmido ou mais seco que o normal são aproximadamente iguais, informou o Departamento de Meteorologia da Austrália em seu site na quarta-feira.

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Fonte: Valor | Por Phoebe Sedgman | Bloomberg

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