Seca já causa danos irreversíveis no campo

Ainda que seja imprevisível dizer, no momento, o tamanho dos danos econômicos causados pela atual estiagem sobre a economia gaúcha, diferentes e importantes culturas já acionaram o sinal amarelo para os prejuízos. Em alguns casos, até o vermelho. Além dos danos mais aparentes no milho e os riscos para a soja, a falta de chuva aliada ao calor excessivo também impacta na pecuária de corte e de leite, na avicultura e nas plantações de tabaco. Tudo isso somado tem impacto direto na economia do Estado como um todo e pode afetar o Produto Interno Bruto (PIB) gaúcho neste primeiro trimestre do ano.

Mesmo que em fase inicial, e podendo ser atenuada nos próximos dias com o retorno de precipitações nesta e na próxima semana, a continuidade de dias de temperaturas elevadas e ausência de chuva sempre deixa o Rio Grande do Sul em alerta. Especialmente quando alguns danos já são irreversíveis.

Nesta quinta-feira, a Federação das Cooperativas Agropecuárias do Rio Grande do Sul (Fecoagro-RS), por exemplo, divulgou perdas de 13% na soja e de 33% no milho, em números pesquisados pela Rede Técnica Cooperativa (RTC), junto a departamentos técnicos das cooperativas agropecuárias gaúchas.

Como o Estado tem 10% de seu PIB no setor primário – e cerca de 40% vinculado ao agronegócio como um todo, de acordo com a Federação da Agricultura do Estado (Farsul), os gaúchos já amargaram ao menos quatro baques na circulação de recursos oriundos do campo nos últimos 15 anos. "O maior impacto foi na estiagem de 2004 e de 2005, porque vieram em sequência. Depois, tivemos danos em 2008, e o último registro foi em 2012", lista Martinho Lazzari, pesquisador do Departamento de Economia e Estatística da Secretaria de Planejamento (DEE/Seplag) Lazzari diz que, desde então, o Estado nunca mais se recuperou.

Isso porque, enquanto a economia brasileira tem somente cerca de 5% de seu PIB impactado diretamente pelo setor primário, o Rio Grande do Sul tem o dobro.

De acordo com o pesquisador, em 2003, o Estado representava 6,95% do PIB nacional, caiu para 6,7% em 2004, 6,28% em 2005, 6,12% em 2008 e ficou em 5,97% na seca de 2012. "A sequência de duas estiagens, entre 2004 e 2005, derrubou o Estado no ranking da participação no PIB, se seguiu em 2008 e 2012, e nunca mais retornamos ao patamar de 2003", explica Lazzari.

Outra forma de comparar a relevância do agronegócio no PIB gaúcho é o índice de crescimento em anos de seca e estiagem, o que sempre fica aquém do nacional nesses eventos. Em 2005, por exemplo, o PIB gaúcho caiu 2,7% enquanto a média nacional foi de uma alta de 3,2%, de acordo com dados do IBGE. Economista da Farsul, Antonio da Luz explica as razões para que os impactos do clima na econômica gaúcha sejam tão evidentes.

"A cada R$ 1,00 movimentado no campo, R$ 3,20 são gerados fora dele, a partir da produção rural.

Ou seja, cada R$ 1,00 vira, ao todo, R$ 4,20", calcula Luz.

Isso porque, basicamente, para plantar o produtor investe em semente, em fertilizante, no transporte, em combustível, máquinas, energia e em uma infinidade de outras atividades, rurais e urbanas.

Movimenta comércio, indústria e serviços, sem falar das exportações.

E é por esse círculo virtuoso que o Estado está em alerta e dele não deverá sair tão cedo. Luz destaca que quanto menos dinheiro gerar o núcleo dessa engrenagem (a agropecuária), menos riqueza sobra para dividir entre todos os gaúchos. As perdas existem, algumas irreversíveis, assegura o economista, e não são pequenas.

"Não temos como falar em nenhum número antes dos levantamentos da Emater. Ainda não sabemos o tamanho da perda e temos muito pela frente. Se chover agora, evita prejuízos maiores ao Estado, mas nada está garantido até maio", ressalta Luz.

Fonte: Jornal do Comércio