Seca e calor devem reduzir safra de soja nos Estados Unidos

Grupo de produtores e agrônomos brasileiros que participou de viagem promovida pela Cocamar avalia que os danos causados às plantações no Meio-Oeste do país são inquestionáveis

por Rogério Recco, especial para Globo Rural

Os danos causados à soja pela falta de chuvas e o forte calor no Meio-Oeste dos EUA são inquestionáveis. Esta é avaliação de um grupo de produtores e agrônomos brasileiros, que participou de um tour promovido pela Cocamar no Estado de Illinois.
Para o engenheiro agrônomo Henrique de Biasi, que trabalha na Embrapa Soja em Londrina (PR) e integrou o grupo, a região visitada no Illinois já apresenta perdas. "Há um déficit hídrico elevado em pleno período de enchimento de grãos", comenta Biasi, referindo-se à soja. Segundo ele, a lavoura teve até agora um bom desenvolvimento, mas o potencial produtivo está diminuindo devido a falta de umidade.

"Se não chover logo, a situação vai piorar", acrescenta, dizendo ser difícil, por enquanto, fazer uma estimativa. Mas mencionou que se um quadro de déficit hídrico semelhante ocorresse no Brasil durante a fase de granação da soja, a safra estaria liquidada."

Na última semana, quando a comitiva composta por 63 pessoas – entre produtores e técnicos – visitou propriedades e uma cooperativa em várias regiões, além de participar da Farm Progress Show (importante feira de tecnologias para o agronegócio), a estiagem já durava 40 dias e, para complicar, a temperatura estava ao redor de 40 graus – o que potencializa o risco de danos.
Nesta quarta-feira (4/9), a empresa de previsão de safras Lanworth reduziu sua previsão para as colheitas de milho e soja dos EUA por conta do clima quente e seco em importantes áreas de produção no Meio-Oeste norte-americano. A empresa estimou a produção de soja dos EUA na safra 2013/2014 em 3,114 bilhões de bushels (84,7 milhões de toneladas). Há uma semana, a consultoria havia previsto a produção norte-americana da oleaginosa em 85 milhões de toneladas. A previsão para a colheita de milho caiu de 340,5 milhões de toneladas para 338 milhões de toneladas.
O superintendente de operações da Cocamar, Arquimedes Alexandrino, lembra que em alguns lugares foram observadas manchas amareladas na lavoura de soja, um indicativo claro de estresse hídrico. E cita que a própria cooperativa Topt Light Grain, que opera com 1,2 mil produtores nas imediações de Champaign, admitiu no momento em que recepcionou os visitantes, uma perda considerável na cultura da soja. Diante de uma média tradicional ao redor de 160 sacas por alqueire, eles já cogitam uma expectativa de produtividade de 95 sacas por alqueire, resultado de uma série de problemas, começando pelo plantio tardio em razão do excesso de chuvas naquele período, seguido de temperaturas frias na fase de desenvolvimento e, agora, estiagem e forte calor na época de enchimento de grãos.
De qualquer forma, comenta o superintendente, há uma grande variabilidade da situação das lavouras, que apresentam quadro melhor em algumas regiões e pior em outras. Ele diz que ainda não dá para fazer uma projeção, mas afirma acreditar em uma safra de soja com volume de produção semelhante a do ano passado, ao redor de 82 milhões de hectares. Inicialmente, acrescenta, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) previu uma safra de 93 milhões de toneladas, mas a quantidade já foi revista para baixo. Há alguns dias, o Crop Tour divulgou o resultado de um minucioso levantamento, apontando para algo próximo a 85 milhões de toneladas. "Como se vê, estamos chegando perto dos números do ano passado", completa.
Já o prof. Antônio Luiz Fancelli, consultor da Cocamar e docente da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queirós (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP), diz que a variabilidade do estado das lavouras é grande, mas, de um modo geral, apresentam bom desenvolvimento. Ele considera que, pelo menos até o momento, não é possível ainda ter uma noção mais clara em relação a possíveis perdas, embora acredite que elas já existam. Fancelli, no entanto, chama atenção para a possibilidade de uma mudança rápida do clima em setembro, com a chegada do frio e até das primeiras geadas. O clima, pelo menos, mostra sinais de semelhança com o ocorrido em 1996 e 1998, quando houve geadas precoces. Se isto acontecer, o risco de a soja ser atingida é grande e perdas serão inevitáveis", pontua.
Com a experiência de produzir soja há 26 anos em Terra Boa e há dez em Querência do Norte, no Paraná, Valdomiro Peres Júnior, um dos produtores de soja que participou da viagem, diz que, pelo que viu, as lavouras de soja apresentam comprometimento em sua produtividade, como resultado do longo período sem chuvas. "Diferente dos nossos solos, que não retêm umidade, no Meio-Oeste dos Estados Unidos os solos permitem umidade por mais tempo, o que favorece a cultura, mas o momento atual é crítico porque as plantas necessitam de bastante água para o enchimento de grãos, mas não está chovendo".

Quanto ao milho, a expectativa da delegação é que as lavouras já estão bem adiantadas e o percentual de perdas em razão do déficit hídrico, num contexto geral, deve ser pequeno.

"Se as coisas já não estão muito boas para o milho, elas parecem muito piores para a soja", afirmou o especialista em agronegócios Amílcar Centeno, que fez palestra para os integrantes do grupo da Cocamar em Champaign, na terça-feira (28). De acordo com Centeno – que por mais de 30 anos trabalhou na John Deere – o risco de geadas em setembro deve ser considerado. "Pelo jeito o campeonato vai ser decidido aos 45 minutos do segundo tempo", comentou.
“Definitivamente não é um ano bom”, resume o produtor Jeff Fischer, cuja família cultiva 600 hectares na Champaign. Fischer, que faz rotação na propriedade, plantando metade com soja e metade com milho, conta que a maior parte das lavouras teve que ser plantada fora do prazo recomendado, bem depois de 15 de maio, data-limite, por causa do excesso de chuvas. Normalmente ele precisa de 20 dias para semear mas, como atraso, a operação foi feita em apenas 6 dias.“Ficamos totalmente fora de época, o que é muito perigoso”, acrescenta. Ele foi um dos produtores visitados pelo grupo da Cocamar.

Atraso na comercialização

Um outro detalhe na viagem aos Estados Unidos chamou a atenção do superintendente de operações da Cocamar, Arquimedes Alexandrino: o atraso na comercialização da safra deste ano, fenômeno que se observa tanto nos EUA quanto no Brasil, respectivamente o primeiro e segundo maior produtor mundial da oleaginosa.
Alexandrino lembra que na visita à cooperativa Topt Light Grain, em Seymour, os brasileiros souberam que apenas 38% do milho e 25% da soja foram comercializados antecipadamente pelos produtores, sendo que, de acordo com o histórico, ao menos metade da safra já deveria ter sido vendida. "No Brasil também os produtores estão segurando a comercialização, de um lado porque a cotação do milho está baixa e, de outro, porque certamente apostam em novas altas para a soja."
O problema é que o tiro pode acabar saindo pela culatra, observa o superintendente, explicando que se os sojicultoes decidirem, em determinado momento, efetivar a comercialização, a oferta maciça da commodity poderá contribuir para derrubar o preço.
Uma explicação do site AGProfessional para essa demora é que os produtores norte -americanos estariam capitalizados em razão de vários anos seguidos de preços altos para as commodities e se colocam agora numa posição cômoda frente ao mercado, sem enfrentar pressão e segurando as vendas ao aguardo de novas altas.

Fonte : Globo Rural | por Rogério Recco, especial para Globo Rural

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