Seca de rachar

As lavouras de fumo e milho estão calcinadas pela seca. As pastagens, de tão amarelecidas e quebradiças, parecem que sofreram uma fumigação aérea. Na paisagem desolada da localidade de Cerro Seco, em Agudo, só restou ao agricultor Nilson Markendorf, 42 anos, contemplar a agonia dos bois de canga, Pintado e Alegre, que deverão ser mandados ao frigorífico caso não chova nos próximos cinco dias.
Alegre e Pintado estão sempre na taipa do pequeno açude, mas não se animam a tomar a água que se transformou em um lodaçal malcheiroso, borbulhante e quente. Estão sedentos, mas refugam o líquido escuro, onde se debatem carpas e jundiás em busca de oxigênio. Como o pasto do campo também secou, os bois definham – Markendorf calcula que já perderam 10% do peso de 720 quilos.
– A água está fedida, eles não conseguem beber – lamenta o agricultor.
Os animais são mansos e forçudos, arrastam uma carga de 1,5 tonelada de fumo sem esforço. Mas, se não chover logo, deverão ser sacrificados. Markendorf acha melhor que sejam fatiados em bifes e costela para churrasco no açougue, antes que morram de inanição. O filho, Arílson, 16 anos, chorou com a sentença, pois se apegou à docilidade de Alegre e Pintado, mas a decisão do pai é definitiva.
– Fazer o quê? Os corvos (urubus) já estão voando sobre a propriedade – justifica o agricultor, que encontrou peixes mortos à beira do que era um lago.
Situado a 35 quilômetros de Agudo, Cerro Seco foi batizado assim por não suportar mais de 30 dias sem chuva. Na atual estiagem, a desesperança é tamanha que Rodrigo Glanzel, 28 anos, resolveu abandonar a região. Na tarde de sexta-feira, aguardava o caminhão da mudança para carregar a parca mobília. A mulher, Roseli, 38 anos, e os quatro filhos já tinham embarcado para Santa Cruz do Sul.
– Vou trabalhar como auxiliar de pedreiro – anuncia Glanzel.
Ele plantou 32 mil pés de fumo, como meeiro, mas a seca devastou parte da lavoura. Esperava colher 350 arrobas, mas a safra talvez renda pouco mais da metade. Falido, sem ter como pagar as contas, entregou a plantação do jeito que está ao dono da área em troca do perdão das dívidas. Ficou sem nada no bolso, mas aliviado por ir embora.
Cerro Seco é o epicentro de uma zona rural afetada por uma das piores estiagens dos últimos 30 anos. O presidente da Defesa Civil de Agudo, Aliceu Odair Klein, também secretário municipal de Administração, já recebeu 820 pedidos de fornecimento de água a domicílio. O único caminhão-pipa consegue abastecer seis propriedades por dia.
Outra providência é abrir poços. Na tarde de ontem, o operador de máquinas Ivan Braatz, 50 anos, escavava o ventre do solo com o braço mecânico da retroescavadeira, na localidade de Nova Boêmia. Ao perfurar dois metros, a terra permanecia dura e poeirenta. Nem sinal de umidade.
– Este poço ficará para quando chover – previa.
Quem estava à beira do buraco vazio, acompanhando os trabalhos, era o agricultor Gilberto Cavalheiro, 37 anos. Perdidas as lavouras de feijão e milho, atordoado com o estorricamento progressivo da plantação de fumo, agora tenta salvar os animais. Amarrou os bois Gaúcho e Mineiro à sombra, com um vasilhame de água perto. A partir da semana que vem, se não chover, conduzirá os animais por quatro quilômetros, a pé, para que possam se saciar no Rio Jacuí:
– São do serviço, não posso ficar sem eles.
Vizinha de Agudo, Nova Palma também contabiliza prejuízos. O agricultor Ênio Bertoldo, 66 anos (foto ao lado), lembra que, desde 21 de novembro, não chove no lugar. Todas as manhãs, olha para o céu límpido à cata de nuvens em forma de rabo de galo – as que anunciam mudança no tempo. Mas nem vestígio delas, que evaporaram, assim como as águas da barragem.
As últimas lâminas dos riachos também estão sumindo. Em Agudo, Erenita Wilke, 49 anos, e a filha Marta, 19 anos, aproveitavam uma poça do Arroio Curupá para lavar roupa. Foram de trator, por causa das pedras expostas no leito. De chapelão de palha e camisa de manga comprida, para se proteger do sol, lastimava-se do improviso:
– Em casa, só sobrou água para o bicharedo. Faz dois meses que não cai uma chuva boa.

Fonte: ZH | REPORTAGEM ESPECIAL

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