Seca castiga produção capixaba de frutas; mamão dispara

A seca que atinge o Espírito Santo desde o ano passado fez com que o governo estadual restringisse o uso de recursos hídricos para a agricultura, o que tem causado perdas milionárias para o setor frutícola capixaba e já provoca desabastecimento de algumas frutas no país, sobretudo de mamão.

Atualmente, 14 municípios do semiárido do Estado, região mais afetada pela estiagem, na parte setentrional, estão proibidos de utilizar água para irrigação, enquanto os demais estão com restrição de uso durante o dia. A Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh) também proibiu desde setembro passado a construção de poços artesianos, permitindo apenas casos pontuais. O objetivo é priorizar o consumo humano e por animais.

Altamente dependente de irrigação, a produção de frutas no Estado tem desidratado. Um estudo conduzido pela Secretaria Estadual de Agricultura revelou que os produtores de frutas do Espírito Santo deixarão de ganhar R$ 101,5 milhões nesta temporada de 2015/16 por causa da quebra de safra, resultando em faturamento de R$ 938,7 milhões. Em volume, a quebra deve atingir 121,4 mil toneladas, somando pouco mais de 1 milhão de toneladas.

A fruticultura é o segundo maior segmento do agronegócio do Espírito Santo, correspondendo a 12,8% do faturamento agrícola, e faz do Estado o segundo maior fornecedor de mamão do país.

No primeiro trimestre do ano, época em que historicamente a produção é maior por causa das chuvas, os produtores capixabas colheram menos da metade da média para o período, na avaliação de Franco Fiorot, diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Papaya (Brapex). Em seus cálculos, a produção de janeiro a março deve ter ficado em torno de 50 mil toneladas, ante uma média de 100 mil toneladas.

"Além da falta de água para irrigação, a alta temperatura também é um problema porque provoca o abortamento das flores", explica Fiorot. Ademais, boa parte dos frutos que nascem das floradas cresce com padrão abaixo das exigências do mercado e acabam não sendo comercializados.

Nesse quadro de menor colheita de mamão, o mercado externo é prioridade. "Como temos acordos de exportação fechados, não podemos não cumprir, e isso afetou o mercado interno", diz Georgina Caliman, diretora de mercados externos da Caliman Agrícola, em Linhares (ES). A empresa vendeu apenas 300 toneladas de mamão no mercado interno, ante uma média de 800 toneladas ao mês.

Os consumidores já sentiram os efeitos da redução da oferta capixaba de mamão. Desde o início do ano até 8 de abril, o preço do mamão formosa recebido pelo produtor do Espírito Santo já subiu quase quatro vezes, para R$ 3,27 o quilo. No mercado atacadista de São Paulo (maior polo consumidor da fruta no país), o preço da fruta subiu quase três vezes, para R$ 58,75 a caixa de 13 quilos.

A oferta de outras frutas do Estado também tem sido prejudicada. Um exemplo é a banana, ainda que a produção no Espírito Santo seja mais modesta dentro do contexto nacional. As lavouras foram afetadas não apenas pela restrição à irrigação, como também pela contaminação do rio Doce pela lama de rejeitos da barragem da Samarco, segundo Aureliano Nogueira, gerente de produção vegetal da Secretaria de Agricultura do Estado.

Os bananais da Caliman Agrícola praticamente não estão mais produzindo neste ano. "A área secou e não tem mais o que vender", afirma a diretora.

Ainda de acordo com Nogueira, a restrição hídrica também afeta as lavouras capixabas de macadâmia, maracujá e abacaxi, que têm uma participação menos expressiva dentro do agronegócio do Estado.

As perspectivas para a fruticultura do Espírito Santo não são animadoras. As precipitações deste mês têm se mantido bem abaixo das médias históricas, e o período de estiagem sazonal no Estado começa em maio, estendendo-se até setembro.

Ainda que o regime de chuvas volte ao normal na primavera levará um tempo para que as plantas recuperem seu potencial produtivo. A lavoura do mamão, por exemplo, só produz depois de oito meses do plantio. Além disso, os prejuízos já estão fazendo os produtores cortarem seus investimentos na cultura. "Eles não renovaram o plantio ou diminuíram a área plantada", atesta Fiorot, da Brapex.

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo
Fonte : Valor

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