Seca atinge pecuária leiteira no Semiárido

Murillo Camarotto/Valor / Murillo Camarotto/Valor
Macedo e os mandacarus: "Não sabemos o que está acontecendo, se o problema são os funcionários, os projetistas ou o governo. Se vieram acudir, não está adiantando"

Com seu aspecto soturno, o mandacaru é certamente um dos personagens mais marcantes do cenário da seca. Seu reinado, no entanto, está ameaçado. Na pior estiagem dos últimos 40 anos no Semiárido nordestino, a planta adornada de espinhos se tornou a última opção de alimento para o gado faminto. Caminhões repletos de mandacaru cruzam as estradas do Agreste de Pernambuco, onde avançava a mais próspera bacia leiteira do país nos últimos dez anos, cuja produção deve cair pela metade em 2012.

O alerta no Semiárido soou em março último, quando a estação chuvosa passou praticamente sem molhar o chão. Poucos meses depois, foi anunciada uma série de medidas de apoio aos pequenos produtores. Os resultados, porém, deixam a desejar. Como o Bolsa Família e os programas de construção de cisternas atenuaram o problema da fome e da falta de água para consumo humano, a maior parte das medidas se concentrou em soluções para a diáspora do gado, denunciada em reportagem do Valor publicada em maio passado.

A seca prolongada devastou as roças de milho, que era plantado na época da chuva para ser utilizado como ração em tempos de estiagem. Como a água não caiu, os produtores tiveram que apelar para formas de alimentação menos eficientes, como palma, o bagaço da cana e, mais recentemente, o mandacaru. O governo federal acenou com a venda de milho a preços subsidiados para ajudar a salvar os animais da região. O cereal, no entanto, chega a conta-gotas ao semiárido, o que acaba por gerar revolta nos pequenos produtores, que acusam direcionamento na entrega.

O próprio governo admite que há irregularidades. Por meio de denúncias, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) identificou um "desvio de filosofia" no programa de distribuição do milho. Além da morosidade do governo em despachar o cereal, muitos produtores do Nordeste estariam comprando o milho subsidiado pelo governo para revendê-lo por até três vezes o valor original.

Até o fim do ano passado, pouco mais de 25 mil produtores tinham se habilitado a negociar nessa modalidade. Com a alta na demanda observada desde junho, o número já chegava a 95 mil na semana passada, um crescimento de 281%. Pernambuco foi o Estado que mais cresceu. Em 2011 existiam 170 cadastros. De janeiro até a semana passada já estavam contabilizados 8,2 mil produtores, um incremento de 4.723%.

Na manhã de sexta-feira, muitos pequenos produtores faziam fila na porta do depósito da Conab em Arcoverde, no sertão pernambucano. Impedidos de entrar, os lavradores recebiam senhas e aguardavam o chamado. Nas rodas de conversa, queixas sobre a burocracia para a retirada do milho e os demais programas de incentivo anunciados. A revolta aumentava quando caminhonetes entravam e, poucos minutos depois, já saíam carregadas.

O produtor de leite Mair Tenório disse que se cadastrou no programa há cinco meses e ainda não recebeu um grão de milho, apesar de já ter pago pela mercadoria. Pelas regras do programa, o produtor se cadastra e ganha o direito de adquirir uma quantidade relativa ao seu rebanho. Mais tarde, recebe um boleto bancário para ser pago no Banco do Brasil e depois aguarda para retirar o milho. "Mas nunca tem. Uma hora está sem sistema, outra hora está sem energia, cada hora é uma desculpa", disse Tenório. "O nosso dinheiro já é pouco e ainda fica parado aí na Conab, isso é um absurdo", completa.

Oficialmente, o Ministério da Agricultura diz que não recebeu denúncias, mas nos bastidores o governo não só reconhece o problema como se diz de mãos atadas. "Nós vendemos o milho mais barato para ajudar o pequeno produtor e não temos culpa se alguém compra para revender. Depois de vendido, não podemos regular o que cada um faz com o grão", afirmou uma fonte do ministério.

Enquanto as soluções não chegam, a produção de leite cai vertiginosamente em Pernambuco. Formada por seis municípios, a microrregião do Vale do Ipanema é a principal bacia leiteira do Estado e uma das maiores do Nordeste. Influenciada pelo crescimento do consumo das famílias nordestinas, a produção em Pernambuco avançou 145% nos últimos dez anos, o melhor desempenho entre os principais Estados produtores. Como resultado, laticínios importantes se instalaram no entorno, casos da Batavo (BRF – Brasil Foods) e do grupo Betânia.

A seca, entretanto, deve prejudicar severamente a produção local, quase toda concentrada nas pequenas propriedades. Estimativas da Agência de Defesa e Fiscalização Agropecuária de Pernambuco (Adagro) apontam para uma queda de pelo menos 40% em relação a 2011, podendo chegar a 50%. A escassez de ração para o gado é a grande responsável. Sem condições de alimentar os animais, muitos produtores estão se desfazendo dos rebanhos, seja vendendo a preços irrisórios ou, até mesmo, doando os bichos para que não morram.

Em muitos casos, porém, não é possível evitar o pior. Na tarde da última quinta-feira, um grupo de empregados do Sítio Panelas, no município de Pedra, assistia impotente à morte de três vacas que já não tinham forças para se levantarem. Os animais vinham se alimentando há meses apenas de cana de açúcar, o que, segundo os criadores, é fatal para o seu equilíbrio nutricional no longo prazo.

Dono de laticínio em Venturosa, Pernambuco, Uziel Valério da Silva já começou a demitir funcionários por causa da crise

Dono do principal laticínio de Venturosa, um dos municípios do Vale do Ipanema,, Uziel Valério da Silva diz que seu negócio vive o pior momento desde 1992, quando foi criado. A captação diária caiu de 14 mil litros de leite por dia para 9 mil litros, o faturamento recuou 50% e os custos subiram. "Meus fornecedores estão ligando e dizendo que estão vendendo os animais, e eu tenho que dar razão a eles", afirmou o empresário, que já começou a demitir funcionários de seu laticínio.

Situação semelhante vive Osenilton de Almeida Araujo, dono do Laticínio Fazendinha. Sem alimentação adequada para o rebanho, sua captação diária diminuiu de 1 mil litros por dia para 500 litros. Sem conseguir o milho prometido pelo governo, ele tem apelado para a cana de açúcar. Cada carreta com 12 toneladas lhe custa R$ 1.260.

A maioria dos produtores reclama da ineficiência dos programas emergenciais anunciados. Além do milho que não chega para todos, um programa do Banco do Nordeste (BNB) oferece financiamento de R$ 12 mil para ajudar os pequenos durante a estiagem. Muitos produtores ouvidos em Pernambuco, porém, reclamaram da burocracia para a obtenção dos recursos. Ao Valor, o diretor de Agricultura Familiar do BNB, Luiz Sérgio Machado, disse que a demanda está sendo atendida normalmente e que R$ 1 bilhão já foram repassados.

"Já telefonei para o comitê das secas e pedi informações. A gente não sabe o que está acontecendo, se o problema são os funcionários, se são os projetistas ou se é o governo. Mas, se vieram para acudir a emergência, não está adiantando nada. Vão esperar morrer todos os bichos para acudir?", queixou-se o lavrador Carlos Almeida Macedo, sobre a ajuda prometida. Ele reluta em vender as vacas que lhe fornecem 300 litros de leite por dia, volume que já foi três vezes maior.

Macedo já foi obrigado a vender uma parte do rebanho para comprar uma caminhonete velha e, assim, evitar os elevados custos com o frete da ração que vem de fora, sobretudo de Alagoas. Um programa do governo de Pernambuco se comprometeu a subsidiar o frete da cana e da palma, porém o alcance tem sido baixo. Com o carro que comprou, Macedo sai recolhendo mandacaru sertão adentro, ajudando a mudar a paisagem clássica da seca. A planta é queimada com maçarico para que os espinhos sejam retirados. "Tem que deixar longe da vaca, senão ela come com espinho e tudo."

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Fonte: Valor | Por Murillo Camarotto e Tarso Veloso | De Venturosa (PE), Pedra (PE), Arcoverde (PE) e Brasília

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