Seca amplia diáspora de gado no Nordeste

Murillo Camarotto/Valor
Na feira de Tabira, no sertão do Pajeú (PE), Luiz José de Melo relutava em baixar o preço da vaca que lhe fornecia leite, mas com a seca ele não teve escolha

"E vende seu burro / Jumento e o cavalo / Inté mesmo o galo / Venderam também / Meu Deus, meu Deus / Pois logo aparece / Feliz fazendeiro / Por pouco dinheiro / Lhe compra o que tem". (Patativa do Assaré)

O tom lamentoso de "A Triste Partida", gravada em 1964 por Luiz Gonzaga, difere da atmosfera tensa que predomina atualmente nas feiras de animais espalhadas pelo interior do Nordeste. Com a previsão de uma seca prolongada, pequenos e médios criadores correm para se desfazer dos rebanhos, que têm o destino selado pela escassez de água e pastagem. A necessidade de venda imediata derruba os preços em até 70%, gerando inconformidade entre os sertanejos. Na pior estiagem dos últimos 30 anos, a diáspora do gado surge como protagonista do efeito devastador da seca sobre as cadeias produtivas do semiárido.

Na movimentada feira de Tabira, que fica no sertão do Pajeú, em Pernambuco, o lavrador Luiz José de Melo resmungava sozinho, debaixo de um sol perturbador. Ali desde a madrugada, ele relutava em baixar o preço da vaca que lhe fornecia leite e alguns trocados, mas que já estava debilitada. "Na chuva, eu vendia por R$ 900, tranquilo. Agora não querem pagar nem R$ 500", queixou-se. O sertanejo estava ciente, entretanto, de que não poderia voltar para casa com o animal. "Ela tá muito fraquinha já".

Somente em Pernambuco, foi registrada até 20 de maio último a saída de 70 mil animais do Estado, um crescimento de 288% em relação ao mesmo período de 2011. Se consideradas as migrações internas, pelas quais os bichos trocam a região seca pelo litoral ou outras áreas onde ainda há pastagem, o número se aproxima de 1 milhão.

Segundo a Agência de Defesa Agropecuária de Pernambuco (Adagro), a maior parte dos negócios envolve bovinos, que estão sendo levados sobretudo para Alagoas, Maranhão e Pará, além do agreste do Estado. Debutante na feira de Ouricuri, no sertão do Araripe, o pecuarista Rui Gomes Moreira Filho chegou disposto a levar, de uma tacada só, 500 vacas para sua fazenda em Ipixuna do Pará (PA). Seus funcionários corriam enlouquecidos pelas alamedas da feira, onde a terra seca cria uma cortina de poeira que obriga muitos a usarem máscaras cirúrgicas para respirarem melhor.

"Vim pra cá porque tem boa condição de comprar e o povo quer vender", disse o fazendeiro paraense, que exporta o gado vivo para o Líbano, em navios que comportam mais de 10 mil cabeças. Apesar dos preços convidativos, ele não ficou muito satisfeito com a organização da feira e com o estado de conservação das vacas. Acabou levando cem bezerros.

Murillo Camarotto/Valor / Murillo Camarotto/ValorNa feira de Tabira, no sertão do Pajeú (PE), Luiz José de Melo relutava em baixar o preço da vaca que lhe fornecia leite, mas com a seca ele não teve escolha

Coordenador da Adagro em Ouricuri, João Carlos Alves diz que a seca aumentou expressivamente o movimento na feira local. Segundo ele, em anos considerados normais, o volume gira em torno de 1,5 mil negócios por dia. Por conta da estiagem, vem superando a marca de 2 mil transações. Os números são bastante semelhantes na feira de Tabira, conforme informações de João Afonso de Sá, técnico da Adagro.

Apesar da diáspora dos animais envolver especialmente os bovinos, a situação também não é boa para os pequenos criadores de caprinos do semiárido. Um dos mais acabrunhados na feira de Tabira era José Zenaide Marques, que perdeu quase R$ 1,5 mil na venda de suas 15 cabras, ao preço de R$ 125 por cabeça. "Se não fosse essa seca braba eu conseguia pelo menos R$ 220 em cada uma delas", garante.

Sua principal queixa, bem como a da maioria dos sertanejos que assistem seus animais abarrotarem os caminhões dos forasteiros, é o preço da ração. Com o pasto dizimado pela seca, disparou o preço dos principais itens utilizados na dieta dos bichos. Mais popular na região, a chamada torta de algodão dobrou de preço, passando a custar cerca de R$ 60 por saca de 50 quilos. Segundo os lavradores, a casca de mandioca também aumentou 100%, mesmo reajuste verificado na palha de feijão e na palma. Até o bagaço de cana, que antes vinha de graça, já está caro para os padrões do semiárido.

"O governo tinha que fazer alguma coisa pra melhorar o preço da ração. Do jeito que está não tem condições", reivindica Marques. Semana passada, o governo de Pernambuco anunciou a suspensão da cobrança de ICMS sobre a ração animal, porém a medida ainda depende da aprovação Conselho dos Secretários da Fazenda do Brasil (Confaz). Também foi prometida aos sertanejos a contratação de caminhões para a distribuição da ração nos municípios, bem como a disponibilização de 300 mil toneladas de milho a preços subsidiados.

A maioria das medidas já anunciadas pelo governo para auxílio aos afetados pela seca é totalmente desconhecida pelos sertanejos. Um dos problemas é falta de comunicação. A maioria das pessoas têm antenas parabólicas em suas casas, acabam assistindo a programação de TV de outras regiões e não tomam conhecimento dos anúncios. O outro é a demora na implantação das medidas. Quase nada saiu do papel. "Há muita coisa autorizada, mas não operacionalizada", diz o secretário de Agricultura de Pernambuco, Ranilson Ramos.

Apesar das dificuldades impostas pela estiagem, a falta de planejamento aumenta a penitência dos sertanejos. É o que relata o pecuarista Cléber Medeiros, que compra animais a baixo custo na feira de Ouricuri e os leva para Santana de Ipanema, em Alagoas, município que também sofre com a estiagem. "A diferença é que temos ração armazenada, a gente se previne. Aqui o povo não faz nada", explicou ele, que engorda o gado em sua propriedade e depois revende para fazendeiros de Minas Gerais.

Uma exceção a este modelo está no município de Trindade, no sertão do Araripe, onde o lavrador Milton Antonio da Silva ainda não precisou vender as 21 ovelhas que ele chama de "caderneta de poupança". Precavido, mantém em casa um bom estoque de milho, feijão e capim, que pelas suas contas deve durar até setembro. Seu maior drama é a água para os animais e o plantio. O açude que atende seu povoado está com a água muito suja e perto de secar. "A gente até parou de plantar, pra economizar a água de beber", relata.

Na vizinha Ouricuri, o aposentado Sebastião de Oliveira vive o inverso. Por falta de condições financeiras para manter o rebanho, está vendendo todas as 220 vacas e não sabe ao certo o que vai fazer da vida depois. "Quando acabar tudo, a gente come o que resta e vai-se embora pra outro canto. O mundo não é só aqui mesmo", diz ele. Ao seu lado, um amigo se intrometeu: "Quem não tem aposentadoria vai caçar pedra e beber o caldo". Sebastião retrucou: "Dependendo do tempero, até que não é ruim".

Fonte: Valor | Por Murillo Camarotto | De Tabira, Ouricuri e Trindade (PE)

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