Salto do dólar ante o euro preocupa exportador de suco

Beneficiadas desde meados do ano passado pela forte valorização do dólar em relação ao real, as exportações brasileiras de suco de laranja poderão em breve perder parte dessa maior rentabilidade proporcionada pelo câmbio justamente em seu principal destino, a União Europeia.

Ocorre que a alta da moeda americana também sobre o euro, até agora compensada por contratos de hedge, já começou a incomodar os engarrafadores da bebida no Velho Continente, que compram o produto brasileiro em dólar e vendem às redes varejistas locais na moeda europeia.

"Se a situação persistir, o suco brasileiro ficará mais caro na Europa sem que o preço tenha subido, o que acarretará em pressão dos clientes sobre as cotações", diz Ibiapaba Netto, diretor-geral da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR), que representa Citrosuco, Cutrale e Louis Dreyfus Commodities, as líderes dos embarques mundiais.

Netto afirma que em julho de 2014 (primeiro mês da safra 2014/15), quando o euro valia US$ 1,35, a tonelada – equivalente ao produto concentrado e congelado (FCOJ) – do suco de laranja brasileiro chegava à União Europeia por € 1.496, já incluído o imposto de importação de 12,2%.

Recentemente, quando o euro passou a valer US$ 1,08, a mesma conta passou a resultar em € 1.853 por tonelada. Ou seja, em pouco mais de um ano e meio o preço ficou € 357 mais elevado só por causa da variação cambial.

Conforme cálculos do Valor Data, do início da safra 2015/16, em julho do ano passado, até fevereiro último, o dólar subiu 2,7% em relação ao euro – na comparação com o real, a alta foi de 28,8%%.

Como sustenta a CitrusBR, até este momento os contratos de hedge diluíram esse "efeito câmbio" e as exportações brasileiras à UE não foram prejudicadas. E como o consumo no verão europeu surpreendeu positivamente, houve até um incremento do volume embarcado nos primeiros nove meses desta temporada 2015/16.

Dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic) compilados pela entidade indicam que os exportadores brasileiros venderam 502,9 mil toneladas aos engarrafadores europeus nos nove primeiros meses do ciclo 2015/16 (julho a fevereiro), 0,7% mais que no mesmo intervalo de 2014/15.

O valor desses embarques caiu mais na comparação -10,7%, para US$ 822 milhões -, mas em decorrência de fatores ligados aos fundamentos de oferta e demanda sem relação com questões cambiais. Apesar da leve recuperação europeia, de forma geral a demanda global pelo produto está em queda há mais de uma década, o que tem pressionado as cotações.

A preocupação dos exportadores com a relação entre dólar e euro se justifica pelo peso da UE nos embarques totais do país. Nos primeiros nove meses da safra atual, 69,8% do volume total embarcado foi destinado aos engarrafadores europeus, enquanto na receita total o percentual chegou a 70,3%.

Segundo a CitrusBR, o volume total embarcado no período (720,8 milhões de toneladas) foi 3,3% menor que em igual intervalo do ciclo 2014/15. Por conta da queda estrutural dos preços, a receita total recuou 14,3% na comparação, para US$ 1,17 bilhão.

Conforme a entidade, essa leve queda em volume ainda poderá ser revertida até o fim da safra, em junho. Em parte, em razão da disparada dos preços do suco de abacaxi produzido na Tailândia, que lidera as exportações da bebida.

Mais sobre balança em Euro cai em relação ao dólar e país paga menos por importado europeu

Por Fernando Lopes | De São Paulo

Fonte : Valor

Compartilhe!