Sakata consolida sua posição em sementes de hortaliças no país

Silvia Costanti/Valor / Silvia Costanti/Valor
O presidente da Sakata Seed no Brasil, Nelson Tajiri, reconhece que o país ainda é muito pequeno para a companhia

A história do agrônomo Nelson Shoiti Tajiri, formado em uma das primeiras turmas da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp, confunde-se com a história do setor hortaliças no Brasil nos últimos 40 anos.

Como executivo da Cooperativa Agrícola de Cotia, uma das mais tradicionais cooperativas de colonos japoneses em terras brasileiras, Tajiri participou da iniciativa pioneira da adaptar hortaliças ao clima tropical. O agrônomo também atravessou a dramática crise que atingiu a agricultura nacional na virada dos anos 1980, num processo que culminaria com a desnacionalização do mercado de sementes e o alçaria ao posto mais alto da multinacional japonesa Sakata Seed no Brasil.

Sob o comando de Tajiri desde 1994, quando iniciou sua operação no Brasil, a Sakata é praticamente uma continuação da Cooperativa Agrícola de Cotia, ainda que com dimensões e objetivos diferentes – enquanto uma estava voltada para os cooperados, a outra tem os olhos atentos aos acionistas na bolsa de Tóquio.

Dentre suas atividades, a cooperativa paulista controlava a Agroflora, uma empresa de sementes de hortaliças e flores com sede no município de Bragança Paulista (ver mapa abaixo). Recém-formado, Tajiri passou cerca de um ano na cooperativa até ser deslocado para a Agroflora, em 1975. "Naquele tempo, o Brasil era dependente de semente importada, de clima temperado", lembra Tajiri.

Aos poucos, essa situação começou a mudar. Nos anos 1980, em parceria com o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), a Agroflora deu aquela que talvez tenha sido sua principal tacada: desenvolveu a primeira alface adaptada ao clima tropical brasileiro. Foi a senha para dominar o mercado da folhosa, que hoje alcança mais de 50 mil hectares plantados no país. Naquele período, também foram lançados no mercado produtos como couve-flor adaptada ao Brasil.

Apesar das pesquisas promissoras, a Agroflora não resistiu ao baque da crise vivida pela agricultura – e pela economia nacional, em geral – nos anos 1980. Na década seguinte, a Cooperativa Agrícola de Cotia iria à falência. "Foi aí que a Sakata teve uma aproximação maior. O interesse da Sakata pela Agroflora era a genética tropical", afirma. Após dois anos de negociação, a aproximação resultou na venda da Agroflora para a Sakata em 1994. Tajiri permaneceu na presidência.

De lá para cá, a Sakata deu sequência ao trabalho pioneiro da Agroflora na genética de sementes de hortaliças, e hoje o Brasil representa 5% dos negócios da Sakata em todo o mundo. No ano fiscal encerrado em março, a múlti teve um faturamento de US$ 500 milhões. "Mas o Brasil ainda é muito pequeno para a companhia", reconhece o executivo.

Com o diferencial de desenvolver variedades no Brasil, a Sakata conseguiu a liderança em mercados cuja receita não chama tanto a atenção de gigantes da área de sementes como Monsanto e Syngenta. Conforme Tajiri, a empresa tem hoje mais de 60% de participação nos mercados de sementes alface, brócolis e pimentão. Juntos, as três culturas movimentam mais de R$ 60 milhões por ano no Brasil nesse mercado, segundo a Associação Brasileira do Comércio de Sementes e Mudas (ABCSEM).

No total, o mercado de sementes de hortaliças movimenta cerca de R$ 346,5 milhões por ano, conforme a entidade. Entre os produtos considerados, o tomate é o carro-chefe, com R$ 96,2 milhões em sementes. Mas essa não é uma cultura em que a Sakata possa comemorar, apesar da liderança no mercado de sementes de "sweet grape", tomate que vem ganhando espaço no mercado brasileiro.

Líder no mercado brasileiro de tomates durante 15 anos graças à tecnologia longa vida desenvolvida em parceria com uma empresa holandesa, a Sakata perdeu o bonde do cobiçado segmento em 2005. "Tivemos a hegemonia entre 1990 e 2005. Mas não conseguimos acompanhar e logicamente esse é o jogo do mercado", afirma Tajiri.

Por jogo de mercado, entenda-se a força de grandes empresas de sementes como Monsanto e Syngenta. Essas companhias não têm foco nas sementes das folhosas dominadas pela Sakata, mas têm atuação destacada no segmento de tomate, que hoje cobre uma área de mais de 55 mil hectares, conforme a ABCSEM e movimenta R$ 2 bilhões por ano em toda a cadeia produtiva – considerando todo setor de hortaliças, o número chega a R$ 15 bilhões por ano.

Em meados de 2005, a Sakata perdeu mercado depois que as concorrentes desenvolveram variedades de tomate resistentes ao germinivírus, doença que passou a atingir as lavouras do produto naquela época.

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Fonte: Valor | Por Luiz Henrique Mendes | De Bragança Paulista (SP)

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