Safra no Rio Grande do Sul pode fazer história

TARLIS SCHNEIDER/ESPECIAL EXPOINTER/JC

Paulus, Fioreze e Pavan (da esquerda para a direita) estão otimistas com os números

Paulus, Fioreze e Pavan (da esquerda para a direita) estão otimistas com os números

Após a quebra deste ano, os agricultores gaúchos vibram com a expectativa de alcançar números expressivos na próxima temporada, especialmente devido ao embalo do preço da soja, que deve estimular o aumento da área cultivada e da produção total. Segundo previsão divulgada ontem pela Emater/RS-Ascar na Expointer, este ano devem ser colhidas 24 milhões de toneladas de grãos, atrás apenas dos números de 2010/2011, quando foi registrado o melhor resultado da história, com 26 milhões de toneladas.
Para o secretário do Desenvolvimento Rural, Pesca e Cooperativismo, Ivar Pavan, depois da seca, é hora de os produtores darem lugar ao otimismo, devido à conjuntura favorável. “Temos três itens que interferem diretamente para uma safra maior ou menor, que são as chuvas, que devem aparecer, o preço dos produtos, que estão elevados, e a tecnologia presente no campo, que agora será incentivada”, avalia.
A análise preliminar da Emater-RS indica que haverá pouca variação em relação à área, crescendo apenas 2,55% no total semeado. Três das principais culturas (arroz, feijão e milho), devem apresentar retração, enquanto se espera que a soja mostre expansão de 6,22%, provocada pelo aumento dos preços e pela perspectiva de maior rentabilidade, cenário motivado pela quebra da safra norte-americana.
Muitas áreas de outras culturas cederam lugar à oleaginosa devido à perspectiva de que a valorização se mantenha nos próximos meses. Em termos absolutos, a soja vai ocupar 258 mil hectares a mais, sendo que são cerca de 150 mil hectares de áreas novas. “O milho concorre diretamente com a soja em área cultivada. Uma redução de área do milho quase sempre implica ampliação da extensão de cultivo da soja”, explica o diretor-técnico da Emater-RS, Gervásio Paulus. A área total cultivada no Estado deve atingir 6,52 milhões de hectares, evolução de 2,55% na comparação com a safra passada.
Em relação à produção, a safra pode apresentar crescimento em todas as principais culturas. O setor orizícola deve se manter praticamente estável, com variação de 0,02% (7,59 milhões de toneladas), enquanto a soja deve crescer 89,4% em produção, com colheita de 11,34 milhões de toneladas. No total, a estimativa é de que a produção gaúcha bata na casa de 24 milhões de toneladas, 2 milhões a menos do que os números históricos de 2010/2011. “Devemos gerar cerca de R$ 20 bilhões em matéria-prima, que, com valor agregado, deve continuar respondendo por grande parte do PIB gaúcho”, aponta Ivar Pavan.  Em relação ao trigo, a área cultivada em 2012 bate em 993 mil hectares, aumento de 6,5% em relação à última safra, com 2,54 milhões de toneladas, e uma redução de 12,9% em comparação a 2011. “O recuo não chega a assustar, representa apenas um desempenho normal, pois 2011 foi uma safra recordista”, afirma Paulus.
Conforme Flávio Varone, do Centro Estadual de Meteorologia, o otimismo dos produtores encontra amparo nas condições climáticas para os próximos meses. “Tudo indica a confirmação da presença do El Niño, então na primavera podemos ter um grande volume de chuvas, que deve ser acentuado no final da estação. O próximo verão provavelmente vai ocorrer dentro da normalidade”, aponta. Como os prognósticos de meteorologia são favoráveis, especialmente para a soja, a Emater-RS entende que as previsões são plenamente factíveis. Segundo o presidente da instituição, Lino De David, cerca de 35% da futura safra de soja já está negociada pelos preços atuais (cerca de R$ 70,00 a saca), o que pode estimular ainda mais a atividade dos produtores nos próximos meses, investindo em tecnologia para melhorar ainda mais os resultados.

Produtores ampliam áreas de plantio destinadas à soja

Maior responsável pela grande expectativa para a próxima safra, a soja deve apresentar evolução na área de cultivo de 6,22%, totalizando 4,4 milhões de hectares. O acréscimo será de 258 mil hectares, área conquistada por meio da migração de produtores em busca de maior rentabilidade – cerca de 100 mil hectares geralmente usados na cultura de milho e 150 mil hectares tradicionalmente ocupados pela pecuária e pelo arroz, em especial nas regiões Sul, Campanha e Centro-Oeste do Estado. 
As condições climáticas devem favorecer culturas como a de soja e a de milho, mas geram apreensão nos orizicultores. Para o secretário-adjunto da Agricultura, Pecuária e Agronegócio, Cláudio Fioreze, os agricultores estão aguardando para decidir pela migração para investir na lavoura. “A produção da soja pode até crescer devido às condições de plantio do arroz. Se não houver chuva em breve, mais 300 mil hectares geralmente usados para arroz podem migrar para o cultivo de soja”, avalia.
O presidente da Emater-RS, Lino De David, aponta certa preocupação com a migração das culturas para a produção de soja, devido à possível deterioração do solo. “No Sul, os solos são mais frágeis em comparação com os do planalto médio, por exemplo, e um cultivo intensivo pode causar erosão”, adverte. Segundo De David, a subtração de áreas de outras culturas é uma questão relativa, já que não há um aproveitamento total das regiões disponíveis para cultivo. “No caso do arroz, são 3 milhões de hectares aptos para o plantio, mas apenas 1 milhão é plantado a cada safra, já que há restrição de recursos hídricos”, esclarece.
Para o secretário Ivar Pavan, o governo estadual vem atuando no sentido de incentivar cada vez mais a diversificação de culturas, para que se alcance uma estabilidade maior nos negócios do campo. “Com investimento em poucas culturas, corremos riscos quando acontecem alterações bruscas no clima ou no mercado”, aconselha.

Fonte: Jornal do Comércio | Douglas Ceconello

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