Sacrifícios e frustração marcaram a década que antecedeu ao Real

Entre 1 de março de 1994 a 30 de junho de 1994, a URV preparou o brasileiro para a mudança que colocaria fim à penosa luta contra a inflação

Marina Schmidt

ANTONIO CARLOS MAFALDA/FOLHAPRESS/JC

Em 1986, os congelamentos do Plano Cruzado geraram euforia, mas acabaram em desabastecimento e ágio

Em 1986, os congelamentos do Plano Cruzado geraram euforia, mas acabaram em desabastecimento e ágio

Entre 1 de março de 1994 a 30 de junho de 1994, a URV preparou o brasileiro para a mudança que colocaria fim à penosa luta contra a inflação. Nesse curto espaço de tempo, a população teve que vencer a desconfiança adquirida na década anterior.

Passar de uma inflação de 47,43% para 6,84% em um mês parece uma condição impossível, mas foi exatamente o que aconteceu no Brasil entre os meses de junho e julho de 1994, durante a transição da Unidade Real de Valor (URV) para o real. A queda brusca não ocorreu num passe de mágica. O processo que levou o País da hiperinflação – que atingiu 2.477,15% em 1993 – à estabilização sacrificou rendimentos e colocou a população em estado de vigilância constante.

Até a instituição do Plano Real, o Brasil viveu 50 anos de inflação com dois dígitos, lembra a jornalista especialista em economia Miriam Leitão. “A inflação chegou a dois dígitos nos 1940 e durante o período inflacionário nunca saiu desse patamar, subiu e desceu até a chegada do Plano Real.” Nesse sobe e desce, um elemento ficou guardado na memória dos que viveram durante a década de 1980 e início da de 1990, o período de maior inflação do País. O barulho dos aparelhos que remarcavam preços nos mercados foi a marca de um momento de transições, muitas delas assustadoras.

De 1986 a 1993, foram quatro moedas diferentes, mas nenhuma conseguiu barrar a crise, que se projetava cada vez maior. O País chegou a 1994 com perspectivas de caos econômico. “A hiperinflação teve a fase mais aguda no primeiro semestre de 1994, quando a taxa mensal foi superior a 40%”, salienta o doutor em Teoria Econômica, Ronald Otto Hillbrecht, autor do livro Teoria Monetária (Ed. Atlas, 1999). “Estávamos beirando uma situação semelhante à crise econômica vivida pelos países europeus na década de 1920.”

O Plano Real foi o sucessor de quatro projetos anteriores que fracassaram: Cruzado, Bresser, Verão e Collor. Em fevereiro de 1986, o presidente José Sarney, tendo Dílson Funaro como ministro da Fazenda, instituiu o Plano Cruzado, que promoveu o congelamento de preços e salários, calculados pela média dos seis meses anteriores, acrescidos de um abono. Foi definido um gatilho salarial, acionado quando a inflação atingisse 20%.

Inflação anual (1984-2013)

O efeito imediato foi a elevação do poder de compra da população, que, com o congelamento, teve uma euforia de consumo. “O Plano Cruzado foi um teste do que estava errado. Houve muita mudança na estrutura lógica do plano por pressões políticas”, destaca Miriam Leitão.

O congelamento dos preços, que deveria ter durado pouco mais do que um trimestre, foi estendido com vistas à eleição daquele ano. A euforia de consumo levou ao desabastecimento, ao ágio e à volta da inflação. O plano fracassara. “Nos anos seguintes, o congelamento foi adotado pelos governos, mas essa é uma proposta que só funciona uma vez”, explica o doutor em Economia e professor da Ufrgs Marcelo Portugal. “Depois de passar pelo congelamento, as pessoas criam mecanismos para evitar efeitos que já conhecem e, com isso, elevam a inflação.

População precisou superar a desconfiança para se adaptar à URV

A professora estadual Lúcia Silveira enfrentou a difícil tarefa de manter uma empresa na ativa durante o Plano Collor. Responsável por uma agência de comunicação, Lucia tinha 25 anos na época. “Não gosto nem de lembrar”, declara. Além do congelamento dos preços e dos salários, o Plano Collor ficou conhecido pelo “confisco” – bloqueio de investimentos superiores a 50 mil cruzados novos por 18 meses. “Esse era um limite muito baixo. Eu não conseguia pagar os funcionários e nem as contas.”

Sem conseguir sacar o dinheiro que tinha no banco, Lúcia vendeu bens para pagar o que podia e trocou dólares que tinha guardado. Recorrer à moeda americana foi a estratégia usada pela empresária para enfrentar as sucessivas mudanças, inclusive durante a implantação do Plano Real. Afinal, a medida evitou, no início dos anos 1990, que ela sofresse perdas ainda maiores. “Eu não precisei me desfazer da empresa, mas conheci pessoas que perderam seus negócios. Teve gente que se suicidou de tanto pânico.”

Em quatro anos, de 1986 a 1990, foram quatro planos econômicos frustrados, sendo que o último deles, durante o governo de Fernando Collor, havia sido o mais severo. “O Plano Collor foi tão violento, machucou tantas pessoas, que a população desejava a inflação baixa, mas não queria viver outro susto como aquele”, recorda a jornalista Miriam Leitão. “Os economistas tiveram que encontrar uma nova fórmula, que foi a bimonetária. Como a lei brasileira proíbe que existam duas moedas na economia, então foi criada uma moeda virtual, que só existia como unidade de conta, mas não como meio circulante”, detalha sobre a instituição da Unidade Real de Valor (URV), em março de 1994.

A URV foi recebida com desconfiança por Lúcia. “Foi difícil entender. Na conversão, parecia que estávamos perdendo dinheiro.” Por cerca de dois meses, a empresária utilizou o dólar como parâmetro nas cobranças da empresa até se adaptar à URV. Vencer a desconfiança desenvolvida durante a conturbada década que antecedeu ao Real não foi fácil. Lúcia conta que o Movimento das Donas de Casa e Consumidores do Rio Grande do Sul, no qual ingressou em 1996, teve um papel importante de esclarecimento, nos momentos mais críticos e também com a chegada da atual moeda.

Com o implemento do Real, as orientações não perderam a importância. As líderes do movimento na época, Maria de Lourdes Coelho e Edy Maria Mussoi, entenderam a nova situação e indicavam que aquele era o melhor momento para poupar. “Foi uma mudança boa para o País, só que as pessoas ainda estavam calejadas. Até hoje, procuro sempre ter um dinheiro guardado. Não confio totalmente no sistema financeiro”, declara Lucia. A vigilância, provaram as donas de casa, é a melhor maneira de se proteger.

Fonte: Jornal do Comércio

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