RURAL – Rio Grande do Sul está apto a buscar mais mercados para a carne que produz

Certificação internacional de zona livre de febre aftosa sem vacinação, obtida nesta quinta-feira, abre novos caminhos para a proteína animal do Estado

Nereida Vergara

  • Ministra e governadores reuniram-se para acompanhar reconhecimento do novo status sanitário

    Ministra e governadores reuniram-se para acompanhar reconhecimento do novo status sanitário | Foto: Rodger Timm / Divulgação / CP

    A Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) reconheceu formalmente o Rio Grande do Sul, Paraná, Acre, Rondônia e partes do Amazonas e Mato Grosso como zonas livres de febre aftosa sem vacinação, ontem, na plenária virtual da 88ª Assembleia Geral da OIE, em Paris. A reunião foi acompanhada em Brasília pelo governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite; a secretária de Agricultura, Silvana Covatti; a ministra da Agricultura, Tereza Cristina; e governadores ou representantes dos estados e regiões que conseguiram o certificado, que, até agora, em território nacional, era exclusividade de Santa Catarina desde 2007.

    “O reconhecimento da OIE abre diversas possibilidades de alcance de novos mercados para a carne bovina e carne suína do Brasil, assim como para a ampliação dos tipos de produtos a serem exportados a mercados que já temos acesso”, comemorou Tereza Cristina. 
    Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), com as certificações confirmadas, mais de 40 milhões de cabeças de bovinos deixam de ser vacinados no Brasil, 20% do total do rebanho brasileiro. Isso gera uma economia de R$ 90 milhões para os produtores rurais, que não precisam mais adquirir 60 milhões de doses de vacina por ano.
    Hoje, conforme o ministério, existem 70 países que são potenciais mercados para a carne bovina e suína sem restrições sanitárias do Brasil. Entre eles estão o Japão, os Estados Unidos, o México e a União Europeia. Somente nos primeiros quatro meses de 2021, a Região Sul do Brasil exportou o equivalente a R$ 4,3 bilhões em carne suína, com crescimento de 27% sobre o mesmo período de 2020.
    A expectativa é de que, a partir de agora, a pecuária gaúcha conquiste novos mercados para a carne bovina, além de ampliar sua participação em mercados onde já está presente com a carne suína, para os quais poderá comercializar também os cortes com osso. O aumento estimado nas exportações, apenas considerando a suinocultura, é de R$ 1,2 bilhão por ano. 
    A conquista foi comemorada com pronunciamentos da ministra e governadores, transmitidos ao vivo, logo depois do anúncio da OIE. “Muito bom estar aqui neste momento e não perder o trem da história”, disse o governador gaúcho, Eduardo Leite, que elogiou o empenho dos produtores e entidades da pecuária para que o Rio Grande do Sul chegasse ao novo status. “Esse passo só foi possível porque houve muito esforço da equipe técnica, fortemente dedicada”, destacou. 
    A secretária da Agricultura, Silvana Covatti, previu que a exportação de carne do Rio Grande do Sul chegará a diversos novos mercados. “Os produtores ganham e os gaúchos ganham, pois isso vai gerar mais emprego e renda em nosso Estado”, avaliou.
    O presidente da Farsul, Gedeão Pereira, que também estava em Brasília, acumulando a condição de representante do presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, CNA, João Martins, entende que agora o Estado passa para uma situação de atenção redobrada. “É uma grande conquista, mas teremos de reforçar a vigilância, tanto do lado do produtor quanto da fiscalização oficial”, ressaltou. 
    COMEMORAÇÃO FOI ACOMPANHADA DE ALERTAS
    A reunião da OIE também foi acompanhada de Porto Alegre, em tempo real, na sede da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr) por representantes de entidades ligadas à agropecuária, ex-secretários, deputados e servidores da pasta. Assim como em Brasília, a homologação do status sanitário para o Rio Grande do Sul foi motivo de comemorações, comentários otimistas quanto às novas perspectivas de mercado e alertas para a necessidade de vigilância permanente para manter a aftosa longe dos campos gaúchos.
    “Construímos essa caminhada com transparência e com a participação de todos, das entidades que representam os produtores até os nossos servidores”, recordou o ex-secretário e atual deputado federal Covatti Filho. 
    Em reunião virtual, a Comissão de Agricultura da Assembleia Legislativa também comemorou a notícia. O presidente, Adolfo Brito, destacou a atuação de autoridades, parlamentares, entidades e produtores para a homologação conquistada pelo Estado. O deputado Ernani Polo, que era secretário da Agricultura quando o Rio Grande do Sul decidiu acelerar ações para buscar a certificação, lembrou dos esforços continuados da pasta nos últimos 20 anos e reiterou que a vigilância deve ser redobrada.
    Leonardo Lamachia, presidente da Federação Brasileira das Associações de Criadores de Animais de Raça (Febrac), afirmou que 27 de maio de 2021 entra para história como o dia mais importante da agropecuária gaúcha nas últimas três décadas. Advertiu, no entanto, que depois da comemoração, o Estado e a pecuária devem retomar o trabalho para “honrar com responsabilidade as oportunidades que irão se abrir para a produção de carne”.
    Para o adido agrícola do Brasil na União Europeia, Bernardo Todeschini, este é um “momento histórico para a agropecuária nacional, baseado em ciência e décadas de dedicação de milhares de pessoas, dirigido ao objetivo comum de progresso no cenário mundial de produção de carnes”.
    VIGILÂNCIA E INFORMAÇÃO SERÃO FUNDAMENTAIS
    O presidente do Fundesa e diretor-executivo do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos do Rio Grande do Sul, Rogério Kerber, entende que a certificação de zona livre de aftosa sem vacinação leva o Estado a um padrão mais alto como exportador. “A produção de proteína animal gaúcha ganha nova referência”, diz.
    Algumas associações de raças também celebraram a conquista. A Associação Brasileira de Angus destacou que a perspectiva é de abertura de novos mercados à carne brasileira, mas reiterou que a tarefa de zelar pela segurança dos plantéis e pelo potencial genético acumulado em décadas de melhoramento é missão que precisa ser compartilhada entre produtores e órgãos públicos. 
    Para o presidente da Associação dos Criadores de Gado Holandês do Rio Grande do Sul, Marcos Tang, o novo status é um marco de evolução da agropecuária gaúcha. “E é fundamental manter a vigilância”, reiterou.
    Também em tom de saudação à conquista, o Instituto Desenvolve Pecuária observou que a informação ao produtor será um insumo de vital importância nos novos tempos.
    A superintendente regional do Mapa, Helena Rugeri, afirma que, no campo técnico, “a certificação eleva o status de controle”.
    O presidente da Associação dos Fiscais Agropecuários do Rio Grande do Sul (Afagro), Pablo Fagundes Ataíde, acredita que o novo status sanitário é resultado do empenho de todos os funcionários da Seapdr. “Quem deseja se manter em patamar sanitário elevado tem de se manter vigilante, o que inclui recursos materiais e humanos”, complementa a delegada do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais no Rio Grande do Sul (Anffa/RS), Soraya Elias Marredo. 
    NOVA TAREFA É DIVULGAR STATUS AO MUNDO
    O secretário de Defesa Agropecuária do Ministério da Agricultura, José Guilherme Leal, disse que a pasta vai encaminhar os certificados das regiões brasileiras que passaram a ser zonas livres de aftosa sem vacinação aos países que têm restrições contra a importação de carne de áreas onde a imunização ainda ocorre. Depois do exame da documentação, os países interessados podem fazer auditorias nas plantas localizadas nas regiões certificadas. Leal também confirmou que o Brasil está formando um banco de antígenos, para ser utilizado no caso do surgimento de algum foco, e tem fabricantes de vacina, que podem socorrer o país se ocorrer eventual caso da doença. 

    Fonte : Correio do Povo

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