Rússia supera EUA em trigo, mas restringe as exportações

À beira de uma recessão, a Rússia decidiu no último mês adotar medidas de controle para reduzir a exportação de trigo com o objetivo de assegurar o abastecimento interno do cereal. O anúncio das medidas fez os preços futuros do produto subirem no mercado internacional, mas devem ter pouco efeito na oferta total, já que o país acaba de colher uma das maiores safras da história e vê sua participação crescer no fornecimento do cereal ao mundo.

Em poucos anos, a Rússia recuperou-se de quebras de safra significativas e, nesta safra, superou os Estados Unidos, passando a ocupar o terceiro lugar no ranking de produção do cereal, com 59 milhões de toneladas estimadas pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Os EUA estão produzindo 55,13 milhões de toneladas.

Em exportações, o país ainda não conseguiu superar os americanos, mas, apesar das recentes restrições às vendas externas, os embarques devem crescer 18% nesta temporada, para 22 milhões de toneladas, atrás do Canadá, em apenas 500 mil toneladas. A Rússia ainda não é o fiel da balança, mas tem um peso crescente na definição da oferta e, portanto, dos preços do trigo. Em dezembro, quando o país anunciou as medidas, os contratos do cereal de segunda posição na bolsa de Chicago subiram 2,76%, apesar da grande oferta.

O que acendeu o sinal amarelo para Moscou quanto à possibilidade de desabastecimento interno foi o tombo do rublo no segundo semestre de 2014. A crise cambial começou após as restrições econômicas de países do Ocidente, adotadas por causa do conflito do país com a Ucrânia. O recuo dos preços do petróleo aprofundou a queda da divisa russa, também pressionada pela alta do dólar.

Com o rublo mais barato, tornou-se mais lucrativo para os produtores vender ao exterior. Para amenizar o fluxo do cereal para fora do país, o governo decidiu que cada tonelada exportada que passar pelas ferrovias russas será taxada em 13,4% e, nos portos, será em 15% mais € 7,5, com um pagamento mínimo de € 35 a tonelada, a partir de 1º de fevereiro.

Um dos países que mais devem ser afetados pelas novas regras é o Egito. A Rússia é a terceira maior fornecedora do cereal ao país e garantiu o abastecimento de 765 mil toneladas do produto no segundo semestre de 2014. Embora o governo do Egito tenha assegurado que as medidas russas não representam risco, importadores do país acertaram, na última semana do ano, a compra de 120 mil toneladas do trigo russo a ser despachada no dia 21.

Apesar das restrições, a oferta interna russa ainda é recorde. Recentemente, o ministro da Agricultura, Nikolai Fyodorov, garantiu que, mesmo com as medidas, o país pode exportar "sem dor" 30 milhões de toneladas do grão, 8 milhões de toneladas a mais do que o USDA estimava que os russos iriam exportar nesta temporada.

Para alguns analistas, as restrições de vendas externas podem até prejudicar os produtores locais no médio a longo prazo. "Eles vão atirar no próprio pé. O que vão fazer com esse trigo?", questiona Alvaro Ancede, corretor do The Laifa Group, em Nova York. Segundo o analista, os países que dependem da oferta russa, principalmente do Oriente, não terão dificuldades em encontrar fornecedores, como Cazaquistão, Ucrânia e Uzbequistão.

Além da concorrência dos vizinhos, o trigo russo enfrenta a dificuldade de competir com a alta qualidade do cereal de EUA, Canadá, Austrália e Argentina. O cereal dos campos da Rússia é de tipo brando e tem 9% de proteína, abaixo do brasileiro, com 13,7% de proteína e mesmo assim considerado de baixa qualidade para alguns usos, como panificação.

Esse tipo é direcionado principalmente à ração animal, que tem demanda forte na suinocultura russa, segundo Marcelo de Baco, da De Baco Corretora, de Passo Fundo (RS). Com a retenção da oferta no mercado doméstico, os preços da ração podem cair, favorecendo a produção de carnes e diminuindo a pressão por sua importação, observa.

Para Ancede, o trigo russo também perde qualidade por causa da falta de processamento na colheita. Esse diferencial de qualidade leva os produtores a ofertar o cereal com altos descontos. "[O trigo vai] para alguns países africanos, que estão mais preocupados com preço", diz.

Fonte: Valor | Por Camila Souza Ramos

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