Responsabilidade pelo planeta é de todos, diz Borthagaray

MARCELO G. RIBEIRO/JC
''A mobilidade urbana é um dos grandes desafios das cidades contemporâneas'', diz.

”A mobilidade urbana é um dos grandes desafios das cidades contemporâneas”, diz.

O arquiteto argentino Andrés Borthagaray, que está participando da Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), considera que a responsabilidade pela situação do planeta é de todos, dos países ricos e emergentes, numa alusão aos conflitos existentes no que diz respeito ao meio ambiente e ao desenvolvimento com sustentabilidade. “A responsabilidade pelo planeta tem que ser global.”

Borthagaray esteve em Porto Alegre na semana passada, quando concedeu esta entrevista ao Jornal do Comércio. No sábado, participou da Rio+20, que começou na quarta-feira já com inúmeras críticas e divergências, especialmente no que se refere aos compromissos assumidos há 20 anos pelos países desenvolvidos com os em desenvolvimento e que não estão sendo cumpridos.

O argentino é um expertise em mobilidade nos grandes centros e dirige o Instituto de Projetos para a América Latina do Instituto Cidade em Movimento, organização sem fins lucrativos e que tem sedes em Buenos Aires, Paris e Shangai. O tema no qual Borthagaray é especialista ganha grande relevância no momento em que as metrópoles brasileiras, incluindo Porto Alegre, se preparam para receber a Copa do Mundo de 2014, e pelo fato de que a mobilidade nas grandes cidades tem impacto cada vez maior na vida dos cidadãos.

Jornal do Comércio – Corre-se o risco de haver pouca efetividade da Rio+20, apesar da mobilização social e do destaque que a conferência tem recebido da mídia?

Andrés Borthagaray – A Rio+20 gera expectativas, e há sempre o risco quanto ao que vai acontecer depois. Mas a agenda é um catalisador, as ações também são responsabilidade de cada um depois, cada organização internacional, cada cidade e cada país têm que adotar as suas medidas políticas. Também serve para ter uma perspectiva 20 anos depois do primeiro encontro, a Rio-92, pois o que se pensava nessa época era que daria para fazer muito.

JC – Passados 20 anos da primeira conferência, ainda existem muitas críticas. De que forma o cidadão pode influenciar?

Borthagaray – Os governos, de uma maneira ou de outra, têm mais presente a sociedade civil. Se eu tivesse que falar com a consciência não somente de agora, mas na história dos 50 anos, se não fosse a sociedade civil, muitos projetos que foram produtos de reivindicações nunca teriam alcançado seus objetivos. Quanto mais ativa for a sociedade civil, mais possibilidades teremos de assinar os recursos de investimentos para projetos que aperfeiçoem a qualidade da infraestrutura e do espaço público.

JC – O senhor é otimista quanto aos resultados da Rio+20?

Borthagaray – Sim, acho que não tem que criar expectativas maiores do que é possível, mas (o evento) é um catalisador. Mesmo se os compromissos do primeiro encontro do Rio não foram como se esperava na época, a agenda internacional mudou, então, acho que gera novos compromissos. Não significa que vai ter a Rio+20 e no dia seguinte vão mudar as atitudes de todos os governos.

JC – O senhor acredita que haverá uma Rio+40?

Borthagaray – Sim, acredito. Seria muito apocalítico não acreditar nessa possibilidade.

JC – As nações mais desenvolvidas têm grande responsabilidade pelos danos ambientais causados pelas emissões de gases, mas tem havido resistência em rever os padrões de produção.

Borthagaray – A responsabilidade pelo planeta tem que ser de todos, global e nada vai se solucionar se uns que já passaram por uma etapa tiverem mais condições do que os outros. É como uma família todos têm que mostrar o exemplo para promover condutas diferentes.

JC – Há uma crise na Europa. Quais as repercussões na América Latina, do ponto de vista da sustentabilidade?

Borthagaray – Hoje vivemos uma economia muito globalizada. Qualquer variação do ciclo econômico de uma região economicamente tão importante como a Europa, evidentemente, vai ter consequências em nossos países. Mas também é verdade que hoje os intercâmbios com a China são muito importantes. Depende também um pouco das estratégias locais, mas é difícil pensar que em um sentido ou noutro as evoluções não vão ter consequências importantes na região.

JC – Qual o novo modelo de empresas para o século XXI?

Borthagaray – Acho que temos uma nova forma de organização nas empresas, mesmo as mais industriais, a parte das pesquisas tem um valor muito importante, a imagem social é importante. Em geral, as empresas têm que fazer frente a um contexto de muita globalização.

JC – E qual seria o papel da sociedade civil nessas mudanças?

Borthagaray – Um papel importante, envolve controle dos governos e das empresas, das responsabilidades sociais, das informações, da mobilização por algumas causas que, em um momento ou em outro, têm mais importância. Está relacionado com as formas de articulação da sociedade, incluindo a evolução das formas tradicionais, como os partidos políticos.

JC – Envolveria modificações também nos padrões de consumo?

Borthagaray – Já temos modificações. Por exemplo, agora temos mais consciência dos problemas da saúde. Se olharmos as imagens do que acontecia há 40 anos, todo mundo fumava. Essas pautas de consumo foram mudando, os hábitos são mais saudáveis. Acho que houve uma evolução. O problema é para os que ascendem ao consumo, pois essa consciência e essa responsabilidade também deve existir para eles. Mais do que reduzir qualquer tipo de consumo, o tornando mais qualitativo e mais saudável, é fundamental a consciência, conhecer os efeitos na saúde pessoal, no ambiente coletivo, fazer os que  produzem os efeitos pagarem os custos. A questão da consciência e a questão econômica são muito importantes, dizem respeito a como se repartem as responsabilidades na sociedade, localmente e internacionalmente.

JC – Como as ações locais se colocam nesse contexto?

Borthagaray – Nesta etapa, é muito importante o compromisso dos governos locais. Por exemplo, a política energética até agora era uma questão de políticas nacionais ou estaduais. Nesta etapa, a responsabilidade das cidades vai ser muito importante globalmente nos distintos programas.

JC – Que alternativas as metrópoles têm encontrado, no campo da mobilidade urbana, para fazer frente ao desenvolvimento econômico e promover a sustentabilidade?

Borthagaray – A questão da mobilidade é um dos grandes desafios das cidades contemporâneas. Ela tomou não somente importância econômica, mas também uma importância política. O mais importante é abrir as alternativas. Um dos problemas é ter uma mentalidade fechada, se associar com uma única forma de solução, quanto mais diversas forem as soluções, mais elas se adaptam a cada situação em particular, mais é possível de se encontrarem soluções. É importante pensar a mobilidade como parte da cidade e não somente de forma isolada. Só vamos resolver a mobilidade como uma estratégia conjunta para as cidades.

JC – Dentro desse contexto, qual seria o futuro das cidades?

Borthagaray – As cidades, de uma certa maneira, são a forma de  organização dos assentamentos humanos que ganha mais eficiência do que as outras. Na América Latina, quase 80% da população é urbana. Mesmo os países asiáticos avançam também na urbanização. Falam que a cidade é a melhor, a mais eficiente, maneira de organização. Acho que é muito certo, mas não é infalível pensar que a cidade ganhou e que não temos mais problemas. Há desafios, contrastes sociais, problemas de meio ambiente e também há muitas ilegalidades. Então, estes são os grandes desafios, a relação entre cidade e não-cidade, a parte rural, são todos desafios. As cidades ainda têm que encontrar a sua melhor maneira de se organizar.

JC – Como o senhor avalia a vida nas cidades atualmente?

Borthagaray – A América Latina é a região mais urbanizada para o seu nível de desenvolvimento, mas também é a mais desigual. Então, as decisões na infraestrutura urbana são bastante determinantes para a qualidade de vida da população em geral e para a mobilidade em particular. Uma das linhas de pesquisa do nosso instituto é sobre as ruas, sobre como é a rua do século XXI, o que se aprende das lições do passado das grandes intervenções monumentais, das pequenas ruas de bairro, dos viadutos, que em uma época se pensava que eram uma grande solução, mas agora a rua é uma ideia mais compartilhada. Nesse modelo, desenvolvido a partir de nossas pesquisas, é que vemos mais possibilidades para o futuro. A outra linha é a que chamamos de cidade legível, que é a possibilidade de mudar as interfaces entre os sistemas de mobilidade e os cidadãos. Muitas vezes, pensamos somente nas infraestruturas maiores, mais caras, e não em questões de qualidade que podem de fato mudar a experiência cotidiana das pessoas que circulam nas cidades.

JC – E, nesse sentido, mobilidade é sinômimo de qualidade de vida.

Borthagaray – Em sociedades cada vez mais urbanizadas e comunicadas, a mobilidade adquire uma crescente importância. Os valores sociais que a sustentam se fazem cada vez mais críticos. Desse modo, os meios à disposição para o deslocamento das pessoas, bens e informação são um requisito imprescindível para se ter acesso à oferta urbana. Em nosso instituto, definimos a mobilidade como um direito genérico, um direito para poder ter acesso a outros direitos. A mobilidade é determinante para as condições de acesso ao lar, ao trabalho, à educação, à recreação, à cultura e às relações familiares. Consequentemente, a qualidade do tempo e do espaço do movimento se transforma em aspecto crítico da vida urbana, no qual o desenvolvimento de novas abordagens ganha um papel cada vez mais importante.

JC – Houve um crescimento desordenado das cidades, com excesso também de automóveis nas vias urbanas, e agora se buscam alternativas, como o uso da bicicleta.

Borthagaray – É um resgate do cidadão e da diversidade, uma diversidade ecológica e de modos de mobilidade é o que dá melhores resultados na cidade, a melhor capacidade de adaptação para cada tipo de problema. Estamos passando por uma revalorização da bicicleta, do pedestre, de ruas mais transitáveis, onde se possa caminhar. É um novo  conceito de organização das cidades. 

JC – Qual é a leitura que faz de Porto Alegre?

Borthagaray – É uma cidade muito interessante, com muito potencial e muita história, trouxe inovações nas formas de discussão que estão presentes na agenda internacional das cidades. Também tem um desenvolvimento econômico interessante na região, conheço um pouco da sua atividade econômica. A primeira reação é a de uma cidade com grande qualidade de vida e oportunidades econômicas, com seus contrastes, como é inevitável, mas também com muitas chances para o futuro.

Perfil

Andrés Borthagaray, 51 anos, natural de Buenos Aires, é arquiteto, especialista em mobilidade nos grandes centros, bem como cultura e design urbano. Atualmente, é diretor de projetos para a América Latina do Instituto pela Cidade em Movimento, organização internacional sem fins lucrativos, com sedes em Paris, Shangai e Buenos Aires. O instituto é dirigido por um Conselho Científico, com destacadas personalidades acadêmicas, profissionais, políticas e empresariais. O objetivo do instituto é contribuir para a pesquisa nas inovações da mobilidade urbana. Um dos temas do instituto é a mobilidade como fator de inclusão social, a concepção de rua que corresponde a cada época distinta. Borthagaray já atuou também no desenvolvimento de soluções para o transporte público de deficientes visuais em Paris e na implementação de trajetos escolares em Lima. Leciona na Universidade Nacional General Sarmiento, na Argentina. É autor do livro “Conquistar a Rua! Compartilhar sem Dividir”.

Fonte: Jornal do Comércio | Keli Lynn Boop e João Egydio Gamboa

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *