Relação de ONGs e empresas ganha novos contornos

Entre a Eco-92 e a Rio+20 muita coisa mudou nas empresas. E também na percepção da sociedade em relação a seu papel. Costumo dizer que existem empresas convencionais que olharam para seus processos de produção e mexeram em pontos importantes como consumo de água e de energia. Outras mais avançadas fizeram inovações tecnológicas. Hoje, algumas empresas já nascem com propostas totalmente inovadoras com investimentos em produtos verdes, diz o Virgílio Viana, superintendente geral da Fundação Amazônia Sustentável (FAS).

Na definição do Pnuma, a economia verde é aquela que resulta em melhoria do bem estar humano e da equidade social enquanto reduz riscos ambientais e escassez ecológica. Mas para que essa economia mais inclusiva realmente decole, as empresas precisam se tornar mais criativas e buscar negócios sustentáveis em outras partes do Brasil. É preciso que o setor empresarial saia da posição de conforto dos centros de São Paulo e olhe para o conjunto de oportunidades que estão na Amazônia. Se bons negócios não forem feitos na região, haverá espaço para atividades insustentáveis, alerta Viana. Em sua visão, faltam investimentos nas cadeias produtivas da floresta como o cacau, a borracha, pescado, entre outros.

Mas se por um lado as empresas se tornam protagonistas na solução de problemas, por outro, algumas ONGs saem da posição de confronto – assumida durante anos – e passam a ter um comportamento de parceiras na construção de novos caminhos e na transferência de conhecimentos para as empresas. Vivemos um momento mais interessante com as empresas. Nos últimos 15 anos, houve uma clara evolução na relação entre empresas e ONGs, diz André Guimarães, diretor-executivo da Conservação Internacional. As ONGs tinham o papel de criticar, apontar problemas e questões que precisavam ser trabalhadas. Essa posição foi fundamental. Mas hoje, empresas e ONGs buscam um objetivo mais comum, diz.

Entendemos que há um meio termo a ser preenchido, diz Ana Cristina Barros, representante nacional da The Nature Conservance (TNC). As parcerias têm sido eficientes para os objetivos da preservação.

Um exemplo emblemático de como as parcerias podem funcionar é a mobilização de governo, ONGs e produtores rurais no Estado do Pará com o objetivo de frear a degradação da Floresta Amazônica causada pela agropecuária. A articulação reverteu os altos índices de desmatamento. Em 2010, graças a mobilizações, o município de Paragominas, no Pará, saiu da lista suja do desmatamento do governo federal. O caso inspirou a criação da rede de municípios verdes, que replicou o modelo de combate ao desmatamento.

Ainda assim, para as ONGs, a pressão sobre as empresas continua importante para o avanço da sustentabilidade. Ter uma sociedade civil forte e atuante é fundamental se o país quiser ver mudanças, acredita Marcelo Furtado, diretor-executivo do Greenpeace no Brasil.

A Moratória da Soja, firmada pela primeira vez em 2006, nasceu a partir da pressão da sociedade civil, explica. Depois de denúncias de que a soja consumida na Europa viria de áreas de desmatamento ilegal na Amazônia, empresas declararam que deixariam de importar GRÃOS provenientes de áreas do desmatamento no Brasil. O acordo forçou os produtores a terem compromissos mais responsáveis com o meio ambiente. Juntos, ONGs, governo e setor empresarial passaram a monitorar por imagens de satélite a região e a tirar do mercado produtores que não respeitassem o ambiente. Hoje acredita-se que o cultivo da soja deixou de ser o grande responsável pelo desmatamento a Amazônia. A pressão do mercado ainda é o mecanismo mais importante para mobilizar as empresas, diz Furtado.

Sem pressão pesada, exposição de marca e riscos, as empresas não mudam de comportamento diz Leonardo Sakamoto, diretor da ONG Repórter Brasil. O Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo no Brasil, que hoje congrega 230 empresas, é outro exemplo de pressão bem-sucedida. O pacto levou setores como o da soja, têxtil e do combustível a olharem para suas cadeia de produção. Foi um trabalho de parceria entre ONGs, governo e empresas que implementou ferramentas para que o setor empresarial e a sociedade brasileira deixassem de comercializar produtos de fornecedores que usaram trabalho escravo. Ele dá resultado porque exclui do mercado empresas que utilizam o trabalho escravo, diz Sakamoto. As ONGs devem se abrir para o diálogo, mas não devemos ceder em relação às metas e à natureza de acordos.

Fonte: Valor | Giselle Paulino

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