Reestruturação impulsiona Quickfood na Argentina

Fernando Martinho/Globo Rural

Gustavo Kahl, executivo que lidera o processo de reestruturação da Quickfood

As caixas de papelão carregadas com recortes de carne bovina são abertas, uma a uma. O produto é moído e, em pouco tempo, transformado no hambúrguer da Paty, a marca mais consumida na Argentina. Embora essa seja uma cena bastante comum na fábrica da Quickfood em San Jorge, na Província de Santa Fé, os personagens mudaram – e agora ganham mais dinheiro.

Controlada pela Marfrig desde o início do ano, quando foi comprada da BRF, a Quickfood passa por um processo de reestruturação liderado pelo engenheiro industrial Gustavo Kahl, executivo com passagens por Cargill, JBS e Minerva. À frente das operações da Marfrig na Argentina desde janeiro, o argentino descendente de austríacos trouxe a Quickfood, que fatura US$ 300 milhões, de volta ao azul.

Entre as mudanças mais importantes está justamente a matéria-prima utilizada para a produção de hambúrguer. Kahl constatou que a Quickfood estava subaproveitando os cortes de carne do gado abatido em San Jorge – eram 620 por dia. Na prática, a BRF vendia a tradicional e valiosa carne argentina como produto processado. Sob a gestão da Marfrig, a decisão é exportar 100% da carne dos bovinos abatidos no frigorífico, para China e Europa.

Para fabricar o hambúrguer Paty, que tem participação superior a 50% no grande varejo argentino, a Marfrig deixará de usar a carne bovina produzida pela Quickfood. Desde fevereiro, a empresa está comprando o produto de terceiros na Argentina e de algumas unidades da Marfrig no Brasil. Nesta semana parte da carne que vai virar hambúrguer veio do abatedouro de Bataguassu (MS).

Conforme Kahl, 60% da matéria-prima do hambúrguer já vem de terceiros – metade desse volume oriundo das fábricas da controladora no Brasil. A intenção do executivo é que, até o fim do ano, esse processo de conversão já esteja concluído.

Para a Marfrig, a vantagem é dupla. "Agregamos valor lá e aqui", diz o executivo-chefe da empresa na América do Sul, Miguel Gularte. Os cortes do dianteiro bovino vendidos para a Quickfood rendem mais à companhia do que se fossem comercializados no mercado doméstico brasileiro ou no Egito, um destino comum para esses tipos de cortes.

Além disso, a Quickfood ganha ao exportar, beneficiando-se das mudanças que vêm alterando a pecuária argentina desde 2015, quando Mauricio Macri foi eleito presidente, retirou as impostos à exportação de carne bovina e liberou o câmbio.

A atividade, que passara por anos de depressão durante o governo de Cristina Kirchner, vem se recuperando, com o aumento do rebanho bovino e das exportações. O estoque de animais, que caíra de 57,8 milhões, em 2008, para 47,9 milhões em 2011, atingiu quase 54 milhões de cabeças no ano passado. Nesse embalo, as exportações de carne bovina devem representar 20% da produção do país neste ano, ante apenas 5% em 2014.

Para a Marfrig, o bom momento das exportações não deve se limitar à Quickfood. No frigorífico de Villa Mercedes (Província de San Luís), que já possuia antes de comprar a Quickfood, a companhia brasileira está ampliando a capacidade de armazenamento para ampliar abates de 750 bovinos por dia para 850.

Além do foco na exportação, a Marfrig reduziu a equipe administrativa em Buenos Aires e, na área industrial, o objetivo é elevar o rendimento de carne por carcaça.

Por Luiz Henrique Mendes | De San Jorge (Argentina)

Fonte : Valor

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