Recuperação substitui desmatamento

Luciana Whitaker/Valor / Luciana Whitaker/Valor
Walfredo Schindler, diretor superintendente da FBDS: "O Brasil ainda enfrenta sérios problemas de desperdício de água, de agrotóxicos e mau uso da terra"

A terra é um estoque natural com imenso potencial no Brasil, um país com 8,5 milhões de quilômetros quadrados com áreas enormes de solo fértil, florestas e água em abundância. O país dispõe de muitos recursos à espera de um aproveitamento sustentável capaz de potencializar os trunfos dessa riqueza.

Ao mesmo tempo em que o Brasil experimentou grandes avanços na agricultura nos últimos anos, o país registra também uma estagnação na pecuária, ainda derruba mais florestas do que recupera pastagens degradadas ao longo dos anos e enfrenta a possibilidade de retrocessos na legislação ambiental com reflexos no uso da terra.

"O Brasil é uma potência ambiental. Tem características únicas em seu conjunto, mas se olharmos cada um desses recursos naturais separadamente, o país é uma impotência porque não desenvolveu ainda uma forma inteligente de explorar riquezas como a terra", diz o economista Cláudio Frischtak, presidente da Inter.B, consultoria financeira, estratégica e econômica.

"A ideia da economia verde é a de promoção da inclusão social respeitando os limites dos ecossistemas, mas o Brasil ainda enfrenta sérios problemas de desperdício de água, de utilização de agrotóxicos e mau uso da terra", afirma Walfredo Schindler, diretor superintendente da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS).

Os 8,5 milhões de quilômetros quadrados do país – equivalentes a 851 milhões hectares – estão assim divididos: 20% com pastagens, mais ou menos 8% de área agrícola (50 milhões de hectares com culturas anuais e 17 milhões de hectares com culturas permanentes), 1% com florestas plantadas (eucalipto, carvão vegetal e outros), 4% com cidades, estradas e obras de infraestrutura, 42% com a Floresta Amazônica, 15% com Mata Atlântica, Savanas e Caatinga e cerca de 10% com outros biomas (Pantanal, Pampa e Semiárido).

Depois da Amazônia, a maior área é de pastagens. Metade delas está degradada, com baixíssima produtividade e, de acordo com os especialistas, poderia ser usada para uma finalidade mais nobre: a produção de alimentos e o plantio de florestas.

Estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) revela que, se metade dos 85 milhões de hectares de pastagens degradadas fosse usada de forma consorciada entre lavoura e pecuária ou no sistema integrado lavoura-pecuária-floresta, a produção de grãos no Brasil poderia ser triplicada.

"Não é preciso avançar mais nenhum hectare em mais nenhum bioma para garantir a ampliação da fronteira agrícola. Basta recuperar as pastagens degradadas. Não existe justificativa alguma para o desmatamento", diz Walfredo Schindler, da FBDS.

O uso do estoque natural terra poderia ser potencializado na escolha estratégica por uma economia verde com um aumento de produtividade na pecuária. O Brasil é o segundo maior produtor mundial de produtos agropecuários. O setor responde por US$ 75 bilhões por ano do saldo comercial brasileiro.

Mas enquanto a agricultura deu um salto, com um aumento de 154% na produção de grãos contra 25% de crescimento da área plantada, a pecuária brasileira trabalha abaixo de padrões mínimos de produtividade. A média é de uma cabeça de gado por hectare. As melhores práticas apontam para pelo menos duas cabeças por hectare, embora existam experiências sustentáveis com a produção de cinco a seis animais por hectare.

O Brasil ostenta ainda outro título negativo: é o país que mais usa agrotóxico, mais até do que os Estados Unidos, com reflexos sensíveis para a saúde do solo e a emissão de gases do efeito estufa.

O Brasil tem também a segunda maior área do mundo com transgênicos – aproximadamente 25 milhões de hectares. Mais: 69% de toda a água consumida no Brasil é destinada à irrigação das lavouras, embora a área irrigada seja muito pequena.

Apesar de todos os avanços e do zoneamento agrícola de visto climático criado pela Embrapa e pelo Ministério da Agricultura, já adotado em 24 Estados, ainda há plantio de culturas em épocas e locais inadequados.

"O Brasil poderia ter o mesmo rebanho na metade do espaço ou dobrar o tamanho do rebanho no espaço atual e avançar na agricultura de alta precisão e baixo carbono, evitando o desperdício de insumos como a água e economizando em insumos emissores de carbono como os defensivos agrícolas", afirma Claudio Frischtak, da Inter.B.

O uso afinado da terra depende também de investimentos em tecnologia e inovação. Um estudo da Inter.B Consultoria, apresentado no Fórum Nacional no fim do ano passado, revelou que os gastos de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) voltados à construção de uma economia verde são inferiores a 3% do total que foi despendido em pesquisa em 2010, o que a médio e longo prazo põem em risco a posição do país. "Se torna imperativo a construção de uma agenda de política de inovação voltada à proteção dos ecossistemas, ao uso inteligente dos recursos da biodiversidade, às energias renováveis e o reforço da agricultura de baixo carbono", diz Cláudio Frischtak, da Inter.B.

Outro entrave é o arcabouço jurídico. Há consenso de que o Código Florestal, que tem implicações no uso da terra, precisava ser renovado, mas a oportunidade e o desfecho são considerados ruins para o país. "A mensagem positiva foi a presidente Dilma Rousseff ter acabado com a anistia de quem derrubou florestas ao vetar partes do projeto aprovado no Congresso Nacional, mas há pontos ainda duvidosos, como a preservação da mata ciliar às margens dos rios", diz Walfredo Schindler, da FBDS.

Mas de acordo com Claudio Frischtak, da Inter.B, "o Brasil podia fazer bonito na Rio+20, mas o Código Florestal foi uma coisa inoportuna e vai prejudicar a imagem do país".

Fonte: Valor | Por Paulo Vasconcellos | Para o Valor, do Rio

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