Receitas no exterior blindam as ações de JBS, Marfrig e Minerva

Na contramão do que aconteceu com a maior parte das companhias listadas na BM&FBovespa, JBS, Marfrig e Minerva conseguiram se descolar do contexto de recessão econômica no país e aversão ao risco e encerraram 2015 com as ações em alta, cenário que pode se repetir no próximo ano dadas as boas perspectivas para as exportações de carne bovina. Entre as empresas do setor, a BRF foi a exceção. Suas ações registraram forte retração em meio ao acirramento da competição no mercado de alimentos processados no país.

Terceira maior produtora de carne bovina do país, a Minerva Foods teve a valorização mais expressiva entre os frigoríficos brasileiros. Em 2015, as ações da empresa subiram 34,3% na BM&FBovespa, num movimento de alta que foi acentuado nos últimos pregões do ano por uma espécie de “presente” de Natal saudita, com a venda de 20% da empresa à Saudi Agricultural and Livestock Investment (Salic), gestora de recursos fundada pelo Reino da Arábia Saudita para investir em agronegócios.

Favorecida pelos impactos da apreciação do dólar sobre as receitas das operações no exterior e nas exportações, a JBS voltou se destacar. Os papéis da empresa encerraram o ano passado com ganho de 11,4% na BM&FBovespa, a R$ 12,35.

Mas as ações da JBS poderiam ter registrado alta ainda maior. Em 11 de setembro, os papéis da JBS chegaram a atingir R$ 17,20, o que significaria uma valorização 55%. No entanto, as ações da empresa reduziram os ganhos desde meados de setembro.

Conforme a analista Julia Heimbeck, do banco Fator, isso ocorreu porque os “os investidores aumentaram um pouco a percepção de risco” devido ao fato de a empresa estar envolvida na CPI do BNDES. Uma fonte que acompanha a empresa de perto argumentou, porém, que a saída de investidores estrangeiros que investiam na BM&FBovespa também contribuiu para limitar a alta das ações.

Com a sua estrutura de capital reforçada pela venda da subsidiária Moy Park à rival JBS, a Marfrig teve um desempenho mais modesto, mas ainda assim positivo – avanço de 4,1% na bolsa paulista, a R$ 6,35. Para a analista do banco Fator, os papéis da Marfrig poderão ganhar fôlego neste ano, a depender do processo de redução de dívida prometido pela empresa. Com os recursos recebidos da venda da Moy Park, a Marfrig pretende reduzir sua dívida bruta em US$ 1,2 bilhão. Nesse contexto, o Fator recomenda a compra das ações da Marfrig, com preço-alvo de R$ 8,30 para o fim de 2016.

Dona das marcas Sadia e Perdigão, a BRF acabou sofrendo mais as agruras da economia brasileira e a perda de participação de mercado para a Seara, marca concorrente da JBS que, em geral, é mais barata do que a marca líder Sadia. Em 2015, as ações da BRF caíram 11,4%, desempenho mais próximo ao do Ibovespa, que teve queda de 13,3% no ano.

De maneira geral, a participação das vendas no Brasil ajuda a explicar o desempenho das quatro empresas de carnes na BM&FBovespa. Nesse quadro, a BRF surge como a mais exposta ao Brasil – e, portanto, à recessão econômica. No balanço referente ao terceiro trimestre, o último divulgado, a BRF informou que as vendas no Brasil responderam por cerca de 50% da receita líquida. Não à toa, as aquisições no exterior têm sido a principal estratégia para o avanço da companhia.

Em contrapartida, as outras três empresas estão menos expostas ao Brasil. Segunda maior companhia de alimentos do mundo e líder na produção global de proteína animal, a JBS obtém apenas 12% da receita com as vendas no Brasil, e essa fatia pode até mesmo diminuir no futuro, uma vez que a empresa já demonstrou a intenção de realizar mais aquisições na União Europeia.

Na Minerva, as exportações são o foco, e 70% do faturamento é obtido no exterior. A Marfrig, segunda maior produtora de carne bovina do país e com operações no Ásia e nos EUA, obtém no Brasil cerca de 20% da receita com as vendas de carne.

Para este ano, o quadro para os três principais exportadores de carne bovina do Brasil – JBS, Minerva e Marfrig – deve ser ainda melhor do que foi em 2015, quando a alta do dólar impulsionou a rentabilidade das empresas mesmo com um forte queda de 10% no volume exportado. Em 2016, a expectativa é que tanto a receita em dólar quanto o volume cresçam.

A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) estima que as vendas ao exterior este ano renderão US$ 7,5 bilhões, avanço de 25%. Já o volume deve crescer 21%, para 1,7 milhão de toneladas. “As exportações vão ser melhores porque há a China e a possibilidade dos EUA já no primeiro semestre”, afirmou a analista Catarina Pedrosa, do banco Haitong, citando a abertura do mercado de carne bovina in natura dos EUA e a China, que reabriu o mercado à carne do Brasil em 2015. Se a tendência positiva para as exportações do produto se confirmar, as ações dos frigoríficos poderão ganhar sustentação em 2016.

Para a BRF, que atua em carne de frango e suína, a expectativa é de um bom ano nas exportações, mas as margens podem continuar pressionadas pela alta do preços dos grãos usados na ração animal. Nesse contexto, alerta o analista César Castro Alves, consultoria da MB Agro, repassar preços no Brasil, medida que a BRF adiou de 2015 para o início deste ano, pode se revelar uma tarefa difícil devido ao momento mais crítico da economia brasileira.

Fonte: Valor | Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

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