Receita total das maiores do campo cresceu 5,8% em 2017

Silvia Zamboni/Valor

Evento de premiação das maiores e melhores do setor, segundo o 14º Anuário do Agronegócio: Cargill foi a grande campeã

Impulsionada pela produção recorde de grãos na safra 2017/18 e por preços firmes de commodities como açúcar, café e suco de laranja, o faturamento conjunto das 500 maiores empresas do agronegócio brasileiro aumentou 5,8% em termos nominais em relação a 2016 e alcançou o recorde de R$ 725,5 bilhões no ano passado. É o que aponta o 14º Anuário do Agronegócio, publicação da Editora Globo que chega às bancas nesta quarta-feira.

Além do ranking das 500 maiores companhias do setor, feito em parceria pelas equipes da revista "Globo Rural" e da Serasa Experian com base em resultados financeiros e em relatórios de responsabilidade social e ambiental, o tradicional anuário apresenta as "Melhores do Agronegócio" em 2017. E no ano passado a maior foi também a melhor. Em uma rara combinação, o braço brasileiro da multinacional americana Cargill foi o grande destaque da premiação realizada na noite de ontem em São Paulo.

Presente desde 1965 no Brasil, onde mantém ativos em 17 Estados e no Distrito Federal e conta com cerca de 10 mil funcionários, a Cargill é a décadas uma das maiores originadoras, processadoras e exportadoras de grãos em atividade no mercado local. Em 2017 liderou as exportações brasileiras de soja, carro-chefe do agronegócio no país, e obteve receita líquida total de R$ 34,2 bilhões, 6% a mais que em 2016, e encerrou o exercício com lucro líquido de R$ 532 milhões.

À "Globo Rural", ainda sem saber que a Cargill havia sido escolhida como "a melhor" do setor, Luiz Pretti, presidente da empresa no Brasil, realçou a importância de um bom planejamento para a conquista dos resultados observados. "Estamos vivenciando no Brasil um período crítico, mas a demanda por alimentos está crescendo. Não vamos ficar parados aguardando esse momento passar", afirmou o executivo à revista. Para não perder o bonde, lembrou Pretti, a Cargill investiu R$ 4,7 bilhões no mercado brasileiro nos últimos seis anos.

Boa parte desses aportes foi aplicada em logística, sobretudo para incrementar a infraestrutura necessária para facilitar o escoamento das exportações de soja e milho pelo chamado "Arco Norte". E está na logística uma das maiores preocupações atuais da múlti no mundo. Como informou o Valor em diversas oportunidades, a Cargill é uma das companhias que lideram as críticas ao tabelamento dos fretes rodoviários no país, que, para atender a uma demanda dos caminhoneiros – que fizeram ampla greve em maio – elevou custos e tirou parte da competitividade das rotas de escoamento pelo Norte.

Também por causa dessa "turbulência" nas estradas, Pretti garante que a múlti ainda aguarda a definição do modelo de construção da Ferrogrão, ferrovia entre Sinop, no norte de Mato Grosso, a Miritituba, no Pará, para confirmar se participará dos investimentos necessários, previstos em cerca de R$ 14 bilhões. Para alcançar o posto de maior e melhor do agronegócio em 2017, conforme o novo anuário, a Cargill liderou o ranking da indústria de soja e óleos. De quebra, a Cargill Nutrição Animal foi considerada a melhor no segmento de rações.

Conforme o anuário, a escolha das melhores empresas em cada área foi realizada com base em demonstrações contábeis enviadas à consultoria Serasa Experian e nos questionários da pesquisa.

Assim, ficaram no topo, além da Cargill, Louis Dreyfus Company (alimentos e bebidas), C.Vale (atacado e varejo), Nutriza (aves e suínos), Copersucar (bioenergia), Gavilon do Brasil (comércio exterior), Ihara (defensivos agrícolas), Screw (ferramentas e implementos), Yara Brasil (fertilizantes), Agroterenas Citrus (frutas, flores e hortaliças), 3corações (indústria do café), Minerva Foods (indústria da carne bovina), Bela Vista (laticínios), Moinhos Anaconda (massas e farinhas), SLC Agrícola (produção agropecuária), Fibria (reflorestamento, celulose e papel), Vetnil (saúde animal), Jotabasso (sementes), e Jacto (tratores e máquinas).

Nas categorias especiais, a "campeã em sustentabilidade" foi a Usina Coruripe, de Alagoas, que criou toda uma estrutura para otimizar o uso dos recursos naturais e a preservação do ambiente, e a "campeã entre as cooperativas foi a catarinense Aurora Alimentos, grupo que rivaliza com as gigantes BRF e Seara (controlada pela JBS) nos mercados doméstico e externo de carnes de frango e suína. Já a fluminense Café Favorito, que vem avançando no segmento de cafés de qualidade superior, foi a "campeã entre as pequenas e médias".

Continuar crescendo em meio às turbulências políticas e econômicas, como aconteceu em 2017, é o desafio das empresas de agronegócios que atuam no país neste e nos próximos anos. E para Sérgio lazzarini, professor titular de pesquisa e pós-graduação do Insper, o governo, qualquer que seja, tem responsabilidades para isso, por menores que sejam num setor em que diversas cadeias estão integradas globalmente, guiadas por preços formados no mercado externo.

Em entrevista à "Global Rural" que está chegando às bancas, ele defende que o governo brasileiro tenha uma participação menos ativa no que tange às políticas setoriais, mas mais inteligente. "Na área de pesquisa e desenvolvimento, mirando coisas que tenham ganhos sociais, funções de bem público, que são mais arriscadas. Pesquisas em sustentabilidade ambiental, por exemplo, que podem ter menos interesse do setor privado", afirma.

E, claro, em infraestrutura de transporte para facilitar o escoamento das produções, com estímulos a investimentos. "É preciso criar um ambiente regulatório estável, com fortalecimento de agências reguladoras, redução de intervenção, para que o capital privado venha e possa investir de uma forma mais segura", disse.

Por Fernando Lopes | De São Paulo

Fonte : Valor

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