Recall da BRF expõe falha e transparência

A detecção de um tipo da bactéria salmonela (Enteritidis) levou a BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, a anunciar um recall de lotes de carne de frango in natura produzidos entre outubro e novembro de 2018 no abatedouro da companhia em Dourados (MS).

Em comunicado enviado ontem à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a BRF informou que está fazendo uma campanha para recolher 164,7 toneladas de frango destinado ao mercado brasileiro e de 299,6 toneladas do produto para exportação. Após recolhidos, o destino do produto será decidido pelo Ministério da Agricultura e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Eventualmente, os produtos poderão ser termoprocessados para a comercialização.

Pouco usual na indústria frigorífica brasileira, o recall da BRF é um marco da reestruturação da área de qualidade da companhia, iniciada após a chegada de Pedro Parente à presidência do conselho de administração, em abril do ano passado. A empresa brasileira foi acusada, no passado, de ocultar do público problemas desse gênero.

O recall da BRF ocorre quase um ano após a deflagração da Operação Trapaça, investigação da Polícia Federal (PF) que apura, entre outras coisas, fraudes cometidas por ex-funcionários da BRF para burlar os testes de salmonela. Em reação às descobertas da Trapaça, a União Europeia proibiu a BRF de exportar para os países do bloco.

Em meio aos esforços para recuperar a credibilidade, bastante arranhada após a Operação Trapaça, a BRF negocia, como o Valor já informou, um acordo de leniência com o Ministério Público Federal (MPF) e com a Controladoria-Geral da União (CGU). Se o acordo prosperar, a BRF será a primeira companhia do país a reconhecer crimes contra a saúde.

Do ponto de vista da saúde humana, a presença de salmonela não é necessariamente um problema. Se a carne de frango for cozida de forma correta pelos consumidores, a bactéria morre. Ocorre que, por conta do maior risco de infecções intestinais, a legislação não permite a venda de frango in natura com a presença de dois tipos de salmonela: Enteritidis e Tifimurium.

No caso dos lotes de frango do recall da BRF, a presença de Enteritidis foi detectada após testes de laboratório da própria empresa. Na prática, produtos com a presença desses dois tipos de salmonela só poderiam ser comercializados se tivessem sido cozidos na própria fábrica, e vendidos como alimentos processados (salsicha e nuggets, por exemplo).

Em comunicado, a BRF informou ter tomado as medidas necessárias para que o episódio seja pontual. "[A BRF] mantém a produção da planta de Dourados sob um processo rigoroso de manutenção e liberação dos produtos para assegurar que a ocorrência foi pontual e não se repetirá".

Ao Valor, um executivo com décadas de experiência em frigoríficos do Brasil e do exterior elogiou a transparência da BRF ao anunciar o recolhimento voluntário dos lotes de frango, em acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Em contrapartida, argumentou que o problema em Dourados "mostra que a operação da BRF ainda está com falhas e gera prejuízos". Dados preliminares dariam conta de despesas de R$ 2 milhões para fazer o recall, disse uma fonte. Na B3, as ações da BRF caíram 3,22% ontem, a maior baixa do Ibovespa.

A despeito das críticas, o recolhimento de carnes devido à presença de salmonela não é incomum em grandes mercados, como nos Estados Unidos. No ano passado, a JBS teve de recolher 5,5 mil toneladas de carne moída produzida em Tolleson, no Estado do Arizona. A presença da bactéria foi associada à ocorrência de infecções intestinais em diversos Estados, segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), agência vinculada ao Departamento de Saúde dos EUA.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor

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