Área gaúcha de soja cresce 18% em cinco anos

Impulsionados pelos preços do grão no País, produtores têm aumentado o plantio em áreas novas, especialmente na Metade Sul

MARCELO BELEDELI/ESPECIAL/JC
Lavouras da oleaginosa devem ocupar 4,86 milhões de hectares no Rio Grande do Sul na safra 2013/2014

Lavouras da oleaginosa devem ocupar 4,86 milhões de hectares no Rio Grande do Sul na safra 2013/2014

A cada safra que passa, a soja ganha mais força nos campos gaúchos. Impulsionada principalmente a partir de 2012, com preços que chegaram a patamares históricos, o grão muda o cenário nas lavouras do Rio Grande do Sul.
Prova disto é o crescimento exponencial da área plantada no Estado. Nas últimas cinco safras, o aumento registrado de área, conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), é de 18,3% (veja o quadro). Dos 3,97 milhões de hectares registrados no período 2009/2010, a cultura deve ocupar, nesta safra, de acordo com o último levantamento do órgão do governo federal, 4,86 milhões de hectares. Com isso, da área total de grãos prevista em 8,33 milhões de hectares, a soja é responsável por 58,3% da ocupação total de terras no Estado.
Este avanço se dá especialmente na Metade Sul gaúcha em regiões como a Fronteira-Oeste e a Campanha. Áreas de arroz e de pecuária foram substituídas pela oleaginosa principalmente nos últimos dois anos, após a explosão dos preços causada pela quebra de safra tanto na América do Sul quanto nos Estados Unidos – nos dois casos devido às estiagens severas. Na década de 1980, produtores já se aventuraram com o plantio do grão na região, mas não tiveram sucesso pela falta de tecnologias na época. “Tivemos um crescimento muito grande naquela época, mas depois com a queda nos preços da soja no final da década o pessoal abandonou o cultivo. Além disso, as produtividades eram mais baixas do que na região Norte”, lembra o secretário de Agricultura do município de Camaquã, José Carlos Berta.
Segundo o secretário, os benefícios são transferidos para a economia da cidade, que aumenta as vendas também no comércio e nos serviços por causa da maior rentabilidade dos produtores rurais com o advento do consórcio da soja com o arroz. Há quatro anos, de acordo com Berta, a área de soja em Camaquã era de cerca de três mil hectares e nesta safra chega a 20 mil hectares enquanto as lavouras de arroz ocupam 32 mil hectares. “É uma renda a mais na propriedade. A soja veio para somar, e está trazendo benefícios”, afirma.
O próprio secretário, que também é agricultor, apostou na cultura e destinou 300 hectares para a oleaginosa nesta safra. Para o presidente da Associação dos Produtores de Soja do Rio Grande do Sul (Aprosoja-RS), Décio Lopes Teixeira, ainda existem espaços que o grão pode ocupar no Estado, e que este crescimento também tem o apoio das tecnologias adotadas pelos agricultores. “Há a participação forte da pesquisa e tecnologia para realizar esta expansão. Enquanto houver sustentação do mercado, acreditamos que a soja vai expandir pelo Rio Grande do Sul”, acredita Teixeira.
Conforme o agrônomo da Emater, Alencar Rugeri, a onda foi estimulada especificamente pelo fator preço no mercado. No entanto, no caso das áreas de arroz, considera que este será um processo corriqueiro e que está consolidado. “Nesta área de várzea é uma situação irreversível. O produtor de arroz está aprendendo a plantar soja, e quando tivermos situações diferentes de preço, a soja deve permanecer como rotação de cultura para o arroz”, analisa o especialista.
Mas o técnico da Emater alerta que a implantação de lavouras na Metade Sul deve ser feita com cautela, visto que o déficit hídrico é maior na região nos meses cruciais para a cultura. É preciso fazer a avaliação do solo da propriedade e respeitar o zoneamento agrícola preconizado pelo Ministério da Agricultura. Rugeri ressalta que a pesquisa e a assistência técnica estão trabalhando para atender a necessidade deste produtor. “Temos sempre a tecnologia avançando, com a criação de variedades mais resistentes”, complementa.

Consórcio com outras atividades é estimulado

Produtores e instituições de pesquisa e extensão rural buscam aproveitar a forte chegada da soja na Metade Sul do Estado para aliar a cultura com a produção agropecuária. No caso do arroz, a estimativa do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) é que o avanço de área no período 2013/2014 é de 9% sobre a safra passada, passando de 272 mil hectares para 296,4 mil hectares.
O coordenador da Divisão de Assistência Técnica e Extensão Rural do Irga, Eraldo Jobim, diz que os produtores estão animados com o consórcio da soja com o arroz. Ele destaca que a rotação beneficia a lavoura arrozeira no combate a plantas daninhas. “A soja reorganiza as condições do solo e também ajuda no combate aos inços resistentes na lavoura.”
Na pecuária, a preocupação é a de preservar espaços para a produção, sem perder produtividade. Empurrados para áreas secundárias, os criadores procuram utilizar as áreas mais privilegiadas para o grão. O Sistema Farsul promove frequentemente fóruns com o objetivo de debater o rumo da criação de animais.
Para o chefe da divisão técnica do Senar-RS, João Augusto Telles, a saída é os criadores trabalharem com o conceito de pecuária de precisão, aumentando produtividade e reduzindo tempo de abate. A soja, diz Telles, é uma aliada para preparar a área de pastagem no inverno.

Preço da saca deve se manter aquecido no mercado nacional

Considerado fator principal para o aumento da área nos últimos anos, os preços estão com a tendência de seguir firmes no mercado brasileiro. Ao menos no primeiro semestre, as cotações se manterão estáveis, observam os analistas. Na semana que passou, conforme acompanhamento da Emater, o preço médio da saca de 60 quilos chegou a R$ 62,62.
O operador da LHR Investimentos, Mário Sérgio Sperotto, avalia que, apesar da alta da produção, os estoques reduzidos e a demanda devem sustentar os valores do grão no mercado. Sobre a comercialização, ele afirma que os produtores seguram as vendas, esperando preços mais altos, como na safra anterior. “Com a produção e os níveis de preços atuais, os preços estão remunerando muito bem o produtor”, diz.

Fonte: Jornal do Comércio | Nestor Tipa Júnior

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