Queda do consumo mundial de suco de laranja se acentua

Após dar sinais, em 2013, de que poderia interromper a espiral baixista deflagrada no início da década passada, o consumo global de suco de laranja voltou a dar sinais de fraqueza em 2014, particularmente em mercados "maduros" como o americano e o europeu. Mas, mesmo assim, as exportações do Brasil, que domina mais de 80% do comércio global da commodity, têm sido muito pouco afetadas, graças à redução da oferta dos Estados Unidos, cujo parque citrícola continua sob intenso ataque da doença conhecida como greening.

Conforme estudo recém-concluído pelo Centro de Pesquisas e Projetos em Marketing e Estratégia (Markestrat), com sede em Ribeirão Preto (SP), o consumo nos 40 principais mercados da bebida, que respondem por quase 100% do volume total, somou 2,042 milhões de toneladas equivalentes ao produto concentrado e congelado (FCOJ) no ano passado, 3,2% menos que no anterior – cuja estimativa foi revisada para 2,108 milhões de toneladas, 0,7% menos que em 2012. A conta inicial para 2013 indicava 2,145 milhões de toneladas, 1,1% mais que em 2012 e primeira alta desde 2009.

"As notícias não são boas. Simplesmente 62 mil toneladas sumiram do consumo mundial", afirma análise assinada por Marcos Fava Neves, professor titular no campus de Ribeirão Preto da FEA/USP e conselheiro do Markestrat, e Vinicius Gustavo Trombin, pesquisador sênior do centro de pesquisas. Não fosse um problema estrutural, determinado pela proliferação de bebidas concorrentes mais baratas nas gôndolas, talvez o alarme fosse menor. Mas, em relação ao consumo registrado em 2004, por exemplo, o volume do ano passado significou uma queda de 15,3% que dificilmente será revertida na próxima década.

Maiores consumidores da bebida, os EUA voltaram a mostrar que serão um dos principais obstáculos para qualquer reversão. O consumo no país caiu 6% em 2014, para 688 mil toneladas, e passou a acumular uma redução de 33% em dez anos – mesmo percentual verificado na década na Alemanha, onde o consumo recuou 4% no ano passado em relação ao anterior, para 153 mil toneladas. Em terceiro lugar nesse ranking, a França amargou baixa de 2% na comparação entre 2014 e 2013, para 147 mil, ao passo que no Reino Unido, que ocupa a quinta colocação, o recuo anual foi de 7%, para 115 mil.

A boa notícia voltou a ser a China, onde, apesar da desaceleração econômica, o consumo aumentou mais 4% no ano passado, para 141 mil toneladas – o que garante ao país o quarto posto entre os mercados mais importantes do mundo -, e o incremento acumulado desde 2004 chegou a 189%.

Mas, como esse avanço é incapaz de compensar o encolhimento dos mercados maduros, a Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR) – que reúne Citrosuco, Cutrale e Louis Dreyfus – segue a tentar estimular a reação da demanda em mercados maduros e o aumento do consumo no Brasil, que é baixo (58 mil toneladas no ano passado), também em razão de uma arraigada "cultura do espremedor".

Mas a mão que tira é a mesma que dá, e o mercado para as grandes indústrias exportadoras segue positiva graças também aos EUA. Com a queda da oferta naquele país, em 2014 os embarques brasileiros de suco de laranja ao mercado americano alcançou 215 mil toneladas, ante 150 mil em 2004. "Isso significa que, enquanto a queda na oferta da Flórida [principal Estado produtor de laranja e suco dos EUA] for mais acentuada do que a grave queda do consumo, os efeitos da retração global serão atenuados. Mas a situação é muito grave", afirma Ibiapaba Netto, diretor-executivo da CitrusBR.

Conforme dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex/Mdic) compilados pela entidade, de janeiro a maio os embarques brasileiros totais de suco de laranja atingiram 444,4 mil toneladas equivalentes ao FCOJ, 18,4% mais que em igual intervalo de 2014. A receita das vendas cresceu 9,2%, para US$ 742 milhões. O incremento menor da receita é um reflexo da queda dos preços internacionais, que têm reagido com mais força à queda do consumo do que à retração da oferta americana.

Fonte : Valor

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