Quebra na produção neozelandesa pode beneficiar a indústria brasileira de lácteos

Dificuldade de recuperar créditos tributários e falta de repasse de alta nos custos debilitaram as empresas em 2012

Vagner Silva

vagner.silva@zerohora.com.br

A seca que prejudicou o principal exportador mundial de lácteos, a Nova Zelândia, pode se transformar em uma oportunidade de recuperação para o Brasil, onde indústrias e produtores enfrentam dificuldades. O primeiro reflexo da quebra neozelandesa aparece nos preços do leite em pó negociado no mercado internacional: a tonelada saltou de US$ 3,5 mil para US$ 5 mil no último mês.

Esse preço encarece, por exemplo, os lácteos de países como Uruguai e Argentina, que têm grande presença no mercado brasileiro, beneficiando a procura pelo produto nacional. O cenário é descrito pelo secretário executivo do Sindicato das Indústrias de Laticínios do Estado (Sindilat), Darlan Palharini, como alentador.

— Com essa alta no mercado internacional, a tendência é um reposicionamento dos preços no mercado interno. É uma boa notícia, já que a indústria não estava conseguindo repassar a alta para o varejo — afirma.

Segundo o representante do Sindilat, o atual cenário no mercado deve permanecer pelo menos até o final do ano.

— Uma seca como a registrada na Nova Zelândia prejudica a alimentação dos animais e o nascimento de bezerros. A repercussão se estende quase por um ano completo — avalia.

A oportunidade criada com esse cenário surge em um momento oportuno. As dificuldades enfrentadas para recuperar créditos tributários e a falta de repasse da alta nos custos debilitaram as empresas em 2012.

Criada em 2010 a partir da fusão das empresas Bom Gosto e LeitBom, a LBR Lácteos Brasil é um exemplo dessa situação. A empresa está em processo de recuperação judicial desde fevereiro. No início do mês, anunciou o encerramento das atividades de duas unidades no Estado: Gaurama, no Norte, o que resultou na demissão de aproximadamente 60 funcionários, e Fazenda Vila Nova, com outros 84 funcionários desligados.

A perspectiva positiva da indústria deve se estender também para os cerca de 122 mil produtores de leite do Estado. A safra recorde de grãos, que permite acesso facilitado aos insumos usados na ração dos animais, combinada com o aumento na demanda por lácteos e a entressafra de produção, formam, segundo o assessor de política agrícola da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado (Fetag), Airton Hochscheid, um quadro animador. Com a queda nos custos, o valor pago pelo litro de leite, que no último ano ficou em média entre R$ 0,80 e R$ 0,85, é considerado satisfatório pelo especialista. A busca agora é por uma melhor remuneração para quem produz com mais qualidade.

— Um pequeno número de produtores no Estado produz grande quantidade de leite. Esses conseguem receber pelo litro um valor acima de R$ 0,80. Temos também um número grande que produz pouco e tem recebido cerca de R$ 0,70. A indústria está priorizando ainda a quantidade e nós defendemos a remuneração por qualidade. O que defendemos é uma diferença menor entre o maior e o menor preço pago — afirma Hochscheid.

Recuperação de créditos travada

Passando longe do mercado consumidor, beneficiado pela desoneração de impostos como PIS e Cofins feita pelo governo federal ainda em 2005 em produtos como leite UHT e leite em pó, as empresas com foco na produção de leite enfrentam problemas com a recuperação dos créditos tributários gerados por essa isenção, forma encontrada de ressarcir a indústria. A morosidade do poder público em transformar esse crédito em dinheiro está chegando a um ponto crítico, segundo o setor. De acordo com o secretário executivo do Sindicato das Indústrias de Laticínios do Estado (Sindilat), Darlan Palharini, empresas que atuam em mais de uma atividade no segmento alimentício conseguem com o crédito gerado abater o imposto devido nas outras cadeias, amenizando assim o impacto nas contas. Medida que não é possível no caso de empresas que atuam unicamente na produção leiteira.

Para o consumidor
Evolução dos preços do leite longa vida nos últimos quatro meses:
Dezembro/2012: R$ 1,86
Janeiro/2013: R$ 1,89
Fevereiro/2013: R$ 1,87
Março/2013: R$ 1,92

Fonte: Associação Gaúcha de Supermercados

Fonte: Zero Hora

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