Qualidade superior

Com um café naturalmente doce, o Brasil ganha espaço do colombiano nos blends sofisticados

por Luciana Franco

Editora Globo

Na fazenda Passeio, lote de café especial descansa antes de ir para o secador

No segundo semestre de 2011, os preços do café alcançaram R$ 550 por saca, a maior cotação desde a implantação do real no Brasil, 18 anos atrás. Os bons preços surpreenderam os produtores, que vinham há anos trabalhando margens de lucro bastante justas, e deram novo fôlego à cafeicultura brasileira. O aumento da remuneração foi convertido em tratos culturais e favoreceram a produtividade das lavouras do Brasil, que, na safra 2012/2013, vai colher cerca de 50 milhões de sacas de 60 quilos. Mas, como acontece nos anos de safra gorda – o café é uma cultura bianual e rende um ano de produção alta seguido por outro de baixa –, os preços cederam neste ano, em resposta à entrada de um volume maior de café no mercado. Ainda assim, as cotações são remuneradoras e ajudam a preservar uma característica adquirida pelo café brasileiro nos últimos anos: a qualidade, que já rende ao produto do país um valor agregado de cerca de US$ 70 por saca em relação aos preços praticados no mercado internacional.
É exatamente o mesmo valor a mais que a Colômbia, reconhecida por produzir um café de alta qualidade, costumava receber na década de 1990, quando produzia 11 milhões de sacas por ano, investia pesado em marketing e vendia sua safra de maneira abundante no mercado internacional. Com a crise que tomou conta do país nos últimos anos, a safra colombiana despencou para 7 milhões de toneladas. “E quem mais ganhou com o marketing feito pela Colômbia no mercado internacional foi o produtor brasileiro, pois ele é quem está ganhando dinheiro no mercado externo”, diz Lucio Dias, superintendente da Cooperativa dos Cafeicultores de Guaxupé (Cooxupé). A opinião de Dias é compartilhada pelos produtores de café. “Enquanto a Colômbia investia em marketing, nós investíamos na qualidade de nossa produção. Hoje, o café brasileiro é muito bem avaliado no mercado internacional”, diz Adolfo Henrique Vieira Ferreira,cafeicultor de Monte Belo (MG).

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Na avaliação de Guilherme Braga, presidente do Conselho Nacional dos Exportadores de Café (Cecafé), o produtor brasileiro conquistou confiança e qualidade nos últimos anos. “O Brasil passou a ocupar o espaço que antes era da Colômbia e 24% do café exportado pelo país atualmente é de produto diferenciado (certificado ou especial)”, diz Braga. Para o presidente do Cecafé, o aumento das exportações brasileiras de café diferenciado reflete a agilidade do produtor em se adequar às demandas do mercado.
“O agricultor brasileiro é o único que se ajusta rapidamente ao consumidor e, quando a demanda por cafés de qualidade começou a crescer, ele respondeu de imediato”, diz. Em 2011, o Brasil exportou 33 milhões de sacas de café, das quais 8 milhões foram de arábica diferenciado, que, em média, foram negociadas por US$ 340 a saca, US$ 70 a mais em comparação ao valor do café classificado como “commodity”. “Há cinco anos, o Brasil só exportavacommodity e a tendência é que a participação do produto diferenciado continue crescendo nas vendas brasileiras”, avalia Braga.

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Adolfo Henrique Vieira produz 10.000 sacas de café especial por ano, 50% de sua safra

No mercado internacional, a qualidade do café colombiano ainda é bastante alardeada, mas essa situação está mudando. As diferenças entre o café brasileiro e o colombiano começam a favorecer o produto nacional. O café produzido na Colômbia é ácido. O do Brasil é naturalmente doce. As indústrias que fazem produtos mais sofisticados estão usando de 30% a 70% de café arábica brasileiro em seu blend.
Outra diferença é que a Colômbia tem uma condição peculiar de produção. A temperatura média no país é de 18 °C e não oscila tanto quanto no Brasil, onde pode variar até 15 °C num dia. Por esse motivo, os produtores são obrigados a fazer uma colheita seletiva só dos frutos maduros, porque o cafezal produz o ano inteiro e é possível encontrar numa só arvore um fruto vermelho, um verde e uma flor. A colheita seletiva eleva a qualidade do café, pois exclui os grãos verdes e ardidos.
No Brasil, a colheita seletiva não é obrigatória, mas alguns produtores já adotam o sistema como técnica para elevar a qualidade da safra. É o caso, por exemplo, de Francisco Isidro Dias Pereira, que administra uma das cinco fazendas de sua família, proprietária do Grupo Sertão, que soma área de cultivo de 650 hectares, em Carmo de Minas (MG). “Estamos numa região montanhosa onde a colheita é manual. Essa característica nos permitiu começar, há cinco anos, a colher somente os grãos maduros”, diz Pereira. Com técnicas como essa, o Grupo Sertão, que estima colher uma safra de 22.000 sacas de café neste ano, consegue produzir 60% de grãos de alta qualidade, que comercializa para as mais importantes torrefadoras do mundo. Outras técnicas que podem melhorar a qualidade – como usar terreiros suspensos, mexer bem o café no terreiro para evitar umidade, investir em descascador de cereja – já são bastante difundidas no Brasil e ajudam a melhorar a bebida.

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Foi por isso que, quando a produção da Colômbia começou a cair e os grandes clientes daquele país vieram experimentar o café do Brasil, eles tornaram-se compradores constantes. “Quem coloca o café brasileiro no blend não tira mais”, comenta Dias. A Starbucks chegou em 2009. Hoje, ela é o maior cliente da Cooxupé, com compras anuais de 1 milhão de sacas. A torrefadora também adquire parte da safra do Grupo Sertão. A Nestlé, maior torrefadora do mundo, consome 14 milhões de sacas por ano para produzir o café Nespresso e também usa de 30% a 70% do café brasileiro em seu blend, assim como a Illy, que criou um prêmio para os melhores fornecedores do país.
Adolfo Ferreira é fornecedor da Illy desde 1999. Proprietário da Fazenda Passeio, com cerca de 1 milhão de pés de café, ele estima colher 8.000 sacas neste ano e espera fazer entre 50% e 60% de cafés especiais. “Investimos nas variedades bourbon, topázio, rubi e icatu, que são cafés finos, mas não tão produtivos quanto os convencionais”, diz Ferreira. Ainda assim, a produtividade da Fazenda Passeio é de 40 sacas por hectare, superior à média nacional, de 30 sacas por hectare. Ferreira também já fez a colheita de maneira seletiva, mas hoje só a realiza sob encomenda. “Antes eu fazia dois meses de seletiva, mas os custos com a mão de obra cresceram muito”, diz.

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Francisco Dias Pereira realiza, há mais de cinco anos, a colheita seletiva nas fazendas do Grupo Sertão

Um microlote de 40 sacas colhido por Ferreira de maneira seletiva foi comercializado em maio por US$ 270 dólares a saca, um ágio de US$ 70 sobre o café convencional. Na avaliação do produtor, a grande vantagem de se produzir café especial é que ele é bem remunerado quando o produtor mais precisa, ou seja, quando os preços da commodity estão ruins. “Quando o preço da commodity está bom, a diferença para o especial é pequena, mas quem precisa de vantagem sobre um café cotado a R$ 550 a saca?”
Com a expectativa de uma safra boa neste ano, os preços do café voltaram a ceder e seguem cotados a R$ 350 a saca, mas o inverno chuvoso pode comprometer tanto o volume quanto a qualidade da safra 2012/2013, situação que pode gerar novas altas. A Cooxupé estima colher 5,5 milhões de sacas no período, 85% das quais serão comercializadas fora do Brasil.

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Na Cooxupé, os bags de 1.200 quilos começam a substituir as sacas de 60 quilos

A boa aceitação no mercado internacional pode ser vista na 24ª edição da SCAA Annual Exposition – maior feira de café do mundo –, que rendeu aos cafeicultores brasileiros negócios em volume recorde este ano: da ordem de US$ 3 milhões. “A cada ano nossa participação é maior”, diz Luiz Paulo Dias Pereira Filho, presidente da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA). Os contratos futuros para a temporada 2012/2013, que começa em julho, foram de US$ 7 milhões. “Surgiram compradores dos Estados Unidos, Japão, Austrália, Canadá e do próprio Brasil”, diz.

Fonte: Globo Rural

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