Qualidade da água desafia as empresas

Aline Massuca/Valor / Aline Massuca/Valor

Cláudio Abduche: troca de hidrômetros, caça diária a vazamentos e programa de combate às ligações clandestinas

Pelas contas do Banco Mundial, o Brasil é o país com o maior estoque de água em fontes renováveis (a dos rios e do subsolo) em todo o mundo: em tese, dispomos de 5,4 trilhões de m3, num ranking em que a Rússia fica no segundo lugar (4,3 trilhões) e o Canadá em terceiro (2,85). A falta de uniformidade na distribuição dessas fontes, contudo, contribui para que os habitantes de Porto Velho rezem pela estiagem, ao mesmo tempo em que os de São Paulo torcem pela chuva.

Mesmo em pontos onde a ameaça está distante, as concessionárias do serviço de tratamento e distribuição de água continuam investindo em tecnologias que reduzem as perdas na distribuição, para economizar e preservar os níveis das fontes. Por causa dos "gatos" e do rompimento de canos e adutoras, no entanto, é impossível reduzi-las a zero, explica o engenheiro Cláudio Abduche, presidente da Águas de Niterói e de sua controladora, a Águas do Brasil: "Quando assumimos a operação de Niterói, em 1999, perdíamos 45% do que era distribuído", lembra. Hoje, a perda está em 16%, graças à construção de um centro de controle e monitoramento, troca de redes antigas, substituição periódica de hidrômetros, caça diária a vazamentos e um programa de combate às ligações clandestinas: "Encontramos condomínios, restaurantes e até shoppings com ligações clandestinas", diz Abduche.

Em Campo Grande, a concessionária Águas Guariroba administra seus 3.700 km de rede de distribuição com um sistema israelense, o TaKaDu, que recebe informações de todos os pontos importantes: "Temos sensores espalhados pela rede, medindo pressão, pH, cloro, flúor, tudo", explica o presidente da empresa, José João Fonseca.

Campo Grande tem uma situação privilegiada, diz Fonseca, porque os rios da região têm águas de razoável qualidade (o número de indústrias é pequeno, porque ali predominam agricultura e pecuária) e a cidade está sobre o aquífero Guarani, com água abundante a 700 m de profundidade. São Paulo está em situação bem pior, com suas fontes locais poluídas, obrigando o município a captar água até a 80 km de distância. Em geral, a qualidade da água piorou em todos os mananciais, observa Renato Ramos, líder técnico divisão water & process solutions da Dow para a América Latina: "Hoje, encontram-se até poluentes ‘emergentes’ – moléculas de hormônios, antibióticos e de outras substâncias que antes não havia", explica.

Por causa dessa queda de qualidade, um dos processos hoje utilizados na purificação da água é a ultrafiltração, que remove até 99,9% dos contaminantes, segundo Ramos. "Ele começou a ser utilizado em 1993, depois que a estação de tratamento convencional de água de Milwaukee foi contaminada por um protozoário que fez adoecer 400 mil dos 1,6 milhão de habitantes da cidade, uma epidemia que causou 104 mortes", explica. Daí em diante, diz ele, as instalações de ultrafiltração começaram a ser cada vez mais utilizadas, seus preços foram caindo e hoje elas são atraentes para as novas estações de tratamento. "São estações menores, com menos química, menos resíduos", diz Ramos.

É a mesma tecnologia aplicada pela Dow em Serra Leoa, México e Turquia, por exemplo.

Clovis Sarmento, diretor de alianças estratégicas da GE Water no Brasil, observa que os processos de ‘potabilização’ baseados na tecnologia de ‘fibra oca’ desenvolvidos pela empresa produzem água com padrão de qualidade em geral superior à determinada pelas normas sanitárias: "É uma tecnologia recente mas já em uso na Europa e na América do Norte, que remove não só microorganismos como também muitos produtos químicos, com a vantagem de exigir menos espaço e consumir menos água para manutenção do que uma estação de tratamento convencional", explica.

Em São Paulo, a Sabesp tem investido em pesquisa e desenvolvimento para desenvolver soluções necessárias em suas operações: em 2010, criou uma Superintendência de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação, conta o superintendente de inovação, Américo Sampaio. "As exigências ambientais para as empresas de saneamento são cada vez mais rigorosas, e para cumpri-las é fundamental contar com tecnologias que permitam, por exemplo, reduzir as emissões de poluentes e tratar o esgoto gerando efluentes mais limpos", afirma. A empresa tem obtido progressos especialmente nos processos de tratamento de esgotos, reciclando resíduos como adubo e recuperando biogás para uso em veículos, relata ele.

Em Araruama (RJ), a Águas de Juturnaíba apostou num sistema de tratamento de esgotos sem química para devolver águas à lagoa de Araruama: na terceira etapa de tratamento, a água alaga áreas onde há plantas cujas raízes auxiliam a finalização do tratamento, diz o engenheiro Carlos Gontijo, superintendente da empresa: "Depois de sete dias nessa área, a água vai para um brejo natural, onde fica mais cinco dias e depois disso é finalmente liberada para a lagoa".

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Fonte: Valor | Por Paulo Brito | Para o Valor, de São Paulo

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