Pêssego importado ganha espaço em suco e compota

Ricardo Duarte/RBS/Folhapress / Ricardo Duarte/RBS/Folhapress
Produção de pêssego no Rio Grande do Sul: preferência das indústrias pela fruta importada travou a tendência de aumento da oferta nacional, para mesa

A expectativa de que o Brasil se tornaria autossuficiente na produção de pêssegos não se concretizou. Nos últimos anos, a área plantada com a fruta destinada às indústrias – que serve para sucos e compotas – recuou à medida que os equivalentes importados ganharam espaço no mercado nacional. O saldo comercial só não foi negativo porque o pêssego para mesa, preferido por ser mais suculento, continua a jogar a favor como fiel da balança.

Principal Estado produtor do país, o Rio Grande do Sul está com a área plantada com pêssego de mesa estacionada desde 2009 e com recuo significativo na fruta destinada à indústria. Dados do Estado mostram que enquanto o primeiro abrange 5 mil hectares de plantação, o segundo tem hoje 6,7 mil hectares – eram 8,2 mil hectares em 2008 e 35 mil na década de 80.

"Nesse ritmo, em três anos vai virar", diz Enio Todeschini, agrônomo da Emater RS, referindo-se à reversão de área para o pêssego de mesa. O Estado produz no total 120 mil toneladas por ano, mais da metade do volume nacional.

Argentina, Chile, Espanha e Grécia são os responsáveis pelo desinteresse recente dos produtores rurais em investir em pêssegos no país, apesar dos esforços da Embrapa para o desenvolvimento de novas variedades. Juntos, esses países enviaram ao Brasil 12.980 mil toneladas de pêssegos em 2012, entre lotes in natura e para indústria. Pode parecer pouco, mas essas importações cresceram três vezes na última década: em 2001, eram só 3 mil toneladas de pêssegos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Frutas (Ibraf).

A concorrência se dá em qualidade, volume e preços. Argentina e Chile contam com clima ideal: inverno definido e de poucas chuvas, o que reduz a incidência de fungos e a necessidade de pesticidas. Isso leva a uma diminuição de custos que compensa o frete até o Brasil.

Segundo especialistas, o peso das importações é sentido de forma mais forte entre os produtores da fruta para processamento, que tem como polo a região de Pelotas. "As variedades vizinhas são melhores porque o caroço do pêssego é menor e a polpa carnuda, o que faz render mais, além do fato de ele ser mais alaranjado", afirma um representante da indústria de sucos que não quis ter o nome divulgado. "A gente só usa o pêssego brasileiro para fazer mistura no suco quando está sobrando fruta no mercado", diz.

Além disso, a indústria de suco compra mais polpa no exterior porque consegue lotes maiores e padronizados, diz Antonio Conte, assessor técnico nacional de fruticultura da Emater/RS. "Aqui cada produtor tem um padrão. Eles [a indústria] não vão comprar de 16 produtores de Pelotas. Vão buscar quantidade e qualidade". Por ter vocação para a fruta, a produção dos países vizinhos é significativamente maior, diz Conte. Só na Argentina são 80 mil hectares plantados com pêssego.

Para os produtores da variedade de mesa, a chegada dos pêssegos de Europa e Mercosul servem de desestímulo a novos investimentos, mas não a ponto de desistir do negócio, como vem ocorrendo com os seus pares de Pelotas. O que "salva", dizem os produtores, é o fato de a variedade importada ser colhida antes da maturação para que aguente chegar ao mercado brasileiro sem apodrecer. "Ela tem o visual lindo e o gosto ruim de quem foi colhida verde", afirma Conte.

Em São Paulo, segundo maior produtor do país, área e volumes têm se mantido estáveis, mas sem indicação de expansão. "Os investimentos em tamanho e qualidade da fruta elevaram o preço do quilo a R$ 2 na porteira, mas não sobe mais por causa da Europa", afirma Timo Van de Laar, produtor e sócio-diretor da consultoria Holantec. Segundo ele, a fruta concorre com a da Espanha, que é colhida até setembro e chega ao Brasil em outubro, quando o pêssego paulista está na gôndola.

Apesar da porosidade e do gosto ruim atribuído aos importados, eles preenchem a entressafra brasileira, garantindo oferta de pêssegos praticamente o ano todo.

Neste ano, no entanto, a chance de encontrar importados nos supermercados cresceu. É que a safra atual terminou esse ano 20 dias antes devido à falta de frio até setembro, o que acordou as plantas mais cedo da hibernação. Com isso, a floração e a colheita também foram antecipadas. "O pêssego gaúcho, que é o que chega a todo o país, só ficou na gôndola até o começo de janeiro", diz Todeschini.

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Fonte: Valor | Por Bettina Barros | De São Paulo

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