Produtores do Sul do país fazem pressão contra entrada de maçãs da China no país

Agricultores, sindicatos de produtores, prefeitos e secretários estaduais de Agricultura da região Sul do país fizeram nesta semana em Brasília uma "romaria" para pedir ao governo brasileiro que não libere a importação de maçã da China. Mesmo que em volumes restritos, o Brasil já importa a fruta de países como França, Chile e Argentina.

O receio da cadeia produtiva é que a quantidade aumente muito caso a fruta chinesa comece a ser comercializada no Brasil e reduza a competitividade da maçã produzida no Brasil, o 12º maior produtor global. Além disso, os representante do segmento afirmam temer que uma eventual abertura para a China facilite a entrada de doenças exóticas ou pragas como a Cydia pomonella, erradicada em solo brasileiro desde o ano passado.

A reação do segmento, liderada principalmente por produtores de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, que respondem por 95% da colheita nacional, vem na esteira de informações de bastidores que dão conta que Pequim vem exigindo que o Brasil libere a entrada de maçã, pera e laranja chinesas como contrapartida para concretizar acordos comerciais firmados em maio passado com o Itamaraty.

A China lidera a produção global da fruta, com 40 milhões de toneladas por ano, ou 50% do total. Entidades como a Associação Brasileira dos Produtores de Maçã (ABPM) argumentam que há mais de três décadas o Brasil era um grande importador da fruta, mas que hoje compra no exterior apenas 9,4% do que consome. Atualmente, a produção brasileira gira em torno de 1,2 milhão de toneladas por ano, segundo o IBGE.

A ministra da Agricultura, Kátia Abreu, nega em conversas reservadas com empresários do ramo que esteja analisando qualquer pedido dos chineses para que o Brasil abra seu mercado para as frutas citadas. Assim que voltar da Rússia, onde está em missão bilateral, a ministra será procurada pela bancada ruralista para tratar o assunto.

Em recente audiência pública recente na Câmara dos Deputados, o diretor do Departamento de Sanidade Vegetal do ministério, Luís Eduardo Rangel, tentou acalmar o segmento produtivo garantindo que, se eventualmente a abertura se concretizar, será mantido o esforço para evitar a entrada de pragas no país.

"A China tem pragas que não temos no Brasil, mas sabemos que uma abertura de mercado não envolve apenas pragas (…) Mas queria deixar os senhores tranquilos de que hoje a maçã não está em pauta", disse Rangel. Segundo ele, também cabe ao ministério avaliar outras questões relacionadas à importação de maçãs chinesas, como uma possível prática de dumping, "antes de determinar, do ponto de vista político, uma eventual abertura de mercado".

"Sabemos de várias consultas entre importadores brasileiros e exportadores da China e esses primeiros contatos dão conta de que a maçã chinesa chegaria ao Brasil a um preço de cerca de R$ 30 a caixa de 20 quilos. O preço praticado no nosso mercado doméstico é de R$ 48, em média, a caixa de 18 quilos", afirmou ao Valor o presidente da Associação Gaúcha de Produtores de Maçã, José Maria Reckziegel.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) também se posicionou contra a possível importação: "É um risco que o setor corre, levando-se em conta os empregos e a renda que gera. Peço uma atenção especial ao Ministério para que adote medida urgente", disse o assessor técnico da CNA, Eduardo Brandão Costa.

Por Cristiano Zaia | De Brasília

Fonte : Valor

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