Produtores de etanol garantem que não faltará matéria-prima

Fonte: Eduardo Magossi – O Estado de S.Paulo

Para executivos, entrada da indústria química no setor vai mudar a relação atual de compra e venda do etanol

O atual cenário de oferta limitada de cana-de-açúcar não deve impedir o crescimento do volume de etanol destinado às alcoolquímicas, segundo representantes do setor sucroalcooleiro. Essas empresas usam etanol como matéria-prima alternativa aos derivados de petróleo para produzir polietileno e resinas plásticas.

Entre as safras 2010/11 e a safra 2011/12, o volume de etanol destinado a fins não carburantes subiu de 2,104 bilhões de litros para 2,445 bilhões de litros, segundo dados da Datagro Consultoria. Esse etanol é destinado a alimentação, farmacêuticos, perfumaria e químicos. "Praticamente toda a expansão registrada no último ano nessa categoria foi para etanol destinado ao setor químico, e esse volume continuará crescendo", afirma Plínio Nastari, presidente da Datagro.

Os motivos para apostar neste crescimento são vários. Para Nastari, se os preços da gasolina continuarem congelados, o etanol hidratado perderá competitividade no mercado e a produção brasileira de anidro crescerá. "Como o anidro é usado na alcoolquímica, poderá haver uma migração para este mercado, mesmo porque neste setor não há o teto do preço interno da gasolina, mas do preço internacional do petróleo, que também é volátil", disse. O consultor lembra também que a menor oferta de matérias-primas para essa indústria, como nafta e gás natural, fará com que o etanol ganhe evidência no médio prazo.

Segundo o presidente da ETH Bioenergia, José Carlos Grubisich, a indústria química tem cultura de fazer contratos de longo prazo, o que também deve ser um fator positivo para a expansão desse mercado. As distribuidoras de combustível compram o etanol no curtíssimo prazo e não formam estoques nem realizam aquisições antecipadas. "O setor petroquímico, que agora começa a usar o etanol, já trabalha com a realização de um fluxo de entrega de matéria-prima durante todo o ano e precisa de contratos de longo prazo", disse.

Mudanças. Para Grubisich, a entrada da indústria química na demanda por etanol mudará o relacionamento de compra e venda. A ETH já fornece etanol para a Braskem, que produz plástico verde com etanol. Na atual safra, a ETH deverá vender 150 milhões de litros para a Braskem, menos de 10% da produção de etanol esperada para o período. A ETH e a Braskem são do grupo Odebrecht.

Outro fornecedor de etanol para a Braskem é a Raízen, joint venture criada entre a Cosan e a Shell. Segundo o presidente da Cosan, Marcos Lutz, o crescimento desse mercado está atrelado ao cenário do petróleo no longo prazo. "Com o petróleo cada vez mais escasso e difícil de ser obtido, ele ficará mais caro, tornando o etanol uma alternativa competitiva em termos de preço, além de ser um produto limpo e renovável", disse. Lutz ressalta também que, ao contrário do mercado de etanol combustível, que originalmente foi impulsionado por governos, o mercado de plástico verde é uma demanda do consumidor. "São empresas como a Coca-Cola que querem estar vinculadas a um produto sustentável por demanda dos consumidores", disse.

O presidente da Cosan estima, contudo, que com o crescimento da oferta de cana-de-açúcar esperado para os próximos anos haverá etanol disponível tanto para o mercado de combustíveis como para a alcoolquímica. "Este mercado crescerá com a oferta de cana", disse. Ele estima que as alcoolquímicas usem hoje 500 milhões de litros de etanol por ano. Com os novos projetos, esse volume deve beirar os 3 bilhões de litros nos próximos anos, quando a oferta de cana já terá se normalizado.

O presidente do Grupo São Martinho, Fábio Venturelli, ressalta que a indústria química terá de mudar sua forma de negociação de compra se quiser obter etanol. O executivo explica que, apesar de trabalhar com contratos de longo prazo, a indústria química não costuma formar o preço na bolsa de futuros. Ela trabalha com descontos sobre a cotação. Para Venturelli, o mecanismo do preço deveria estar vinculado ao preço de bolsa para que as químicas não se apropriem do valor da cadeia. "É preciso repensar a forma de realizar os contratos, principalmente quando o comprador que se posicionar melhor vai levar o produto."

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Futuro

3 bilhões de litros de etanol deve ser o volume anual consumido pelas alcoolquímicas no futuro. Hoje, a indústria usa 500 milhões

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