Produtor rural não é o responsável pela alta dos preços dos alimentos, diz CNA

Superintendente técnico da entidade, Bruno Lucchi explica que a maioria das atividades agropecuária teve aumento no custo de produção nos últimos meses

08 de setembro de 2020 às 17h44

Por Canal Rural

O superintendente técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Bruno Lucchi, esclarece os principais pontos relacionados ao comportamento dos preços de alguns alimentos em 2020. Segundo ele, a alta observada nos produtos agropecuários não pode ser atribuída ao produtor rural. “Podemos afirmar que a maioria das atividades agropecuárias recuperou os preços dos seus produtos. No entanto, esses aumentos têm sido acompanhados pela alta no custo de produção, o que demonstra que o produtor não está tirando vantagem sobre os outros elos da cadeia”.

Lucchi destaca o compromisso do setor agropecuário em garantir a oferta de comida para a população durante a pandemia. Segundo ele, é preciso entender a complexidade que envolve um ciclo de produção, que pode ir de meses ou durar até anos. “Isso é de extrema importância para entendermos o comportamento dos preços dos produtos agropecuários e os fundamentos da relação entre oferta e demanda. Vejamos o exemplo da carne bovina: a oferta de animais diminuiu bastante por conta do desestímulo à produção no passado. De 2015 a 2019, a arroba valorizou 5,9%, enquanto a inflação geral subiu 20,9% e a média do custo de produção de recria e engorda de animais no País subiu 32%, e para a cria esta elevação passou dos 50%”, disse.

Segundo ele, com menor margem de lucro, boa parte dos produtores rurais decidiu pelo abate de fêmeas, tanto jovens quanto matrizes, para financiar o caixa da atividade, reduzindo naturalmente a disponibilidade de bezerros, o que consequentemente impacta na oferta de carne aos consumidores. “Neste ano, a redução de oferta, bem como o maior intervalo nas escalas de abate, forçou a valorização no preço da arroba que, diferente das projeções iniciais, atingiu R$ 230 em agosto, alta de 48% em um ano. Mas, por outro lado, tivemos aumento dos custos de produção. O preço do bezerro pelo indicador Cepea/Esalq/USP subiu 60,5% de agosto de 2019 para o mês passado. O milho subiu 55% no mesmo período. E mesmo com melhores estímulos de preço ao produtor, a estimativa da produção de carne do Brasil para este ano é 5% menor”, completou.

Com todas essas dinâmicas que envolvem a composição dos preços, Bruno Lucchi é taxativo em afirmar que o agro não tem responsabilidade sobre isso. “Podemos afirmar que a maioria das atividades agropecuárias recuperou os preços dos seus produtos. No entanto, esses aumentos têm sido acompanhados pela alta no custo de produção, o que demonstra que o produtor não está tirando vantagem sobre os outros elos da cadeia. Muitos produtores têm trabalhado com margens negativas, mas não pararam de trabalhar, mesmo na pandemia. O compromisso dele neste tempo todo foi garantir o abastecimento da população. O setor agropecuário chamou para si a responsabilidade de garantir a oferta de alimentos. Nenhum dos rumores de desabastecimento se confirmou. As propriedades adotaram medidas de segurança sanitária para não interromper o processo produtivo, mesmo com aumentos significativos nos custos de produção tanto na produção primária quanto na agroindústria”, disse.

Segundo ele, a relação entre oferta e demanda pode impactar o mercado e provocar a alta dos preços dos alimentos. “Tivemos também uma sazonalidade negativa para vários produtos. Os preços no mercado internacional também podem influenciar as cotações domésticas. No caso do arroz, por exemplo, a demanda se apresentou elevada durante os meses de março e abril em função da pandemia. Historicamente, esses deveriam ser os piores meses de preço em função da safra. No entanto, houve quebra na produção de importantes países produtores, como Índia e Tailândia, o que resultou na ampliação acentuada do preço no mercado internacional. No acumulado até agosto, o preço médio do arroz no cenário internacional se elevou em 29%”.

Um cenário formado por algo completamente imprevisível, como uma pandemia, na avaliação do superintendente técnico da CNA. “Medidas como a retirada do imposto de importação para alguns alimentos pode afetar a oferta de alimentos no médio e no longo prazo. Seria uma intervenção artificial que nesse momento pode gerar desestímulo à intensificação do processo produtivo, comprometendo o aumento da produção tanto dos produtos agrícolas quanto da pecuária. É uma visão imediatista que pode comprometer seriamente a produção de alimentos”, avaliou.

Para ele, cada alimento deve ser avaliado isoladamente, mesmo que os custos de produção tenham subido de maneira generalizada. “Acreditamos que os preços irão se adequar assim que os efeitos sazonais de produção passarem, bem como a regularização de oferta, via novos estímulos a produção. Na pecuária bovina, por exemplo, a oferta de animais para abate provavelmente aumentará a partir do último trimestre do ano em função da melhoria do maior processo de intensificação e devido a melhoria das condições das pastagens. A produção de leite, uma das mais afetadas pela pandemia, deve ter a produção acelerada em setembro em algumas regiões também em função do início das chuvas e melhor remuneração do produto. Tudo isso pode sinalizar redução dos preços aos consumidores, pois teremos aumento na oferta desses produtos”.

Exportação

Nos últimos meses, o setor viu o mercado externo com apetite pelos produtos brasileiros e a preocupação que pode surgir é sobre um eventual desabastecimento interno. No entanto, isso não deve acontecer. “Quanto às exportações, o aumento da demanda internacional e o dólar favoreceram as vendas externas, que são essenciais para a economia e para a geração de divisas para o País. Entretanto, a elevação dos preços internamente não está necessariamente ligada às exportações porque o mercado interno consome a grande parte do que produzimos. O que vai para fora são os excedentes”.

O setor, mesmo na pandemia, foi o que mais gerou empregos em 2020, o que para ele significa um compromisso com a sociedade. “A prova disso foi o saldo positivo de 62.663 vagas de trabalho abertas pelo setor em 2020, o que mostrou a necessidade de mais trabalhadores para garantir a produção. Foi o setor com o melhor desempenho, em um momento que outros segmentos fecham as portas. E o setor agropecuário ainda tem a tecnologia como pilar principal de sua competitividade frente aos outros países produtores de alimentos. Os lucros são reinvestidos na própria fazenda para ter mais ganhos em produção e produtividade, assegurando assim, a oferta de alimentos ao país. Um dos feitos do setor, que deixou de ser importador de alimentos há quatro, cinco décadas, para se tornar um dos maiores fornecedores mundiais de alimentos, foi garantir alimentos a preços acessíveis para as famílias brasileiras”, finalizou.

Fonte: Canal Rural

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