Produtor de borracha pede tarifa de importação maior

Produção em Mato Grosso do Sul: com oferta em alta e demanda em queda, preço da principal variedade de seringueira recuou quase 30% em um ano no país
Representantes da cadeia produtiva da borracha protocolaram na Câmara de Comércio Exterior (Camex) um pedido de elevação temporária de alíquota para a borracha natural importada pelo país dos atuais 4% para 35%. O segmento defende que o aumento serviria de "salvaguarda" para manter a renda do produtor nacional e estimular investimentos em seringueiras em um momento de queda dos preços internacionais da matéria-prima.

O pedido é capitaneado pela Associação Paulista de Borracha (Apabor), sob o argumento de que o segmento passou a ser penalizado pela demanda internacional em queda – na esteira da retração econômica em alguns mercados – e por uma oferta maior, em razão da renovação de florestas na Ásia e a "entrada" do Vietnã como produtor mundial. Segundo Heiko Rossmann, diretor-executivo da Apabor, essa combinação dobrou os estoques mundiais da borracha para 3 milhões de toneladas, depreciando ainda mais as cotações.

De acordo com dados fornecidos pela entidade paulista, a principal variedade de seringueira, a TSR20, era comercializada no dia 30 de agosto a US$ 1.180 por tonelada, contra US$ 1.615 por tonelada na mesma data do ano passado – queda de 26,9%. No dia 30 de agosto de 2013, a tonelada da borracha natural valia US$ 2.265, ou seja, 47,9% a mais.

"Não fosse a valorização do dólar em relação ao [que torna mais cara a importação], o segmento produtor de borracha natural teria suspendido as atividades. Os preços inviabilizariam a produção", afirma Heiko Rossmann.

A preocupação da associação de São Paulo – o Estado é o maior produtor de borracha do país – se apoia também no fato de que, apesar de a commodity valer menos, os custos de sua produção subiram significativamente. João Sampaio, ex-secretário de Agricultura do Estado e tradicional produtor de borracha, cita como exemplos insumos e mão de obra. "A composição dos custos subiu muito. O salário mínimo subiu, e mão de obra é 75% do custo. Insumos que custavam R$ 42 pouco tempo atrás agora passaram a custar R$ 120", afirma.

Nesse contexto, a preocupação é que o produtor adie investimentos e reduza a área plantada, afastando-se das ambições do segmento de ganhar escala nacional. No pior cenário, especula-se até uma desistência da cultura. "Desconheço alguém que esteja arrancando seringueira em estado produtivo. Mas decidir suspender a produção até a melhoria dos preços ou optar por não iniciar a produção em áreas novas é uma realidade", diz Sampaio. "Eu mesmo não estou mais investindo em novas mudas".

A produção brasileira de borracha representa hoje somente uma fração da necessidade de consumo do país – grande parte destinada à indústria de pneus. Dados do IBGE de 2013 indicam que o país produziu 186,9 mil toneladas. Mas o consumo atingiu 420,8 mil toneladas no ano.

Defensores da heveicultura há anos tentam fazer avançar os plantios para minimizar a dependência do Brasil das importações da Ásia. Entre 2006 e 2008, o plantio mundial registrou rápido índice de expansão devido aos preços elevados da commodity e ao consumo voraz de borracha da China. A Tailândia, maior país produtor, ao lado de Indonésia e Malásia, trocou árvores velhas de baixa produtividade por novas. E o Vietnã, até então alheio a esse processo, também entrou no xadrez global.

A reversão dos preços teve início em 2013, quando esses investimentos na Ásia resultaram finalmente na sangria das árvores. Mas o cenário econômico tinha mudado, e a demanda por borracha já não era tão grande. À medida em que o látex começou a jorrar, os R$ 4 pagos nos anos áureos pelo quilo de coágulo no Brasil se transformaram em R$ 1,50 em 2014. O ponto de equilíbrio, nas contas do segmento, é entre R$ 2 e R$ 2,50.

"Chamamos o aumento de alíquota de salvaguarda, e não proteção. Sem isso o setor não se sustenta", afirma Rossmann, da Apabor.

Hoje, são cultivados no país 141 mil hectares de seringueira, sendo 39,3% no Estado de São Paulo, 23,6% na Bahia e 15,7% no Mato Grosso, os três principais Estados produtores, de acordo com o IBGE.

Por Bettina Barros | De São Paulo
Fonte : Valor

Um comentário em “Produtor de borracha pede tarifa de importação maior

  1. Obrigado por disponibilizarem este material. Vemos a grande dificuldade de investimentos para formação de ativos fixos na agricultura. Esta área do agronegócio poderia se tornar mais uma a contribuir com exportações se fomentada.

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