Produção recorde derruba cotação do milho no Brasil

Joao Brito/Valor / Joao Brito/Valor

Carga de milho em Mato Grosso; exportação recorde estimulou produção

Com a previsão de uma nova colheita recorde de milho no Brasil e a perspectiva de recuperação da produção mundo afora, o mercado doméstico dá sinais de que pode não ser capaz de "digerir" toda a oferta esperada. Como resultado, as cotações da commodity apontam para baixo, um movimento que preocupa os produtores e alimenta a aposta do governo em um alívio na inflação – principal matéria-prima da ração usada na criação de aves e suínos, o milho foi o principal responsável pela alta nos preços dessas proteínas em 2012.

Em Mato Grosso, que pode colher mais de 16,5 milhões de toneladas do grão neste ano (segundo a previsão divulgada ontem pela Conab), as negociações estão praticamente paradas. De acordo com o Imea, os produtores venderam apenas 17,8% da safra a ser colhida no meio do ano, ante 43% há um ano.

Segundo Kleber Noronha, analista do Imea, as tradings oferecem apenas R$ 12, em média, pela saca do milho que começa a ser colhido em julho. O valor é até 30% menor do que o negociado há um ano, inferior ao preço mínimo de garantia do governo federal (R$ 13,08) e insuficiente para arcar com os custos de produção. "O cenário é completamente diferente este ano", afirma.

O mercado de milho de Mato Grosso mudou de patamar na safra 2011/12. Em meio à escalada dos preços internacionais e a escassez de estoques na região, os produtores foram estimulados pelas tradings (por meio de compras antecipadas) a dobrar a área plantada com o grão, o que resultou em uma produção de 15,61 milhões de toneladas.

Com a quebra da produção no Sul do país, na Argentina e, sobretudo, nos EUA em 2012, a demanda externa por esse milho cresceu ainda mais e as exportações brasileiras do grão bateram recorde – o volume de embarques mais do que dobrou, para quase 20 milhões de toneladas no período. Após o sucesso de 2012, os produtores de Mato Grosso voltaram a apostar no milho, elevando em quase 19% a área plantada com o grão, segundo a Conab. O problema é que o mercado internacional, ao contrário do que ocorreu em 2012, pode não precisar do milho de Mato Grosso neste ano.

A expectativa – ainda extraoficial – do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) é que o país colha quase 369 milhões de toneladas do grão no segundo trimestre, acréscimo de quase 100 milhões de toneladas em relação a 2012.

Como consequência, os contratos de milho para entrega em setembro (quando a produção americana chega ao mercado) já são negociados na bolsa de Chicago com um desconto de 20% (US$ 1,43 por bushel ou R$ 3,38/saca) em relação aos contratos para entrega neste mês. Na BM&FBovespa, os contratos para julho têm desconto de 13,1% sobre março.

"Estamos apreensivos com o que vai acontecer. Se os Estados Unidos colherem bem, a pressão será muito grande. Não temos condição, com a nossa logística, de competir com o exportador americano", afirma Claudio Zancanaro, presidente da comercializadora de grãos Agrosoja. Segundo ele, o custo para se transportar o milho de Mato Grosso até o porto de Paranaguá é de cerca de R$ 19,80 por saca, o que corresponde a mais da metade do preço oferecido pelo grão no porto paranaense – no caso da soja, essa relação é de 26%.

Para Anderson Galvão, diretor da consultoria Céleres, a capacidade de escoamento da safra também será menor em 2013. "No ano passado, a quebra da produção de soja abriu espaço para o milho nos portos. Este ano, com uma colheita recorde de soja, a logística está estressada e pode não abrir espaço para um produto de menor valor como o milho".

Para ele, se o cenário de superoferta se confirmar, o governo terá de intervir no mercado. "Este pode ser o ano ideal para a Conab fazer estoque regulador", afirma.

Ontem, o diretor de Política Agrícola da Conab, Silvio Porto, disse que o governo espera preços "bem mais arrefecidos" no segundo semestre e deixou a porta aberta para uma intervenção no mercado. "Há condição para que, além de leilões de opção de compra, realizemos aquisições do governo federal [no segundo semestre] porque a possibilidade de termos em Mato Grosso preço abaixo do mínimo para o milho safrinha é real".

O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Neri Geller, disse ainda que o objetivo da pasta é, em no máximo 20 dias, lançar um contrato de opção para o milho para repor os estoques públicos.

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Fonte: Valor | Por Gerson Freitas Jr. e Lucas Marchesini | De São Paulo e Brasília

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