Produção industrial cresce no Nordeste, mas continua em queda na região Sudeste

A indústria do Nordeste se descolou do resto do país e encerrou os primeiros oito meses do ano com uma produção 2,2% maior do que a de igual período do ano passado. Na mesma comparação, a indústria de São Paulo registrou queda de 5,6%, enquanto a do Rio de Janeiro e a do Espírito Santo caíram mais de 6%, resultados que contribuiram para a retração de 3,4% na média nacional, segundo dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nos últimos dois meses, essa dicotomia entre o Nordeste e o Sudeste arrefeceu.

Isolado, o mês de agosto mostrou uma recuperação mais disseminada da produção industrial nas regiões pesquisadas pelo IBGE, movimento que fortalece a visão de que o setor se enquadra num processo, ainda lento, de crescimento, segundo especialistas ouvidos pelo Valor.

De acordo com a Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF) Regional de agosto, 9 dentre 14 localidades apresentaram alta na produção na passagem de julho para agosto, feitos os ajustes sazonais. A média do país foi de avanço de 1,5% da produção industrial nessa comparação.

No intervalo anterior (passagem de junho para julho), a produção industrial tinha crescido 0,5%. No entanto, a produção recuou em 9 de 14 regiões – movimento oposto ao observado em agosto. A retomada da atividade industrial na comparação por regiões se soma a um dado que havia sido divulgado na semana passada. Entre os 27 ramos contemplados pela PIM no conjunto do país, 20 apresentaram alta na produção em agosto, ante julho.

Para Julio Gomes de Almeida, professor da Unicamp e ex-secretário de Política Econômica da Fazenda, tais fatores ganham ainda mais relevância quando esse crescimento é acompanhado por Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, que possuem parques industriais mais complexos e, portanto, refletem uma recuperação mais orgânica quando registram avanço na produção. "Isso nos dá um grau maior de certeza de que esse crescimento veio para ficar, pois ele está bem distribuído entre os segmentos da indústria e entre as regiões", avalia.

Na passagem de julho para agosto, feitos os ajustes sazonais, a atividade industrial cresceu 2,7% em São Paulo e 3,3% em Minas Gerais. Outro importante e complexo parque industrial, segundo o professor da Unicamp, é o do Rio de Janeiro. Ali, a produção cresceu 0,6% na mesma comparação. "O fato de a produção crescer em regiões onde a indústria é mais diversificada é um sinal de que o miolo da indústria está se recuperando. Não se trata apenas de movimentos setoriais."

O economista Alexandre Andrade, da Votorantim Corretora, discorda. Para ele, a recuperação vista na indústria em agosto é reflexo do bom desempenho apresentado por setores específicos. "Esse resultado foi bastante influenciado pelo desempenho de alguns setores, especialmente os que receberam benefícios fiscais do governo", afirma o economista, segundo quem a recuperação da indústria ainda está calcada em bens duráveis.

"Vamos, aos poucos, superar a concentração em bens de consumo duráveis, como automóveis, móveis e eletrodomésticos, e espalhar a recuperação para bens duráveis, intermediários e, finalmente, bens de capital", avalia Andrade.

Apesar da estagnação da produção industrial no Nordeste em agosto, ante julho, a região diverge do restante do país no acumulado do ano. Entre janeiro e agosto, a produção industrial da região cresceu 2,2% na comparação com igual período de 2011. O saldo total da indústria, contabilizando, inclusive, o Nordeste, é de recuo de 3,4% nessa mesma comparação.

Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, o resultado da região está diretamente ligado à robustez de seu mercado consumidor. "O reajuste de 14% do salário mínimo em 2012 pode ter dado um empuxo de demanda, o que ajudou o setor industrial ao longo do ano. O mercado doméstico está impulsionando o Nordeste", diz Vale.

Dois segmentos se destacam na abertura dos dados da indústria do Nordeste. Contribuem para o avanço de 2,2% no acumulado do ano os setores de produtos químicos, que responde por 1,8 ponto percentual dessa alta, e de alimentos e bebidas, que responde por 0,74 ponto.

Andrade, da Votorantim, acrescenta que, principalmente no setor de alimentos e bebidas, são as vendas no varejo que alavancam a produção industrial. "O comércio varejista no Nordeste nos últimos anos tem mostrado um desempenho acima da média nacional. Isso tem a ver com o aumento de poder aquisitivo das famílias."

Apesar da recuperação em agosto, os Estados da região Sudeste ainda acumulam queda entre janeiro e agosto, na comparação com igual período de 2011. Em São Paulo, o recuo da produção é de 5,6%. No Rio, de 6,5% e, em Minas Gerais, de 0,4%, sempre na comparação entre 2012 e 2011, no acumulado até agosto. No Brasil, a queda nessa análise é de 3,4%.

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Fonte: Valor | Por Carlos Giffoni | De São Paulo

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